21 Outubro 1984: O dia em que a Fórmula 1 regressou a Portugal


Um dos acontecimentos mais importantes da vida do AutoSport foi o regresso, 24 anos depois, do Campeonato do Mundo de F1 a Portugal. Isso aconteceu em 1984 e, como não podia deixar de ser, o Grande Prémio de Portugal mereceu amplo tratamento por parte do “Semanário
dos Campeões”. Assim, a 18 de Outubro de 1984, no seu nº 373, o AutoSport publicou uma exaustiva antevisão do GP, incluindo mesmo uma ampla visão estatística dos “35 anos de Campeonato do Mundo de Fórmula 1 – 1950/1984”, bem como de todos os Grandes Prémios disputados
até então em 1984. Fazia, ainda, um “histórico” de todos os Grandes Prémios de Portugal anteriores – 1958, 1959 e 1960. E, também, uma cuidada apresentação de todas as 14 equipas e 27 pilotos que vinham ao Estoril. Dias mais tarde, a 21 de Outubro, saiu um caderno “Especial” sobre o evento: “Lauda ou Prost: que ganhe o melhor”, era o título da capa e, lá dentro, podia ler-se sobre os treinos, entre quinta-feira e sábado e ver-se a publicação da grelha de partida, entre outros artigos, sobre as corridas de contorno, os carros históricos em exposição junto à pista e, ainda, uma completa recolha de opiniões de jornalistas veteranos, que há muito acompanhavam o “Mundial” de F1, sobre a renovada
pista do Estoril. Depois, na data habitual de publicação do AutoSport – quinta-feira, que então calhou a 25 de Outubro – surgiu nos escaparates dos quiosques o nº 374, onde se fazia a reportagem completa do Grande Prémio de Portugal, onde Niki Lauda conquistou o seu terceiro
título mundial, em contraponto com o “terceiro título perdido” por Alain Prost, que venceu a prova mas perdeu a coroa por… meio ponto.

24 anos depois da vitória de Jack Brabham
Foi com natural estupefação e muita, mas muita alegria que os portugueses, em geral e os adeptos do desporto automóvel, em particular, acolheram a notícia de que a Fórmula 1 ia regressar a Portugal. Gilles Gaignault, o adido de imprensa da Federação Mundial afirmou, peremtoriamente, a 3 de Junho de 1984, durante o G.P. do Mónaco, que a inclusão de Portugal no calendário Mundial desse mesmo ano estava confirmada e que o Grande Prémio teria lugar a 21 de Outubro. A notícia correu célere, mas foi necessário esperar mais algum tempo para que César Torres, o grande obreiro desta iniciativa, confirmasse oficialmente que, 24 anos depois da vitória de Jack Brabham no circuito da Boavista, a Fórmula 1 estava de volta.

Fazendo a cronologia dos acontecimentos, tudo começou quando em Março de 1984, a Autodril, empresa proprietária do Autódromo do Estoril e a Junta de Turismo da Costa do Estoril conduziram a bom porto um conjunto de negociações que visavam a canalização de verbas de apoio à concretização de importantes obras de que a nossa única pista permanente necessitava, para a sua reanimação nacional e internacional. As obras iniciaram-se e, desta forma, deu-se um primeiro grande passo que, mais tarde, permitiria “sonhar” mais alto e que esse sonho se tornasse realidade.

A 7 de Junho e em entrevista ao AutoSport, Alfredo César Torres afirmava: “Apanhámos o comboio no momento certo. O sector do turismo nacional e em particular o seu Secretário de Estado manifestou-me grande interesse na possibilidade de organizarmos uma corrida de Fórmula 1 em Portugal, mas o assunto, por uma razão ou por outra, foi sempre adiado. Chegámos mesmo a pensar num traçado urbano em Lisboa, ideia que logo abandonámos pelos elevados custos de montagem e desmontagem da prova. Na sequência das obras que estão em curso no Autódromo do Estoril e que têm o elevado contributo económico da Comissão de Obras da Zona de Jogo do Estoril, o assunto voltou a ser abordado e recebi a missão de estudar as possibilidades de termos um Grande Prémio.”

César Torres iniciou, no princípio de Abril, as negociações tendentes a que Portugal fosse incluído no Campeonato de 1985 e após ter sido firmado um acordo comercial com a FOCA e o seu presidente Bernie Ecclestone, começaram a levantar-se hipóteses credíveis de a prova vir a realizar-se já em 84, o que iria exigir um esforço enorme. César Torres confessava ao Semanário dos Campeões que, “considero ser muito importante ter já a corrida este ano pois existem muitos países que perseguem a hipótese de ter um Grande Prémio ao longo de muitos anos e não o conseguem. E nos conseguirmos isso em dois meses seria excepcional.”

Mas, para que no campo das decisões internacionais, o acolhimento ao Grande Prémio de Portugal fosse tão célere, muito contribuiu a anulação do G.P. de Espanha. E a nossa prova perfilou-se, então, como uma alternativa perfeita.

Ultrapassados os mais diversos obstáculos, que passaram por um conjunto de acordos com a Autodril e vencidas as dificuldades burocráticas com a Câmara de Cascais, o sonho começou a tornar-se realidade e todas as obras necessárias avançaram em força. Assinado um acordo válido por cinco anos com a Formula One Constructors Association, condição imprescindível para semelhante investimento, os meses que se seguiram foram de perfeita “loucura” no Autódromo do Estoril. E para que nada faltasse à grande festa do desporto automóvel, Niki Lauda e Alain Prost, ambos pilotos da McLaren- TAG Porsche, deram uma substancial ajuda, “deixando” a decisão do título para o nosso Grande Prémio, a última prova do Campeonato.

Num ambiente inexcedível, milhares de pessoas rumaram ao Autodrómo do Estoril nesse fim de semana do final de Outubro, assistindo a uma excelente corrida. A vitória neste Grande Prémio de Portugal foi para Alain Prost, mas, os nove pontos conquistados foram insuficientes para garantir o triunfo no Campeonato, já que a segunda posição de Niki Lauda, na corrida, permitiu-lhe ostentar os louros de vencedor do Mundial (a sua terceira vitória) com apenas meio ponto de diferença.

Estava dado o mote para um conjunto de Grandes Prémios no Autódromo do Estoril pautados, sempre, por um enorme interesse. Infelizmente o ano de 1996 marcou o afastamento de Portugal do calendário da Fórmula 1 e as esperanças de voltar a ver evoluir no nosso país os monolugares de F.1 são, agora, francamente diminutas, para não dizer inexistentes.