Kalle Rovanperä fez história no WRC, depois de se tornar no mais jovem vencedor de sempre duma prova do WRC, aos 20 anos 9 meses e 17 dias, batendo o seu atual Chefe de Equipa, Jari-Matti Latvala, que triunfou no Rali da Suécia de 2008 aos 22 anos e 313 dias. Um feito notável de um futuro campeão…
O Rali da Estónia de 2021 entra para a história do WRC. Provavelmente, durante muito tempo – não há recorde que dure para sempre – o evento vai ficar no topo da lista dos vencedores mais jovens de sempre de ralis do WRC.
Já se esperava uma boa luta neste rali entre Ott Tanak, grande favorito, e Kalle Rovanpera, fruto da sua posição na estrada no primeiro dia de prova, mas com o ‘azar’ do estónio, Kalle Rovanperä/Jonne Halttunen (Toyota Yaris WRC) não deram a mais pequena hipótese aos seus adversários mais diretos, Craig Breen/Paul Nagle (Hyundai I20 Coupé WRC), que apesar de terem feito um bom rali, a exemplo do que já tinham feito o ano anterior neste evento, nada puderam fazer face à rapidez de Rovanpera.
Na fase inicial do rali logo se percebeu que Ott Tänak/Martin Järveoja (Hyundai I20 Coupé WRC), Craig Breen e Kalle Rovanpera iriam dar cartas nesta prova, mas que, com o passar dos troços, Tanak se iria distanciar.
Contudo, o estónio furou na PE3 e caiu para sétimo a 26.3s da frente, e se essa era uma diferença que ainda poderia ‘ir buscar’, ao ficar sem rodas sobressalentes para mudar, obrigava-o a ter cautelas em dois troços, os que faltavam antes da assistência, e potencialmente, perder mais algum tempo que poderia ser precioso para quem queria ganhar: resultado, saiu de estrada, furou novamente e o seu rali ‘acabou’ ali. Desistiu, regressou no dia seguinte, mas já sem mais aspirações do que vencer a PowerStage, o que conseguiu.
Nesse contexto, Kalle Rovanperä e Craig Breen fizeram as ‘despesas’ da luta na frente no rali, sempre com o finlandês um ‘registo’ acima do irlandês. Terminaram o primeiro dia separados por 8.5s e no segundo, Rovanpera ‘arrasou’ por completo com a concorrência, ao alargar a margem para 50.7s e a resolver o rali.
Thierry Neuville/Martijn Wydaeghe (Hyundai I20 Coupé WRC) suplantaram Sébastien Ogier/Julien Ingrassia (Toyota Yaris WRC), que neste rali decidiram ser suficiente o quarto lugar, com Elfyn Evans/Scott Martin (Toyota Yaris WRC) a fazerem algo semelhante.
A sua margem no campeonato é tão grande que se podem dar a este luxo, e deixar para os outros todos os riscos. Este facto tornou este rali demasiado monótono, exceção feita ao nome e à idade do vencedor. Aplausos para Neuville, que apesar de um furo, guiou de forma espetacular e suplantou Ogier com veemência.
Elfyn Evans teve um rali demasiado apagado. Falhou dois cruzamentos no 1º dia, atrasou-se e nunca mais ‘quis’ recuperar. Tal como Ogier, preferiu nada arriscar.
No sábado, o dia que se julgava decisivo, para além do forte ataque de Rovanpera, que passou de uma vantagem de 8.5s para 35.7s ao fim da manhã e 50.7s ao fim do dia. Breen bem tentou, mas nada pôde fazer: “Ele anda bem mais no carro que eu”, referindo-se ao facto deste ser apenas o seu terceiro rali do ano, quando esta é a sétima prova. Neuville ganhava a luta com Ogier, Breen quase estragava o seu rali na super especial de fim do dia ao acertar numa enorme pedra bem visível, que delimitava as trajetórias. No último dia, nada mudou. As posições estavam decididas há muito.
Recuperação mental
Analisando cada caso, Kalle Rovanperä, depois do seu acidente no Rali da Croácia entrou numa espiral negativa de maus resultados, em Portugal e na Sardenha. No Quénia foi cauteloso, e na Estónia mostrou o seu verdadeiro brilho, vencendo e convencendo.
Não sabemos como teria sido com Tanak em prova, mas provavelmente faria a vida negra ao estónio. Agora, libertado deste ónus da primeira vitória, desconfiamos que se vai ‘libertar’ ainda mais e não nos admiramos nada que passe a lutar constantemente pelos triunfos. A forma como venceu seis em oito troços no segundo dia foi desconcertante.
Prova também muito meritória para Craig Breen. É verdade que partir atrás ajuda bem nos ralis de terra, mas tem bem menos volante no WRC do que os adversários, e chegar a um rali destes, e andar como andou, não é nada fácil. Cometeu um erro aqui e ali, e chegou a um ponto em que percebeu que não lhe iria ser possível chegar a Rovanpera, passando a gerir o seu andamento. Aliás, todos os homens do WRC o fizeram: “tenho de ser realista e ficar feliz”, disse, numa frase que diz tudo.
Thierry Neuville fez um bom rali, lutou muito, mas o furo que sofreu na PE4, que o colocou a 29.1s da frente, potenciou as dificuldades e a partir daí foi acumulando margem para o líder, passando a ter como objetivo, apenas, chegar ao terceiro lugar, o que conseguiu com muito mérito. Evitou erros, afastou-se de Ogier e depois geriu a prova até final.
Sébastien Ogier terminou em quarto, e se excluirmos a sua saída de estrada na neve do Ártico que o levou para o 20º lugar, este foi o seu pior resultado do ano, um quarto lugar. Isso diz muito porque leva tanto avanço no campeonato, pois a sua regularidade é alicerçada em quatro triunfos em sete ralis. Por isso não vale mesmo a pena dizer que esta sua prova foi má. Abriu a estrada no primeiro dia e terminou-o a seis segundos do pódio, no dia seguinte: “não foi o meu melhor dia”. Tinha Evans atrás, que é quem o persegue mais perto no campeonato, por isso, para ele, estava tudo bem, ficou contente com o quarto lugar.
Elfyn Evans foi quinto, o primeiro dia correu-lhe mal, cometeu alguns erros pouco habituais nele, e ao fim de cinco troços já estava a 50s da frente. No segundo dia… testou para o Rali da Finlândia. Já não tinha muito para “ir buscar”, foi inteligente. Apostou no futuro…
Teemu Suninen/Mikko Markkula (Ford Fiesta WRC) terminaram o rali em sexto. Cometeram alguns erros, mas já não dá mais do que se tem visto, e desconfiamos que está a dar as últimas no WRC. Prometeu muito de início, chegou a um pódio, mas depois ficou a marcar passo. Veja-se como Adrien Fourmaux aproveitou bem melhor as oportunidades. O seu desalento é evidente…
Pierre-Louis Loubet/Florian Haut-Labourdette (Hyundai i20 Coupe WRC) terminaram o rali em sétimo, fizeram um rali sem incidentes, mas também sem qualquer brilho. Chegar ao fim a sete minutos e meio da frente sem ter tido problemas não é um bom cartão de visita de um piloto dos RC1.
Grande prova fizeram Alexey Lukyanuk Alexey e Yaroslav Fedorov (Škoda Fabia Rally2 evo), oitavos da geral e os melhores entre todos os RC2, WRC2 e WRC3 incluídos.
Gus Greensmith/Elliott Edmondson (Ford Fiesta WRC) terminaram muito atrasados. Desistiram no primeiro dia quando eram quintos da geral com um problema na bomba de água do Ford. Regressaram no dia seguinte, mas ao abrirem a estrada, não fizeram nada de especial.
Pelo caminho ficaram Takamoto Katsuta/Daniel Barritt (Toyota Yaris WRC). Eram terceiros após a PE4, mas abandonaram na sequência de uma forte aterragem que lesionou o navegador nas costas. Por precaução, Dan Barritt foi ao hospital fazer exames, onde felizmente nada fraturado lhe foi detetado. Foi mais o susto, e as dores.
Agora vem aí outra novidade para o WRC, o Rali de Ypres, na Bélgica. Tem tudo para ser um rali bem engraçado…













