Alan Jones, campeão mundial de Fórmula 1 em 1980 com a Williams, morreu. Com ele, fecha-se um capítulo de teimosia, sangue na guelra e honestidade brutal que o paddock de hoje já só conhece de ouvir contar…
Cinquenta libras e uma carrinha em segunda mão
Em 1970, um jovem de Melbourne aterrou em Londres depois de mais de vinte horas de voo. Levava 50 libras nos bolsos e um objetivo: ser piloto de automóveis.
Com esse dinheiro comprou carrinhas usadas e montou um pequeno negócio de apoio a compatriotas em viagem. Quando a namorada, Beverley, o foi encontrar, alugaram uma casa na costa e passaram a arrendar quartos. Era o sustento, não era o sonho.
Alan Stanley Jones nascera a 2 de novembro de 1946, em Melbourne, no estado de Victoria. O automobilismo vinha-lhe do pai.
FOTOS WRI RAcing Images/Arquivo AutoSport
O filho de Stan
Stan Jones (1923-1973) foi um dos principais pilotos australianos do pós-guerra e venceu o Grande Prémio da Austrália de 1959. Recusou propostas da BRM e da Ferrari para correr na Europa, porque preferiu ficar junto da família. O filho herdou a mesma ligação ao lar, e isso, na dura vida de um piloto, chegou a travar-lhe a carreira.
Stan era também dono de uma concessão automóvel bem-sucedida. Alan cresceu entre motores e decidiu cedo que, em “grande”, seria piloto. Foi campeão de karting aos 15 anos e correu depois em Mini e nos Cooper de Fórmula Júnior da equipa do pai.
A recessão económica australiana de meados dos anos 60 levou o pai à falência. Em 1967, contra todas as expectativas, Alan juntou dinheiro para a clássica viagem juvenil pela Europa. No fim, jurou a si próprio que o futuro estava em Inglaterra.
Anos de azar e de teimosia
Em Inglaterra, os resultados não apareciam enquanto durou um velho Fórmula Ford. Depois, um acidente com um Lotus de F3 em Brands Hatch valeu-lhe uma perna partida. Stan, entretanto divorciado, foi ao seu encontro para dar apoio moral, porque pouco mais tinha para oferecer.
Jones não desistiu. Reuniu um pequeno patrocínio, o suficiente para decorar um GRD de F3, e conquistou em Silverstone, em 1973, a primeira vitória. Nesse ano, Stan morreu de ataque cardíaco, aos 51 anos. No regresso à Austrália, o caixão levou dentro a faixa e a coroa de louros de vice-campeão de F3 do filho.
Em 1974 destacou-se na Fórmula Atlantic, ao serviço de uma equipa privada. Foi o que lhe abriu, por fim, a porta da F1, em 1975.

De errático a campeão
A estreia, com a Hesketh, aconteceu em Montjuich, no GP de Espanha. Foi uma prova de má memória, marcada pelo acidente de Rolf Stommelen, que causou dois mortos entre os espectadores. Após quatro corridas, a Hesketh abandonou a competição. Jones passou para a nova Embassy/Hill, de Graham Hill, no lugar do ainda lesionado Stommelen.
Um quinto lugar inesperado no Nürburgring convenceu John Surtees, que o contratou para 1976. Foi o primeiro contrato a tempo inteiro de Jones. Ao volante do TS19, com as cores da Durex, terminou o ano com um 4.º lugar no Japão, sob condições atmosféricas tenebrosas. Não foi suficiente para se manter na equipa.
Em 1977 não constava no plantel. A F1 era então uma competição perigosa. A morte de Tom Pryce, no GP da África do Sul, abriu uma vaga na Shadow, que Jones ocupou. No GP da Áustria, com um carro pensado para o malogrado Pryce, conquistou a primeira vitória da carreira, que foi também a única da equipa.
Isso cativou Frank Williams, que lhe propôs um contrato múltiplo. A Williams vivia um grande momento, alimentada pelos petrodólares árabes.
1980: a consagração
Em 1979, o FW07 substituiu o FW06 ao fim de quatro provas e mostrou-se logo um dos chassis mais competitivos. Depois de quatro abandonos e um quarto lugar, Jones venceu quatro corridas em cinco. Acabou o ano em terceiro, atrás da dupla da Ferrari, Gilles Villeneuve e Jody Scheckter.
O ano seguinte foi o da consagração. Jones e o FW07 formaram uma combinação imbatível. Com cinco vitórias, duas delas nas duas últimas corridas, o australiano sagrou-se campeão do mundo, o primeiro título de Frank Williams.
A lua-de-mel com o fleumático britânico durou pouco. Jones tinha sido uma criança difícil, de temperamento sanguíneo, que fervia em pouca água. Em adulto, isso tornou-o muitas vezes desagradável e politicamente incorreto. Não tinha amigos no paddock.
Em 1981, o FW07C revelou-se pouco fiável e propenso a quebras mecânicas, e Jones ganhou apenas duas vezes. Ficou sozinho com os seus protestos. Terminou novamente em terceiro, com a última vitória em Las Vegas. Bateu com a porta e regressou ao que chamava “mais bonito país do mundo”, para ser fazendeiro.
Regressos e despedida
Engordou e descurou a forma física. No início de 1983 aceitou pilotar um Arrows no GP de Long Beach. A experiência foi amarga. Corpulento demais para o cockpit estreito, mal se conseguiu instalar e não aguentou a dureza da prova.
O orgulho ficou ferido. Jones justificou o desaire com “muitas mulheres e ainda mais canecas de Fosters”, a cerveja mais famosa da Austrália. Voltou à fazenda e só saiu no final de 1985, atraído por uma oferta milionária da nova Lola-Beatrice. Foi um desastre. A equipa fechou sem dinheiro no fim de 1986. O melhor que Jones obteve nesse ano foi um quarto lugar na Áustria e um sexto em Itália. O último GP foi o da Austrália, em 1986.
O que ficou
Os números do seu palmarés são estes:
117 Grandes Prémios disputados, com 116 largadas.
12 vitórias, de Áustria 1977 a Las Vegas 1981.
6 pole positions, 13 melhores voltas e 24 pódios.
1 título mundial, em 1980.
Fora da F1: Can-Am Challenge Cup (1978), GP da Austrália extra-campeonato (1980), campeão australiano de GT (1982) e vice-campeão de Turismos (1993).
Na Austrália, correu em Turismos, teve a equipa AJ Racing e ajudou o filho adotivo, Christian, na Fórmula Ford e na F3. Foi comentador de televisão, sobretudo no GP do seu país, e viveu retirado na sua quinta como um “simpático e rechonchudo avozinho”, na descrição de Hélio Rodrigues. Deixa Emma, Christian, Camilla e os gémeos Zara e Jack, além de netos.
Foi um campeão sem amigos no paddock, mas com uma dívida paga ao pai. Aquela coroa de louros que viajou no caixão de Stan acabou por ser o primeiro capítulo de uma história que só terminou com o título de 1980.










RIP. Fui grande admirador, um dos poucos ídolos que tive, pela sua combatividade, resiliência e temperamento bonacheirão – excepto quando lhe pisavam os calos.
Um dos melhores exemplos do seu espírito foi a genuína felicidade com que comemorou a 1ª vitória da Williams, em Inglaterra 1979, pelo seu companheiro Regazzoni, quando ele liderava destacado, para uma equipa que arriscara ao ajudar a construir.
Acho que saíu cedo demais e o regresso com a Beatrice Lola nunca teve as condições esperadas.