A ambição de chegar mais longe não poucas vezes exige trilhar caminhos duros e exigentes. A Red Bull trilha esse caminho, com um peso extra… o da incerteza. Depois de perder o título de construtores em 2025 e de se apresentar ao novo regulamento com um motor construído do zero, a equipa de Milton Keynes chegou a Melbourne sem certeza de que o plano delineado daria certo. A época não se tem revelado um desastre, mas também não dá motivos regozijo.
A equipa tinha terminado 2025 em terceiro lugar do Mundial de Construtores, com 451 pontos, atrás de McLaren e Mercedes, depois de uma temporada de altos e baixos que culminou na saída de Christian Horner a meio do ano, substituído por Laurent Mekies. Ainda antes da saída de Horner, a Red Bull assumiu o maior risco estrutural da sua história: tornar-se, através da Red Bull Powertrains em parceria com a Ford, fabricante do seu próprio motor pela primeira vez, depois de duas décadas dependente de terceiros.
Um começo lento, quase 1,2 segundos atrás
O arranque foi a primeira imagem do que seria a temporada. A unidade motriz não comprometeu em demasia e a equipa foi capaz de completar um programa de testes robusto, com mais de cinco mil quilómetros percorridos em Barcelona e no Bahrein. Sendo os primeiros passos da equipa nesta configuração completamente autónoma, a nota era certamente positiva. A primeira corrida do ano, em Melbourne, trouxe uma desistência de Isack Hadjar e um sexto lugar de Max Verstappen, largando da 20ª posição, com um incidente na Q1. Vertappen não pontuou na China, com um problema técnico e Hadjar marcou os primeiro pontos pela Red Bull. O ritmo a que a equipa foi acumulando pontos não foi animador e foi preciso esperar pelo Canadá para a equipa ver o primeiro champanhe da temporada com o pódio de Verstappen. Áustria, Bélgica e Hungria foram as provas que permitiram a Verstappen regressar ao pódio. O melhor resultado de Hadjar foi um quarto lugar, no Mónaco.

O próprio Laurent Mekies reconheceu a dimensão do atraso inicial: “Não assinamos por nada menos do que vencer corridas, mas tenho de aproveitar a oportunidade para dizer parabéns à nossa equipa, tanto do lado do chassis como da unidade motriz. Porque começámos com 1,2 segundos [de atraso] e terminámos com 0,3 segundos, em metade da temporada, e com o nível de competição que existe”.
O motor DM01 da Red Bull Powertrains revelou-se mostrou pontos fortes desde as primeiras voltas. Apesar de alguns problemas nas largadas no início do ano, o nível de desempenho e fiabilidade foi positivo, de tal forma que o ADUO da FIA, que mede o desenvolvimento das unidades motrizes, passou a considerar o motor da Red Bull como referência da grelha, o que, por um lado, mostra o bom trabalho feito. Por outro mostra as fragilidades do sistema ADUO, pois no geral, a unidade motriz Mercedes continua a ser a referência em pista, mas como a unidade da Red Bull se destaca ao nível do motor de combustão interna, ficou sem possibilidade de ter uma janela extra de desenvolvimento.
O contraste entre chassis e motor tem sido evidente: enquanto a unidade motriz surpreendeu pela positiva, o RB22 continuou a sofrer de falta de equilíbrio e instabilidade à entrada de curva, um problema que forçou a Red Bull a abandonar temporariamente a chamada asa traseira rotativa (“macarena”), depois de dois incidentes graves de Verstappen na Áustria e em Silverstone. O chassis apresente dificuldades que têm irritado Hadjar e Verstappen e que afastam a equipa da luta regular pelos primeiros lugares.

O drama paralelo do futuro de Verstappen
Para além dos resultados em pista, a temporada da Red Bull foi marcada por uma novela contratual em torno do futuro de Max Verstappen. O seu contrato, válido até 2028, contém cláusulas de rescisão ligadas a desempenho — supostamente, com a obrigação de estar entre os dois primeiros do Mundial de Pilotos à entrada da pausa de verão para garantir a permanência do piloto. Verstappen terminou a primeira metade da temporada em sexto lugar, muito longe desse objetivo, o que teoricamente lhe permite negociar a saída sem custos, com a McLaren apontada como destino mais provável pelos rumores de bastidores.
Apesar disso, tanto a equipa como o próprio piloto insistem que a intenção é continuar juntos. Mas é verdade que a paciência de Verstappen está mais curta que o habitual e que as saídas nomes fortes, como o caso de Gianpiero Lambiase, para a McLaren, apenas ajudam a fortalecer os rumores de uma potencial saída. Verstappen por várias vezes mostrou lealdade à sua equipa, mas está na F1 para vencer e se ele sentir que a Red Bull não é a equipa certa para isso… irá pelo menos explorar outras opções.

Verstappen irritado, Hadjar a crescer discretamente
Max Verstappen continua a ser, sem surpresa, o piloto mais rápido da dupla, com 109 pontos e um sexto lugar. Numa temporada em que está claramente desiludido com o potencial dos novos carros, a performance do seu Red Bull aumenta essa frustração. A irregularidade tem sido a maior queixa do neerlandês: “Por vezes simplesmente perdemos desempenho durante um fim de semana, ou até do início ao fim de uma corrida”, descreveu, classificando a resolução deste problema como “uma grande prioridade”. Verstappen não perdeu nenhuma das qualidades que fazem dele um dos maiores talentos do mundo, mas com uma máquina que muitas vezes lhe complica a tarefa ainda não vimos uma vitória do #33.
Isack Hadjar (8º com 68 pontos), na sua segunda temporada na categoria, tem feito um trabalho notavelmente discreto e consistente ao lado de Verstappen, beneficiando de estar fora do foco mediático que caiu sobre companheiros anteriores, em anos de carros competitivos. Hadjar chegou a festejar o que pensava ser o primeiro pódio pela equipa no Mónaco, antes de a Alpine conseguir reverter as penalizações de Gasly, que lhe devolveu o terceiro lugar e “roubou” esse pódio ao francês da Red Bull. Apesar do episódio, Hadjar somou sete top 6 consecutivos nas corridas seguintes, a melhor sequência de um segundo piloto da Red Bull em vários anos. A conjuntura ajuda o francês, com o foco a estar nos problemas do chassis e nas queixas de Verstappen à regulamentação atual. Mas o jovem francês também tem conseguido por mérito próprio afastar a pressão. Ainda não foi brilhante, mas tem sido regular, e o ritmo puro não está muito longe do que vemos do outro lado da garagem. Será que o francês acabou com a maldição do segundo lugar da Red Bull. Os primeiros indícios mostram que sim.
Notas
- Red Bull – Nota 6
- Max Verstappen – Nota 7
- Isack Hadjar – Nota 7
Fotos: MPSA








