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Q&A com Norbert Michelisz: “Trabalhando muito, podes ganhar ou aprender”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
18 Dezembro, 2019
in Destaque Homepage, Newsletter, Sapo, VELOCIDADE
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Q&A com Norbert Michelisz: “Trabalhando muito, podes ganhar ou aprender”

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Norbert Michelisz foi no passado fim de semana coroado Campeão do WTCR, depois de um dramático super-final de temporada na Malásia. Pelo meio, tornou-se no primeiro húngaro a conquistar um título mundial FIA. Aos 35 anos, o piloto da BRC Hyundai N Squadra Corse, diz o que há para dizer…

Finalmente, um húngaro ganhou um título mundial da FIA…
“É algo que eu esperava que acontecesse há muito tempo. Era este o título que queria ganhar. É um grande alívio depois de uma longa temporada, domingo passado foi o dia mais longo da minha vida. Não consegui dormir bem no sábado à noite, só pensava nas três corridas.
E foi como uma montanha-russa. A Corrida 1 foi muito boa, ganhei. Na Corrida 2 a visibilidade era muito má, tinha carros a ‘voar’ à minha volta, vindos da esquerda, da direita, saí na curva nove, fui um pouco infeliz, mas consegui recuperar alguns lugares e voltar ao oitavo posto, o que foi vital para este título. Antes da Corrida 3 parecia que nem sequer poderia começar (ndr, devido a um problema técnico no carro), mas o que importa é que conseguimos alcançar o que queríamos e agora é hora de celebrar. No entanto, o mais importante é dar um enorme obrigado à minha família, à equipa e a todos os húngaros que me apoiam há cerca de 10 anos”.

Temeste não começar a corrida 3…
“Quando o pitlane abriu, percebi que havia um problema. Estava mais ou menos a rolar para a minha posição de partida na grelha e os meus mecânicos tiveram mesmo de correr para me empurrar. Saltei imediatamente do carro e discuti com o meu engenheiro o que fazer.
O motor estava por vezes a trabalhar apenas em três cilindros, dois cilindros. Quando liguei o motor [de novo] soou horrível e quando acelerei, percebi que algo estava muito errado, por isso precisei de reiniciar o carro novamente. Mas depois, já estava a funcionar normalmente, e com isso pude começar a corrida. Mas quando comecei a Corrida 3 não teria apostado muito dinheiro que iria celebrar o título.”

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Foste envolvido numa luta frenética pela liderança com o título em jogo….
“O meu começo não foi o ideal, mas sabia que precisava de ser terceiro e evitar fazer qualquer disparate. Começou outra vez a chover e tínhamos pneus slick na frente. O Esteban [Guerrieri] foi o único que teve de correr riscos e arriscou, fez uma boa jogada. Tentei ser esperto, mas apercebi-me de que não tinha o ritmo necessário e os carros atrás de mim começaram a aproximar-se. Depois, tive um confronto com um Audi e pensei que a traseira esquerda do meu Hyundai devia estar dobrada. Estava mesmo no meio de tudo. O Johan [Kristoffersson] e o Mikel [Azcona] estavam atrás do Esteban, mas à minha frente, e tinham um ritmo fantástico. Estando em quarto lugar, percebi que algo tinha de acontecer porque estava sem ritmo e não tinha como passar os carros da frente. Foi tudo ou nada, precisava de terminar em terceiro, por isso estava a tentar dar tudo. Mas, no final, vi que os rapazes estavam a dificultar a vida ao Esteban e a chave era que o Johan e o Mikel estavam nos dois carros mais rápidos”.

Aí percebeste que o título podia ser teu?
“Ao aproximar-me da última curva na última volta, foi a única vez em que acreditei que podia ganhar. O Gabriele [Tarquini, o meu companheiro de equipa] estava atrás de mim e eu sabia que não teria problemas com os carros atrás dele. Não sou uma pessoa para demasiado emocionado, mas com tudo a acontecer ao mesmo tempo senti uma enorme pressão a sair-me dos ombros no segundo que cruzei a meta. Acho que entendem que isto é um sonho meu e de muitas pessoas na Hungria”.

Como foi a tua progressão de ‘Simracer’ até Campeão mundial de carros de turismo?
“Há pouco mais de 10 anos, estava em casa a sonhar em conduzir um carro de corrida. Eu queria tornar-me um piloto de corridas. Por dentro sentia que este era o meu destino, mas na nossa posição [de família], aos 18 anos, percebi que provavelmente não iria conseguir.
Mas depois fui convidado para um teste, quando tinha 21 anos. Isso foi em 2005 e foi também a primeira vez que conduzi um carro de corridas por causa dos meus resultados nos jogos. Ano após ano consegui subir sempre um pouco mais. Vindo da Hungria, conseguir um lugar de trabalho já foi algo inacreditável, quanto mais vencer corridas e estar em posição de lutar por um título mundial em duas ocasiões”.

Compensaste o ano de 2017, em que estiveste muito perto…
“As duas semanas depois daquela corrida final no Qatar em 2017 foi um dos piores períodos da minha carreira, porque eu estava mesmo muito em baixo. Eu realmente senti que tinha tudo nas minhas mãos, mas depois simplesmente escapou. Eu pensei mesmo em desistir. Devo dizer que mudei muito nos últimos dois anos. Não tenho certeza se é porque me tornei pai, mas percebo que sou agora muito melhor a estabelecer as minhas prioridades entre as coisas da minha vida. Como tenho filhos, eles cumprem tudo. O resto relativiza-se! Não quero dizer que o título não é importante, mas ter filhos está a ajudar-me porque no passado estava um pouco pressionado demais, sempre a querer saber tudo, sempre a analisar tudo, a planear tudo. Mas com a experiência percebemos que nem sempre estamos em condições do fazer e, na maioria das vezes, não nos podemos preparar para todos os cenários. Sem a experiência de 2017, eu não teria ganho o título este ano.
E se olhasse para trás, se pudesse escolher um caminho, eu iria para este com mesmo todos os problemas, todas as dificuldades, todos os momentos maravilhosos comigo sentado aqui e aproveitando”.

Significa que mudaste a tua abordagem?
“Tornar-me pai não significa que seja menos importante para mim ser campeão do mundo, mas mudei muito a minha abordagem. Antes de me tornar pai, só podia ouvir as pessoas a dizer como seria. Mas quando te tornas pai, às vezes é tão intenso que descobres sentimentos e abordagens que não entendias antes, mas que estavam dentro de ti. É a parte mais bonita da minha vida até agora, mas eu não quero dizer que é fácil, porque às vezes é muito difícil”.

Soubeste manter a calma….
“Este ano não queria estar muito entusiasmado por ganhar ou não ganhar, mas sim por continuar e fazer o que fizemos nas últimas duas temporadas. Estranhamente [na Malásia] consegui manter a estratégia e ficar calmo, e de um modo geral senti-me bastante relaxado.
Há dois anos, antes do final da temporada, eu estava muito ‘stressado’ e o campeonato foi o meu primeiro pensamento pela manhã.
Este ano, depois da noite mal dormida de sábado, senti apenas confiança e calma vinda de dentro.
O meu único objetivo era concentrar-me e tirar o máximo partido de mim próprio. Tenho certeza de que isso foi bom para o meu desempenho”.

Agora foste o caçado, não o caçador…
“Em 2017 tive uma boa oportunidade no campeonato do mundo, mas fui o caçador à entrada do último fim-de-semana. Estava alguns pontos atrás, mas agora era o oposto, era eu que estava a ser caçado. Isso sempre ajuda e eu gosto dessa posição. Ir para a Malásia com a vantagem psicológica de liderar foi melhor do que ficar para trás. A margem era muito pequena, por isso não estávamos numa posição confortável, mas estava nas minhas mãos e isso é uma sensação agradável. Claro que, se tivermos uma pequena margem em termos de pontos, estamos sob mais pressão porque estamos na frente, somos nós que podemos perder. Os outros, Esteban (Guerrieri), Yvan (Muller) e Thed (Bjork), eram os que tinham a possibilidade de ganhar. Mas não me importei de ter um pouco de pressão porque isso sempre me ajudou a ter um desempenho nos píncaros. Pensando nas minhas primeiras corridas do WTCC na Hungria, foram uma enorme pressão, as corridas no Japão [com a Honda], também. De alguma forma, estes foram os fins-de-semana, que, em média, eu marcava o maior número de vitórias em corridas, o maior número de pole positions. Tive a mesma sensação na Malásia, não me importei de ter essa pressão extra.”

O que dizes do teu rival mais próximo na luta pelo título, o Esteban Guerrieri?
“Gostaria honestamente de felicitar o Esteban porque as suas atuações na Corrida 2 e na Corrida 3 [na Malásia] foram incrivelmente fortes.
Foi uma luta muito difícil e tudo estava a ir por água abaixo do meu ponto de vista. Ele tinha alguns problemas técnicos, mas eu também.
De qualquer forma, todos os meus rivais, Yvan [Muller] e Thed [Björk] também, estão no topo da tabela.

Que balanço fazes desta temporada de 2019?
“Não começámos muito bem, mas a segunda parte da época compensou. Há um belo ditado: “Trabalhando muito, podes ganhar ou aprender”. Estou contente com o que fiz nesta temporada e o importante é estar sempre lá. Depois, é só uma questão de tempo que tudo se encaixe e aí podes ganhar um campeonato”.

E agora, como será a tua defesa do título na próxima temporada?
“Mal posso esperar para voltar a estar na mesma posição [no próximo ano]. Penso que este título e a sua mais-valia psicológica, vão fazer de mim um melhor piloto para as próximas épocas. Se ganhares uma corrida, sentes-te forte o suficiente para ganhar mais corridas, e portanto o próximo alvo é ganhar outro campeonato”.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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