Rali Safari: Katsuta no comando num dia de caos, polémica e abandonos ilustres
O sábado do Rali Safari Quénia terminou com o cancelamento do derradeiro troço do dia, segundo a organização porque: “a caravana de segurança avaliou o troço e considerou que seria difícil para os veículos de resgate operarem entre os km 2,5 e 11. Após as chuvas da tarde, havia quatro troços distintos com sulcos cheios de água profunda.”

E terminou também com Takamoto Katsuta (Toyota GR Yaris Rally1) na liderança destacada, Adrien Fourmaux (Hyundai i20 N Rally1) a quase minuto e meio e Sami Pajari (Toyota GR Yaris Rally1) a completar o pódio provisório.
Pelo caminho, muita dureza do terreno, lama e polémicas com a organização, ficando de fora nomes como Sébastien Ogier, Oliver Solberg, Elfyn Evans, Thierry Neuville e Jon Armstrong.

Katsuta resiste à pressão e gere vantagem
Após a PEC 15, Katsuta lidera com 1m25s de vantagem sobre Fourmaux, num cenário em que o japonês já não fala em atacar, mas em pura gestão. Na sequência de especiais como Elmenteita e Soysambu, onde as pedras e a lama viraram a classificação do avesso, o piloto da Toyota admitiu que o desafio agora é sobretudo mental: “Honestamente, é muito mais fácil quando estás a lutar a fundo em todo o lado. Assim é muito stressante, estou só a tentar evitar todas as pedras, até as mais pequenas.”
Na PEC 14 descreveu a especial como “muito seca, mas ainda completamente louca”, sublinhando que a prioridade é “gerir” e evitar problemas numa prova em que um simples erro de trajetória pode custar minutos. Herdou o comando depois dos abandonos em ligação de Solberg e Ogier, e soube capitalizar esse golpe duro para a Toyota com um ritmo consistente e prudente em todas as passagens da tarde.

Fourmaux em modo contenção, mas ainda na luta
Adrien Fourmaux ocupa o segundo lugar, a 1m25s, depois de um dia em que o francês assumiu claramente uma abordagem de contenção. Entre furos, sobreaquecimentos e lama acumulada nos radiadores, o piloto da Hyundai deixou claro que o objetivo principal passou a ser chegar ao fim. “Tentei mesmo não estragar nada do trabalho que foi feito no carro e garantir que não apanhamos muita lama no radiador para a próxima especial. Estive a cuidar do carro”, explicou, sublinhando o “grande esforço de equipa na assistência” e admitindo que, para atacar Katsuta, teria de arriscar demasiado num carro já muito marcado por três dias de Safari.
Mesmo assim, foi capaz de ganhar alguns segundos pontuais ao japonês, como na PEC 14, onde recuperou sete décimas, sinal de que não baixou totalmente os braços, mas sem comprometer a fiabilidade do i20 N Rally1, depois de uma manhã em que o próprio Hyundai “acabou a ferver” em condições extremas de lama e água.

Pajari renasce para o pódio, Lappi sobrevive
Sami Pajari é uma das histórias do dia. Depois de ter visto um potencial pódio ruir em Elmenteita 1, com um pneu a explodir em plena reta e a perder mais de cinco minutos, o finlandês recuperou terreno de forma notável ao longo da tarde para terminar a PEC 15 em terceiro da geral, a 5m29s de Katsuta. Na derradeira especial do dia realizada, assinou um novo melhor tempo – o quinto triunfo em troços neste rali – e ganhou o suficiente para ultrapassar Esapekka Lappi. “Mesmo depois da manhã dececionante, temos de seguir em frente”, explicou.

Lappi, por seu lado, permanece em quarto, a 6m18s, assumidamente em modo sobrevivência. O finlandês da Hyundai somou mais um furo na frente esquerda e confessou que deixou de olhar para tempos e classificações: “Nem olho para os resultados, só tento acabar. Não me interessa o resultado. Não faz sentido tentar competir.”
Bateu numa pedra escondida numa esquerda depois de um ressalto e perdeu mais tempo, reforçando a ideia de que, no Safari, levantar o pé pode ser o ataque mais inteligente.

Virves e Greensmith dominam WRC2 em ritmo de gestão
Em WRC2, Robert Virves fecha o dia num notável quinto lugar absoluto, a 9m42s da liderança, mantendo a frente da categoria com pouco menos de um minuto de avanço, perante a pressão de Gus Greensmith, sexto da geral e segundo da classe, a +10m37s.
O estónio tem sido um modelo de consistência e assumiu o peso da liderança num cenário onde o risco é permanente. “Acho que este é dos piores sítios para se estar [com uma vantagem]. Começas a procurar muitas mais coisas”, admitiu, explicando que a prioridade é “tentar manter tudo limpo” e evitar erros.
Greensmith, por seu lado, protagonizou ao longo do rali um dia de gestão de problemas – desde furos a dificuldades mecânicas – mas conseguiu manter-se na luta pelo pódio do WRC2, num Safari em que o simples facto de continuar em prova já é, por si só, uma conquista.

Toyota em choque: Solberg e Ogier fora por “peça de seis euros”
O momento decisivo do dia chegou fora das especiais. Oliver Solberg e Sébastien Ogier, que terminavam a manhã separados por pouco mais de um segundo na luta pela liderança, foram forçados a abandonar na ligação de regresso à assistência, depois de problemas nos alternadores dos Toyota GR Yaris Rally1, danificados pela lama de Sleeping Warrior.

“O troço anterior estava bastante enlameado e, com tudo aquilo, a lama entrou na zona do motor e ‘rebentou’ com os alternadores dos dois carros”, explicou Juha Kankkunen, diretor de equipa da Toyota Gazoo Racing, na assistência em Naivasha. “O Oliver também tem um pequeno problema de transmissão, digamos assim. E já sabemos a situação do Elfyn, por isso não foi a melhor manhã.” Sem alternador, as baterias deixaram de carregar e ambos pararam na ligação, dentro das regras que determinam o abandono.
Kankkunen fez questão de isentar os pilotos: “Os pilotos não têm culpa. As condições têm sido tão difíceis que nenhum dos de topo conseguiu evitar problemas até agora, e ainda vamos a meio do rali.” E resumiu a ironia do episódio: “Um pouco de lama entrou no alternador e partiu uma peça da polia. Depois, começa tudo a encravar.
Na verdade, é muito simples. Essa peça custa seis euros, mas se se partir, parte-se.” Um componente de valor irrisório ditou o fim das esperanças de vitória de dois dos principais favoritos da Toyota.

Evans, Neuville e Armstrong: vítimas da dureza do Safari
Elfyn Evans, que ainda na PEC 11 tinha aproveitado o azar de Ogier para subir a segundo e se lançar ao ataque a Solberg, viu o seu rali ruir na PEC 13. Danos na suspensão traseira direita deixaram o Toyota a arrastar a roda, curva a curva, até que o galês encostou e abandonou, terminando uma longa série sem desistências de forma cruel, numa especial em que “o ritmo pouco conta face à lotaria do terreno”.

Thierry Neuville viveu um dia igualmente duro. Primeiro, em Elmenteita 1, descreveu uma passagem “difícil”, com muitos cortes e carros a sair largo, perdendo tempo e parte do pára-choques dianteiro. Mais tarde, na PEC 14, sofreu um furo na frente direita aos 13,8 km e foi obrigado a parar, sem pneus suplentes disponíveis. Quando o Hyundai voltou a imobilizar-se com um problema no mesmo canto do carro, ficou claro que o dia estava comprometido. “Não via nada, mas chegámos”, tinha dito ainda antes, noutra especial de lama e visibilidade reduzida, num resumo perfeito da luta pela simples sobrevivência.

Jon Armstrong, ao volante do Ford Puma Rally1, transformou o seu dia numa maratona de resistência mecânica. Entre alertas de temperatura da água, avisos de pressão de pneus, furos e um motor em sofrimento, o britânico confessou a dúvida permanente sobre cada decisão: “Não tínhamos potência nenhuma desde o início, depois tivemos um furo e parámos para trocar, e a seguir apareceu um aviso e parámos para ver se era grave. Talvez não tenha sido a melhor decisão.” Já na PEC 15, admitiu estar “bastante desiludido”, depois de mais um furo e de ficar sem sobressalentes, num rali em que cada quilómetro extra é um risco de ficar parado à beira da pista.

Polémica com a FIA e PEC 16 cancelada
O pano de fundo de todo este dia extremo foi a polémica em torno de Elmenteita 1 e das intervenções dos organizadores no traçado. A colocação de rochas para impedir cortes, sem que muitos pilotos sentissem ter sido devidamente informados, transformou a especial num “campo de minas” de furos e danos, levando Oliver Solberg a classificar a atuação da organização e da FIA como “inaceitável” e Katsuta e Evans a denunciarem que “mudaram a estrada depois das notas”.

A FIA respondeu mais tarde, alegando que o “taping” – colocação de fitas de segurança e barreiras – nos quilómetros finais de Elmenteita e Sleeping Warrior foi feito em conformidade com o regulamento e comunicado às equipas com vídeos para atualização de notas. Mas a sucessão de furos e a perceção generalizada no pelotão de que surgiram pedras em zonas de trajectória mantêm viva a discussão sobre o limite entre segurança e alteração indevida do troço.

O dia acabou com o cancelamento da PEC 16 Sleeping Warrior, que deveria encerrar a etapa com uma versão ligeiramente encurtada da especial já marcada pela lama extrema e pelos problemas que destruíram a manhã da Toyota. Sem essa última passagem, a classificação após PEC 15 define a hierarquia à entrada do derradeiro dia: Katsuta na frente, Fourmaux e Pajari como principais perseguidores, Virves a brilhar em WRC2 dentro do top 5 absoluto, e uma longa lista de favoritos já afastados pela dureza única do Safari.

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