Ímola começa a ser um destino pouco apreciado por George Russell. As duas visitas ao traçado italiano redundaram em dois dos episódios mais negativos da sua carreira na F1.
Se recordarmos a primeira passagem de Russell por Ímola, é impossível não nos lembrarmos da imagem do britânico sentado, de capacete colocado, a lamentar o grave erro, cometido sozinho, que resultou na desistência quando era décimo.
Russell admitiu na antevisão da prova que aquele tinha sido o momento mais baixo da sua carreira até então e que faria tudo para apagar a má imagem deixada. Mal sabia o que lhe estava reservado.
Russell voltou a destacar-se, quer no sábado quer no domingo, tendo conseguido subir ao décimo lugar. O britânico estava a fazer uma excelente corrida até que chegou o momento que virou a prova do avesso. Russell tentou passar por um demasiado lento Valtteri Bottas que seguiu a trajetória normal, “apertando” o piloto da Williams, o que o levou para a zona húmida da pista. A aderência era significativamente menor, o que resultou num pião que atirou ambos os pilotos para fora de pista. O que se seguiu foram momentos de que Russell não se orgulhará, indo confrontar um colega de profissão depois de um acidente grave.
Também pouco motivo de orgulho trarão as declarações depois da corrida, atirando as culpas para Bottas, por não ter “respeitado as condições da pista” provocando o incidente. A partir daí foi uma espiral descendente para o jovem britânico, que ontem colocou um ponto final no assunto, com um pedido de desculpas público.
A sondagem feita pelo AutoSport deixa bem claro que os leitores consideraram Russell culpado pelo acidente. 44% dos votos acusam o #63 de ser o principal responsável pelo acidente. Mas a minha opinião é ligeiramente diferente.

O que Russell fez, faria outro piloto com sede de vitórias. Russell estava já nos pontos mas queria mais. Com um Mercedes à sua frente não se atemorizou e arriscou. Talvez tenha pensado que era uma oportunidade de se afastar de Bottas, para aguentar um possível contra-ataque do finlandês quando a pista secasse mais. Talvez tenha sido apenas o impulso de passar um carro mais lento. O que é certo é que Russell não quis saber da sua situação contratual, de quem ia à sua frente. Apenas tentou uma manobra, aproveitando a oportunidade. Bottas fez a sua parte e defendeu a posição, sendo justo (como sempre é) e dando espaço suficiente. Incidente de corrida, algo confirmado pelos comissários.
O que se seguiu depois poderá ter levado a críticas, mas eu vi um pouco mais do que um piloto a tentar justificar da pior forma o que aconteceu. Vi um jovem que está farto de andar nas últimas posições, que tentou o seu momento de glória e que respondeu de cabeça quente. Perdeu a razão, mas mostrou a emoção de um piloto que quer mais. Teria sido muito mais fácil para ele não incomodar os “patrões” e ficar atrás de Bottas. Mas tentou defender a sua equipa, tentou mostrar a sua valia. Mas mais que isso, mostrou que é um verdadeiro piloto de F1. Alguém disse uma vez que “se não se ataca um espaço que existe, não se é um piloto de competição”… Russell foi um verdadeiro piloto.
Para piorar a situação, Toto Wolff apontou o dedo a Russell de uma forma pouco elegante. São raras as vezes que podemos olhar para as reações de Wolff e questionar a sua postura, mas Ímola foi também um ponto baixo para o austríaco. A sua futura estrela fez o que qualquer piloto digno desse nome faria, mas ele afirmou que Russell tem ainda muito a aprender, deixando no ar que devia ter mais cuidado ao ultrapassar um Mercedes. É certo que a frustração de perder a corrida e ver um carro destruído terá falado mais alto, mas ficou a ideia de que Wolff pretendia que Russell levantasse o pé, numa equipa onde sempre se defendeu a liberdade para os pilotos lutarem entre si.
Russell já provou que tem tudo para ser uma estrela no futuro. Tem talento, velocidade, inteligência e uma sede tremenda de vencer. Tem também uma postura exemplar, defendendo a sua equipa dentro e fora de pista, com um discurso eloquente, com uma classe tipicamente britânica. Perdeu a cabeça em Ímola mas retratou-se de forma correta. Não será este episódio que vai manchar o que é até agora uma passagem exemplar pela F1.
Apenas um reparo. Já não é a primeira vez que Russell claudica num momento crucial. Algumas vezes por culpa própria, outras vezes por azar puro, o britânico tem tropeçado em momentos importantes. Não me parece que tenha falta de capacidade para gerir a pressão. Será antes o caso de ir com demasiada “sede ao pote”, de querer muito ter sucesso. Não será fácil para um piloto que “limpou tudo” nas categorias de iniciação, contentar-se com migalhas.
Em resumo, o que vi de Russell em Ímola fez-me ter mais respeito por ele. Arriscou, tentou ser feliz, mas não se deu bem como tantas vezes acontece nas corridas. Reagiu mal, mas merece “o desconto” tendo em conta a forma como se tem comportado até agora. E, sendo totalmente honesto, gostei de ver a reação. Não defendo aquele tipo de comportamento, mas ao menos vimos que Russell tem sangue na guelra, o que é fundamental para ser campeão. Não foi o melhor dia do britânico, mas na minha opinião, o erro não foi tão grave quanto se pintou. Russell não foi vilão. Mostrou o lado mais puro das corridas o que é cada vez mais raro de acontecer.











