Senhoras, senhores e Comissários Técnicos que ainda usam óculos de descanso sem graduação: bem-vindos à sala de aula da disciplina mais disfuncional do planeta, também conhecida como Fórmula 1. O cenário é a prestigiada secundária de La Place de La Concorde, em Paris.
Na secretária do professor senta-se a FIA, aquele docente extremamente zeloso, de ar bonacheirão, que adora os seus alunos mas que tem a acutilância visual de uma toupeira numa cave sem luz. O professor FIA decidiu aplicar um teste surpresa chamado ADUO (Avaliação de Desenvolvimento Adicional) para perceber quem precisa de explicações gratuitas.
O objetivo era nobre: ajudar os mais “burrinhos”. E é aqui que a comédia entra em pista.
O Totó da primeira fila
De um lado da sala temos a Red Bull Powertrains. É o aluno novo da turma. Chegou este ano, comprou os cadernos de capa preta, afiou os lápis e passou as noites a queimar pestanas. Queria mostrar serviço.
No teste, deu tudo o que tinha, resolveu as equações ao limite e entregou a folha com um sorriso orgulhoso de quem tentou ter a melhor nota possível, mesmo sabendo que “era novo nisto”.
Do outro lado, sentados no fundo da sala com os braços cruzados, estão a Mercedes e a Ferrari. Estes dois são os veteranos da escola, os reis do “engasganço” tático. Sabem a matéria toda de cor e salteado, mas têm um plano. Durante a prova, o cenário foi digno de uma novela mexicana. Fred Vasseur, pela Ferrari, olhava para o enunciado, agarrava no pouco cabelo e soltava um suspiro teatral.
Do outro lado do corredor, Toto Wolff, pela Mercedes, roía a tampa da caneta com um ar tão desconsolado que parecia estar a viver o drama mais intenso da sua vida.— “Oh, Sr. Professor FIA…” — choramingou a Ferrari, limpando uma lágrima invisível. — “Isto da combustão interna é tão difícil! Olhe para mim, ando a arrastar-me nos testes a uns míseros 1m23s. Acho que vou chumbar. Dê-me oportunidades para repetir o exame, e tentar subir a nota, por favor!” — “Sim, Sr. Professor!” — saltou a Mercedes, fingindo um ataque de nervos. — “Eu também estou muito atrás! Sinto-me pelo menos 2% mais burro que os outros. Só uma ajudazinha no teste de Monza ou de Silverstone me safava…”
O pacato professor FIA, comovido com tamanha aparente “fragilidade” intelectual, olhou para os papéis secretos do seu algoritmo confidencial, ajeitou os óculos e sentenciou: — “Ai, meus meninos, que drama. Tomem lá os vossos passes VIP de ajuda. Tu, Ferrari, podes repetir isto duas vezes. Tu, Mercedes, tens direito a uma abébia. Agora… olhem-me para aquele menino ali da Red Bull Powertrains. Que soberbo! É o mais esforçado da turma, o nosso ‘benchmark’! E ainda agora chegou! Não precisa de ajuda nenhuma e fica já proibido de estudar mais até ao fim do ano!”
O milagre ao contrário: Quando andar devagar dá nota alta
O absurdo desta metáfora é que ela é rigorosamente real. No papel e no algoritmo ultra-secreto da FIA, o motor da Red Bull Powertrains é a oitava maravilha do mundo moderno.
Na pista de corrida, porém, o cronómetro — que é aquele relógio antipático que não quer saber de diplomacia — conta uma história completamente diferente.
Em ritmo de qualificação pura, a Mercedes lidera com uma média de 1m22,706s, a Ferrari segue-lhe as pegadas com 1m23,117s e a Red Bull surge no modesto quarto lugar com 1m23,360s.
Ou seja, o motor “perfeito” da Red Bull é, na verdade, o mais lento dos três.
É o equivalente automobilístico a dar o prémio de culinária ao concorrente que queimou o arroz, só porque ele garantiu que o fogão estava mal calibrado.
Mercedes e Ferrari aplicaram a antiquíssima arte do sandbagging — que em bom português se traduz por “fingir que se é coxo para ver se o cego nos dá boleia”.
Correram com os motores em regimes tão conservadores até ao Canadá que o sistema da FIA engoliu o engodo por completo. E agora, quem fecha a garagem?
A Red Bull, coitada, pecou por excesso de honestidade e falta de malícia política. Enquanto os seus engenheiros tentavam criar o melhor motor possível, esqueceram-se de que na Fórmula 1, às vezes, o segredo do sucesso é saber falhar na hora certa.
O resultado prático desta comédia de bastidores é delicioso: A Red Bull ficou de mãos atadas, com o desenvolvimento do seu motor congelado porque a FIA achou que eles são demasiado bons; A Ferrari já esfrega as mãos com uma evolução prontinha a sair do forno para o Grande Prémio da Áustria; A Mercedes pode finalmente acabar com o teatro, “soltar as rédeas” aos cavalos do seu motor e voar pelas pistas sem o medo de ver o professor confiscar-lhe os brinquedos. Os “cérebros” da Fórmula 1 voltaram a provar que estão três voltas à frente do regulador. Resta à Red Bull aprender a lição para o próximo ano letivo: na F1, quem estuda muito acaba castigado na secretaria.










