Esta é sem dúvida uma grande mudança na Fórmula 1 em 2021: a introdução do primeiro limite de custos da Fórmula 1, fixado esta época numa base de $145 milhões (embora na realidade seja de $147,4 milhões, com as equipas a disporem de mais $1,2 milhões por cada corrida para lá das 21 com que foi negociado o teto orçamental). Está previsto esse valor cair para $140 milhões em 2022, e $135 milhões para 2023. Vamos falar em dólares, ao invés de euros, pois foi assim que originalmente foi negociado.
Este limite cobre todos os aspetos das corridas de uma equipa de Fórmula 1, com algumas exceções: os custos de marketing, os salários dos pilotos e os salários dos três principais dirigentes das equipas não estão incluídos. Também não estão incluídos os custos das licenças de maternidade, paternidade e doença dos funcionários, bem como os custos dos benefícios médicos para o pessoal da equipa, e dos pacotes de despedimentos.
As equipas estão também autorizadas a suportar custos de 45 milhões de dólares relacionados com “despesas de capital” – para coisas como a compra de maquinaria para as suas fábricas – entre o presente, e o final de 2024.
Curiosamente, este teto orçamental é visto de formas diferentes, dependendo do interlocutor. Para Ross Brawn, diretor geral da F1, acredita que era imprescindível avançar para esta medida, caso contrário a F1 ficaria em perigo: “Acho que sem a capacidade dessas equipas de chegarem às chefias das marcas e dizerem “a Fórmula 1 é vital e custará menos no futuro’, não acho que teríamos retido o número de fabricantes ou grandes equipas que temos “, afirmou. “Quando um fabricante faz ajustes económicos necessários, se a Fórmula 1 ainda existe com gastos ilimitados, é difícil ter argumentos para defender a manutenção da equipa”, admitiu.
“Acho que mantivemos todos os principais atores envolvidos, e isso porque conseguimos dizer que somos sustentáveis do ponto de vista económico”.
Já o chefe da Mercedes, Toto Wolff, admite que o limite orçamental se tornou numa vantagem para a equipa. Pensava-se que a Mercedes seria a mais afetada com a medida mas parece que até poderá jogar a seu favor: “É preciso limitar a forma como se opera, mas acreditamos que esta é uma vantagem de desempenho porque nos obrigou a repensar o que fazemos e como o fazemos”, disse Wolff. “Há mais ênfase e foco nas áreas em que acreditamos que podem trazer o melhor desempenho. Para nós, dar prioridade tem sido sempre fundamental para a forma como funcionamos. Em vez de tentarmos fazer A e B, temos de escolher A ou B porque simplesmente colocamos mais ênfase no que pensamos que nos trará mais desempenho. Mas o limite de custos trouxe isso para um novo nível porque não operávamos antes dentro de uma limitação de custos regulamentar. Obviamente que no mundo real sempre houve um limite orçamental, mas agora é preciso que esteja precisamente dentro desses limites. Isso significa que é preciso de compreender os processos. Cada item precisa de ser avaliado a nível de custos”.
Já o Diretor Técnico da Alfa Romeo Racing, Jan Monchaux, que vive noutra ‘realidade’, é de opinião que o teto orçamental da Fórmula 1 não vai produzir os seus efeitos já em 2021. O homem de Hinwill acredita que “serão necessários dois ou três anos” até que o impacto do novo limite de custos seja plenamente sentido na Fórmula 1: “Não creio que qualquer efeito do limite orçamental na competitividade das equipas seja evidente em 2021. O limite orçamental só está a ser introduzido para esta época, quando os carros de 2021 já tinham sido construídos. Haverá desenvolvimento durante a época, é claro, mas com os regulamentos a permanecerem moderadamente estáveis entre 2020 e 2021, não são para já esperadas grandes alterações na ordem das equipas, mas vamos começar a ver mais alguns impactos a partir de 2022, quando todas as equipas terão o mesmo tecto orçamental para desenvolver o carro. Penso que isto resultará na redução das lacunas no desempenho, embora o efeito total dos novos regulamentos demore alguns anos a tornar-se totalmente aparente. As grandes equipas não só têm o dinheiro e as pessoas para lhes dar uma vantagem, mas também uma vantagem tecnológica de que beneficiam, e o efeito disso levará alguns anos a desvanecer-se. Além disso, não devemos esquecer que o limite orçamental não cobre o motor, que é o coração do carro, que continuará a ser um grande diferenciador e, portanto, uma vantagem para os melhores.
Seja como for, estou confiante de que dentro de dois ou três anos as diferenças serão reduzidas”.
O diretor desportivo da Alfa Romeo, Beat Zehnder tem um visão muito interessante quanto aos efeitos da entrada em vigor do teto orçamental na Fórmula 1 e diz que nos primeiros dois anos dificilmente se vai notar alguma diferença, remetendo para uma altura em que as grandes equipas tenham de fazer fortes ajustamentos, e aí possam ter dificuldades a adaptar-se melhor a uma realidade que já é vivida há muito pelas equipas mais pequenas: falta de meios e a necessidade de otimizar ao máximo os que que têm: “Sim, mas não para 2022. Nós somos muito eficientes. Se compararmos a lista de funcionários de todas as equipas, facilmente se percebe que as maiores têm muito mais gente. Contudo, o benefício só será sentido em 2023 e 2024.
As grandes equipas não vão despedir 300 ou 400 pessoas do dia para a noite, pois vão ter uma fase de transição e com isso vão conseguir desenvolver os novos carros para 2022 com mais recursos e pessoal. Mas, quando chegar o momento de se adaptar a trabalhar com muito menos gente, podem ter mais dificuldades”, porque não estão habituadas a trabalhar de forma otimizada, mas sim, sempre que precisam de alguma coisa, seja lá o que for, têm sempre gente para o fazer, enquanto as equipas mais pequenas não têm de mudar nada, pois muitas até trabalham com valores abaixo do teto orçamental estabelecido.











