Falou-se muito dele na altura, mas o tempo passou, e o Dr. Ian roberts caiu no esquecimento. foi ele um dos heróis que ajudaram a salvar Romain Grosjean no dia 29 de novembro de 2020, quando no Grande Prémio do Bahrein de Fórmula 1 um gravíssimo acidente do francês, que lhe podia ter custado a vida, redundou num final feliz e deixou muitas histórias para contar.
Esse dia ficou marcado por um dos acidentes mais chocantes da história recente do desporto motorizado. Romain Grosjean (Haas), embateu violentamente nas barreiras a 220 km/h, e o seu monolugar partiu-se ao meio, irrompendo em chamas. No meio do caos e da gigantesca bola de fogo, o Dr. Ian Roberts, médico oficial da Fórmula 1, emergiu como uma figura central no resgate do piloto francês.
E é essa história que agora contou de forma detalhada à BBC. Quando o carro médico, com o Dr. Ian Roberts a bordo, seguia os pilotos na primeira volta, ninguém esperava a dimensão do que estava prestes a acontecer. “De repente, houve esta enorme bola de fogo”, recordou o Dr. Roberts à BBC, descrevendo o momento em que a realidade se tornou um pesadelo. Ao aproximar-se do local do acidente, a visão era aterradora: “Pude ver o carro partido ao meio e o piloto através de um buraco na barreira. Lembro-me de pensar ‘vamos buscá-lo’ e ‘isto vai doer’.”
O combustível que escapava do monolugar alimentava as chamas, criando uma barreira de calor intenso. Contudo, a equipa médica e os marshals no local agiram com rapidez e coordenação exemplares. “Um marshal aproximou-se e lembro-me de os dirigir para o buraco na barreira para abrir um caminho nas chamas e permitir que o Romain saísse”, explicou o Dr. Roberts. A prioridade era clara: alcançar Grosjean e tirá-lo do perigo iminente.
Os segundos críticos dentro das chamas
Romain Grosjean esteve preso no carro em chamas durante quase 30 segundos, um período que se revelou uma eternidade. O impacto inicial foi de 67G, uma força brutal que testou os limites da segurança dos carros de Fórmula 1. O Dr. Roberts é uma das poucas pessoas que teve acesso às imagens da câmara on-board do acidente, um vídeo que nunca será divulgado ao público. “A filmagem in-car é bastante poderosa, não consigo imaginar o que deve ter sentido estar rodeado pelas chamas”, revelou à BBC.
Grosjean, que falou abertamente sobre a sua experiência, recordou o momento em que pensou que tudo estava perdido, mas a imagem da sua mulher e filhos deu-lhe a força para lutar e sair do habitáculo. “Ele até perdeu o sapato no processo”, acrescentou o Dr. Roberts, salientando a agonia e o esforço do piloto para se libertar.
“Eu quero andar”: o gesto de coragem de Grosjean
Após ser retirado do inferno em chamas e ser socorrido pelo Dr. Roberts, Grosjean insistiu em andar, recusando ser transportado de maca. “Mas ele disse ‘não, eu quero andar’ e, ao fazê-lo, enviou uma mensagem a todos no paddock, especialmente à sua família, de que estava fora e estava bem”, recordou o Dr. Roberts. Este gesto simbólico de força e resiliência, apesar das queimaduras nas mãos e nos pés, foi o melhor sinal que podia ter dado, especialmente à sua família. Se tinha forças para ‘aquilo’, não estaria assim tão mal.
As lesões de Grosjean, embora graves, permitiram-lhe recuperar e prosseguir a sua carreira na série Indycar, sediada nos Estados Unidos. A investigação oficial do acidente concluiu que o equipamento de segurança do piloto foi fundamental para a sua sobrevivência, e a FIA identificou várias áreas para melhorias contínuas na segurança.
Numa mensagem de vídeo à BBC, Grosjean expressou a sua gratidão: “Nunca agradeci o suficiente ao Ian [Roberts] por ter vindo e me ter resgatado. Faz cinco anos, acredite ou não, [mal posso esperar] para o ver novamente em breve.”
O Dr. Ian Roberts, residente em Burton-upon-Trent, Staffordshire, desempenha o papel de médico oficial da Fórmula 1 desde 2013, a sua jornada no desporto motorizado começou em 1993, recentemente, foi distinguido com o prémio Courage and Sportsmanship, uma honra geralmente atribuída a pilotos, e recebeu a rara filiação honorária completa do BRDC (British Racing Drivers’ Club), uma distinção notável para alguém que não compete.