Por Fábio Mendes e Pedro André Mendes
Russell tem fibra de campeão
Quando George Russell andava nas categorias de iniciação, era claro o seu talento. Mas mais que isso, a postura tipicamente britânica e o discurso já muito formatado deixavam antever um piloto preparado para a alta competição, num produto quase de laboratório. Não tinha o carisma e jovialidade de outros da sua geração, mas tinha todos os ingredientes para ser um caso sério. O potencial tem-se confirmado e Russell é já uma certeza. Chegar a casa de Sir Hamilton e conseguir destacar-se é obra. Conseguir a única vitória da Mercedes (para já) de 2022 é um feito tremendo, numa fase em que até nem estava em boa forma. Russell mostrou tudo o que pode ser na Mercedes. Dominador, inteligente na gestão de corrida, agressivo quando necessário. Russell tem fibra de campeão.
Mercedes cada vez mais na frente
Na primeira metade do ano a Mercedes penou para conseguir dar a volta a um cenário negro, com um W13 pouco cooperante e pouco competitivo. Mas as últimas corridas têm dado motivos de esperança e esta última vitória é o prémio pelo esforço desenvolvido pela equipa. Dissemos no passado que a Mercedes era uma das melhores estruturas, mas que ainda não tinha sido verdadeiramente colocada à prova. Este ano foi e respondeu afirmativamente. O processo para encontrar a raiz dos problemas foi longo, mas a equipa conseguiu encontrar soluções que agora parecem resultar. Em Interlagos, tivemos uma Mercedes dominadora, à imagem do que foi de 2014 a 2021. A Mercedes parece ter superado o teste e confirmou que não trabalha apenas bem, quando está na frente. Surge agora uma pergunta: manter o conceito W13 para 2023 ou fazer algo diferente?
Leclerc farto dos erros da Ferrari
Charles Leclerc está a precisar de férias e de estar longe da F1. A sua época 2022 tem sido dura. Um piloto com o seu talento e qualidade podia e devia estar na luta pelo título, mas os sucessivos erros da Scuderia complicam a vida ao jovem monegasco. Se até há bem pouco tempo a postura era sempre muito cautelosa e Leclerc evitava dar muito ênfase aos erros, o #16 é agora mais abertamente crítico no rádio. Ninguém lhe pode apontar o dedo, pois imagens como a da qualificação em Interlagos em que sai de Intermédios e não aproveita a pista seca para tentar pelo menos uma volta rápida, como todos os outros fizeram, mostram um desnorte e uma desorganização por vezes confrangedora por parte da equipa italiana. A Ferrari tem de limar essas arestas, problemas que já vêm do passado, caso contrário poderá perder a sua estrela.
Kevin Magnussen é um grande talento
Muito se vai falar da polémica da Red Bull, das vitórias de Russell, da espetacularidade da corrida. Parece que a pole milagrosa de Magnussen já é um assunto do passado. Mas não é e não podemos deixar de enaltecer o talento do dinamaraquês. Só não está numa equipa de topo porque não teve sorte na sua carreira. Entrou numa McLaren despedaçada, perdida numa altura em que a equipa já estava em queda livre. Foi encostado para dar lugar a Fernando Alonso e aí perdeu a sua oportunidade (o que teria sido se tivesse o tratamento que teve Lando Norris, por exemplo). Na Renault, nunca teve material para se evidenciar (e a relação com a equipa não foi a melhor) e o comboio para equipas de topo partiu. Mas Magnussen é um excelente piloto, agressivo (por vezes demais, apesar dessa faceta estar agora mitigada, talvez mais conformado com o seu lugar), rápido e consistente. O que ele fez na qualificação foi a prova disso. As condições eram iguais para todos, todos conseguiram fazer uma primeira volta com pneus slicks e ele, com todo o mérito, ficou na frente. Surpreendente, mas, ao mesmo tempo, um belo prémio para uma equipa que por vezes penou para se manter e que continua, determinada em escrever a sua história.
Polémica desnecessária na Red Bull
Até parece que a Red Bull gosta de polémica. Onde há sinais de polémica, a equipa de Milton Keynes está quase sempre por perto. E desta vez não foram precisos intervenientes de fora, a polémica estalou internamente. Max Verstappen ignorou uma ordem explícita para deixar passar Sergio Pérez, que luta pelo segundo lugar. Ora isto causou uma onda de indignação, Pérez não gostou e o tapete foi levantado, fazendo ver que há alguma “sujidade” não resolvida do passado. E tudo isto porquê? Por dois pontos. Claro que não são apenas dois pontos, trata-se da necessidade de um piloto se impor, trata-se de luta de egos e de respeito. Uma guerra que já começou a ser abafada, mas que se torna algo ridícula. Um piloto já campeão recusa ceder um lugar e perder dois pontos, outro piloto diz merecer mais porque é o grande responsável pelos títulos do campeão (quando para ser campeão é preciso conquistar os pontos para isso e não contar apenas com a ajuda dos outros). Um episódio que apenas vai trazer mais combustível para a fogueira dos radicais e que tira alguma paz à Red Bull. Quem ganha com isto? Ninguém!
Fim de ano com muitas relações por um fio
A penúltima corrida do ano trouxe para a luz algumas relações mais tensas entre companheiros de equipa e que estavam escondidas nas boxes das equipas. Se estamos habituados a isso acontecer quando pilotos da mesma equipa lutam por um pódio, uma vitória ou até mesmo título mundial, é menos comum isso acontecer quando se discute posições do meio da tabela. Está visto que tanto Red Bull como Alpine, principalmente a primeira equipa, terão de fazer alguma gestão na última prova do ano, mas também resolver rapidamente essa situação para que não iniciem a nova temporada com problemas de 2022.
Na Alpine o mais curioso, foi ter-se levantado a questão da relação entre os futuros companheiros de equipa, Pierre Gasly e Esteban Ocon, quando na verdade a relação parece tensa entre o francês e o atual colega, Fernando Alonso.
McLaren pode ter perdido o comboio do quarto lugar
Havia de chegar a altura em que ou Alpine ou McLaren conquistariam o quarto posto no campeonato construtores. Ainda sem confirmação, a McLaren pode ter perdido a luta com os franceses em Interlagos, num dos piores fins-de-semana da época, com exceção das primeiras corridas do ano. Os pormenores fazem a diferença, neste caso uma má corrida para os dois pilotos da McLaren pode muito bem ter acabado com sonho do quarto lugar.
Interlagos continua a dar grandes corridas
Os Grandes Prémios realizados no continente americano parecem não desiludir e o Grande Prémio do Brasil não foi excepção. Boas ultrapassagens, estreias tanto na Pole Position como na vitória da corrida e muitos casos, para serem analisados mais tarde, marcam mais uma visita ao Brasil, onde a Fórmula 1 é sempre muito bem recebida. Interlagos pode ser um traçado curto, mas traz muita emoção ao campeonato mundial.
Safety Car ainda dá dores de cabeça
As regras do Safety car ainda precisam de ser revistas após várias alterações na consequência do último, e polémico, Grande Prémio de 2021. Yuki Tsunoda foi deixado no meio do pelotão após o reatamento da corrida, quando era um dos pilotos com uma volta atraso. A direção de corrida deixou passar Alex Albon e Nicholas Latifi, no entanto o piloto japonês teve de se encostar à esquerda para deixar passar os restantes pilotos mais rápidos para não prejudicar nenhum deles. Justificar a decisão com idiossincrasias do circuito parece pouco para aquilo que aconteceu.
Formato Sprint combina com Interlagos
A Fórmula 1 e algumas equipas querem alterar o formato das corridas de Sprint, embora Ross Brawn tenha vindo dizer que é preciso cuidado e evoluir e não revolucionar o conceito. O responsável da Fórmula 1 avisa que depende muito das características de cada circuito e que os palcos para as sprints, que serão 6 em 2023, têm de ser bem escolhidos. Em Interlagos parece funcionar, mas a verdade é que em Silverstone e nos circuitos da Áustria e Imola, não teve o mesmo impacto. Se calhar seria bom pensarmos em realizar sprints apenas no Brasil e uma vez por ano.










