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Fiat comprou Lancia há 50 anos

José Manuel Costa by José Manuel Costa
21 Outubro, 2019
in AUTO+
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O aniversário passou despercebido há maioria, mas é verdade: há 50 anos, a Fiat comprova a marca criada por Vincenzo Lancia, em Turim.

Não houve comunicados, não houve festa no Lingotto, o edifício emblemático da Fiat no centro de Turim e que é a sede da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) em Itália, nem fogo de artifício. A Lancia, hoje, é uma caricatura daquilo que já foi e por isso a FCA não quer, sequer, lembrar que a família Agnelli comprou, exatamente em outubro de 1969, uma marca que tinha uma hemorragia financeira grave e que foi, assim, salva do desaparecimento. Seguiu-se um caminho de prosperidade e do lançamento de modelos que ficaram na história do automóvel.

Hoje, a Lancia, virtualmente, desapareceu da paisagem automóvel mundial depois de uma tentativa, falhada por ser ridícula, de recuperar a marca quando foi feita a fusão entre a Fiat e a Chrysler, em 2009. Já antes alguém quis que a Lancia deixasse de ser uma marca híbrida entre os desportivos e os carros de topo para ser uma marca de luxo, deixando caminho aberto à Alfa Romeo. Depois, na FCA, desejou-se que a Lancia fosse fundida com a Chrysler na Europa e assistimos ao disparate de ter modelos da Lancia com símbolo Chrysler nos EUA e o inverso na Europa. Assim, o Chrysler 300 passou a ser o Lancia Thema e o Chrysler Voyager passou a ser Lancia. 

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O pico de vendas desta improvável associação foi de 295 mil unidades vendidas no Velho Continente entre 2010 e 2014. Um falhanço rotundo que levou a Lancia a perder vendas a um ritmo impressionante: de 100 mil unidades em 2010 para 71 765 unidades em 2014.

“Percebemos que a marca Lancia não consegue seduzir fora de Itália, não tem herança seja na Europa, seja nos EUA.” Sabem que disse isto? Exatamente, Sergio Marchionne, o CEO da FCA, em julho de 2014. Um dos vários erros cometidos pelo brilhante executivo da FCA, que só tinha olhos para a Alfa Romeno, numa desesperada tentativa de resistir à venda da casa do Biscione ao grupo VW, tentando provar que Ferdinand Piech estava errado quando dizia que a Alfa Romeo seria enorme dentro do grupo alemão. Duas cabeças duras que entraram em conflito e que acabaram por quase liquidar a Lancia.

E Marchionne tinha mesmo um plano para “matar” definitivamente a marca, mas os seus planos saíram furados quando percebeu que a herança da marca é bem maior do que o seu comentário queria fazer acreditar. Apesar de estar limitada à oferta de um carro já com 8 anos de vida, sem alterações, a Lancia é acarinhada através do infame Ypsilon. 

O AUTOMAIS já tinha dado conta do facto da Lancia vender mais em Itália que a Alfa Romeo em toda a Europa. Contas feitas aos primeiros nove meses de 2019, as vendas do Ypsilon subiram 20% (!) para 45 783 unidades, ao passo que as vendas da inteira gama da Alfa Romeo, em toda a Europa, caíram 42% ficando nas 39 114 unidades! A Lancia tem 0,4% de quota de mercado na Europa, com um único carro vendido num só país!

Claro que há razões para isso e em declarações ao Automotive News Europe, Felipe Munoz, analoista da Jato Dynamics, explica. “A marca Lancia continua a ter uma imagem forte em Itália e o Ypsilon sempre foi popular em Itália. Além disso, o segmento dos citadinos é muito popular em Itália e o Ypsilon é o único carro desse segmento que a FCA tem, para além do Panda, claro, depois do Punto ter sido descontinuado em 2018. 

Contas feitas, o Ypsilon está à venda em Itália há 25 anos (primeiro como Y e depois como Ypsilon), a base de clientes é sólida e leal, o carro atual tem como base o Fiat Panda e a Lancia, nestes 25 anos, já vendeu 1,6 milhões de unidades. Não há como não destacar o excelente trabalho de Antonella Bruno, a CEO da Lancia.

Antonella Bruno

O trabalho feito no segmento das mulheres, leva a que o Ypsilon tenha 75% dos seus compradores entre as mulheres, oferecendo uma proposta menos básica que o Panda e funcionando como a alternativa de 4 portas para o Fiat 500. Depois, têm sido lançadas várias edições especiais que vão renovando o interesse no carro. As “Ypsilon Collections” são já bem conhecidas, com a gestão de Antonella Bruno a piscar o olho ao mundo da moda. 

Depois, o Ypsilon tem uma versão alimentada a GPL que é responsável por 30% das vendas do carro, sendo o terceiro mais vendido, atrás do Dacia Duster e do Fiat Panda, com esta motorização. Um pedaço de um bolo que vale, em Itália, mais de 100 mil unidades.

O lado negro desta situação da Lancia, reside na análise às folhas de vendas de cada mês. Curiosamente, 55% das vendas do Ypsilon são realizadas nos últimos três dias de cada mês, 13% acima do que é a média do mercado. Ou seja, a Lancia faz muitas matriculações sem cliente atribuído. Uma prática muito comum em Portugal e em Itália também.

Estando esta geração há 8 anos no mercado, acredita-se que o Ypsilon seja rentável, até porque é barato de produzir: tem a mesma base do Fiat 500 e do Panda e é feito na Polónia ao lado do 500. Logo será mais barato de produzir que o Panda feito em Itália, tendo tudo o que envolve a fabricação do Ypsilon sido já amortizado. Portanto, o carro sai barato à FCA. O carro não será descontinuado devido a estes valores de vendas e ao facto da FCA ter de estar presente no segmento mais importante em Itália, tudo apontando para que chega aos dez anos de vida. Até porque brevemente vai receber um motor híbrido mais eficiente. Mas não esperem investimento na Lancia, pois a FCA vai manter a casa de Turim confinada a Itália, pois não faz sentido investir numa marca que foi liquidada sem dó nem piedade em favor da Alfa Romeo, esta sim, com muito mais reconhecimento em todo o mundo. 

Ficam as lembranças do Stratos, do Beta, do Delta, da riquíssima herança desportiva de uma marca nascida em 1906, ou seja, já com mais de uma centena de anos de vida.

Tags: FCALanciaYpsilon
José Manuel Costa

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