Ayrton Senna disputou 161 Grandes Prémios de F1, ganhou 41 e perdeu 120. Recordamos as grandes vitórias e as grandes derrotas do “mágico brasileiro”
Assim de cabeça, lembro-me bem de duas vitórias: a sua primeira, no Estoril, palco de um chuvoso GP de Portugal, em 1985. E de uma outra, em Donington, palco do GP da Europa em 1993, depois de uma primeira volta de antologia.
No polo oposto, o das derrotas, escolho duas: o seu despiste no Mónaco, quando comandava de forma destacada e se distraiu, em 1988. E a luta “física” com Alain Prost, no Japão, em 1989 e que, além do triunfo nessa prova, veio a custar-lhe o título no final do ano.
O sabor doce da vitória
Em 1985, Ayrton Senna deixou a Toleman, por troca com a mais competitiva Lotus. O GP de Portugal foi, nesse ano, a segunda prova do Campeonato do Mundo de F1, a 21 de abril. Nesse dia, a chuva, durante a corrida, foi tanta que a pista mais parecia um rio – em plena reta da meta, os pilotos perdiam o controlo dos carros, devido a acquaplaning; um deles foi Alain Prost, quando seguia o imperturbável líder, Ayrton Senna. O brasileiro, a fazer a 17ª corrida da sua carreira na F1, voltou a demonstrar uma enorme apetência pela chuva; as suas trajetórias eram diferentes de todas as outras e cruzou a linha de meta com uma vantagem enorme de 1m02,978s sobre o Ferrari de Michele Alboreto. Patrick Tambay, em terceiro com o Renault, ficou já a uma volta! Foi a primeira vitória de Ayrton Senna e uma das mais memoráveis. Talvez apenas batida por uma outra, nove temporadas mais tarde…
Donington 93
Em Donington, a 11 de Abril de 1993. Terceira prova do campeonato, sob o nome de GP da Europa. Na qualificação, os dois Williams/Renault foram dominadores, com Alain Prost na frente de Damon Hill. Michael Schumacher foi terceiro e Senna quarto. Na largada, a pista estava húmida e a secar, mas todos os pilotos utilizaram pneus slicks. Schumacher bloqueou Senna e os dois perderam tempo, deixando passar Karl Wendlinger, que ficou em terceiro lugar, atrás dos dois Williams. Começou nessa altura o ‘festival Senna’: numa pista meio seca, com zonas bastante molhadas e traiçoeiras, passou Schumacher na terceira curva e Wendlinger durante as rápidas Craner Curves, à esquerda, logo a seguir. Então, Senna encontrou-se atrás de Hill e passou-o na curva número sete, a McLean’s.
Com Alain Prost no horizonte, foi atrás do francês e assumiu a liderança na penúltima curva, o gancho de Melbourne. E pronto: uma vez na frente, Senna utilizou a sua proverbial capacidade de pilotagem em condições mutantes, conjugando-a com uma excelente leitura das condições atmosféricas. Manteve os pneus slick quando começou a chover e esse foi o segredo do seu triunfo por mais de 1m23s sobre os dois Williams/Renault – porque logo a seguir a chuva parou e a pista foi secando. Senna fez a melhor volta da corrida na 57ª volta, quando passou pelas boxes… e decidiu no último instante abortar a sua paragem para trocar pneus, continuando em direção à pista!
Lágrimas amargas da derrota
GP do Mónaco, 15 de Maio de 1988. Ayrton Senna longe na frente, com uma vantagem de quase 50segundos, a 30 voltas do fim. Depois, começou a rodar mais lento, mais descontraído – e a sua imagem a saltar do McLaren parado contra as barreiras, na curva do Porteiro! A razão? Simples: ao ver que numa única volta Prost, que o seguia, lhe tinha ganho seis segundos, fez duas voltas rápidas… e bateu! Irritado, desapareceu, refugiou-se no seu apartamento na cidade e a equipa só o viu no dia seguinte!
Porém, a derrota de Ayrton Senna que mais nos fica na memória é a do GP do Japão, a 22 de Outubro de 1989, ano em que Senna e Prost eram colegas de equipa na McLaren e estavam a discutir, uma vez mais, o título mundial. Em Suzuka, o francês chegou com uma vantagem de 16 pontos e 18 em disputa: tudo era (ainda) possível. Nos treinos, Senna fez a pole, na frente de Prost. Uma má partida e, depois, uma má paragem nas boxes, atrasaram o brasileiro, que apenas apanhou o seu colega de equipa pela 40ª volta. Nas cinco voltas seguintes, ambos se estudaram atentamente. Então, na 46ª volta, na travagem para a lenta chicane após a rapidíssima 130R, Senna tentou a sua sorte. Os dois McLaren tocaram-se antes da ‘corda’ da primeira curva, à direita e, com as rodas enganchadas, os motores calaram-se, fazendo os monolugares deslizar até se imobilizarem.
Prost saiu de imediato do seu McLaren, mas Senna motivou com gestos os comissários para o empurrarem, tentando retirá-lo de uma posição perigosa, aproveitando esse movimento para recolocar o motor em funcionamento, arrancando em frente. Uma paragem nas boxes para substituir uma asa danificada não o impediu de cruzar a linha da meta em primeiro lugar. Mais tarde, Senna foi desclassificado, com uma razão ‘estranha’ – não ter feito a chicane, quando decidiu prosseguir, após o motor do seu McLaren ter recomeçado a funcionar! Alessandro Nannini foi declarado vencedor e, sem pontuar, Senna viu o seu colega e rival Prost ser campeão do Mundo.










