A lenda do Capri V6 renasce com Manuel Melo a aprofundar o seu projeto de Grupo 1
Manuel Melo, uma figura conhecida no automobilismo nacional, prepara-se para um regresso marcante às pistas com o icónico Ford Capri V6. Após uma participação no Estoril ao volante de um Alfa Romeo Giulia, o piloto aposta novamente neste projeto desafiador, que promete trazer emoção e nostalgia às corridas do Grupo 1. Nesta entrevista, Manuel Melo partilha a sua paixão pelo Capri, os desafios do desenvolvimento, as expectativas para o regresso ao Autódromo Internacional do Algarve e a filosofia que o mantém a perseguir os seus sonhos no desporto motorizado.

Manuel, no Estoril vimos-te ao volante do Alfa Romeo Giulia, mas sabemos do teu regresso com o Ford Capri V6. O que te levou a apostar novamente neste projeto?
MM: “A participação no Alfa Romeo foi meramente uma forma de estar presente, apoiar o Grupo 1 e, claro, voltar a conduzir um carro do qual guardo excelentes recordações.”
O Capri já esteve contigo no Algarve, mas essa primeira experiência não correu como esperavas. O que aconteceu nessa altura e o que aprendeste com essa estreia?
MM: “Na verdade, o Capri revelou-se um carro muito interessante, mesmo sendo a primeira vez que estávamos ao volante. Sabíamos que, de acordo com a regulamentação do Grupo 1, o Capri não seria um carro vencedor, mas, pela sua singularidade e presença em pista, optei por este modelo icónico. Além disso, na perspetiva de uma eventual evolução da regulamentação nacional para o Grupo 1 e meio, teremos um carro competitivo e fiável, como se tem visto nas corridas de Goodwood.”
O que mudou no carro desde então? Que trabalho foi feito para resolver os problemas e tornar o Capri mais competitivo e, sobretudo, mais fiável?
MM: “Ainda há trabalho a desenvolver no chassis, mas não alcançamos esse ponto. Infelizmente, todos os problemas que enfrentamos foram sempre no motor, mas eram distintos e sem ligação entre si. Por isso, aproveitamos apenas para evoluir ao nível da árvore de cames, uma vez que o restante material já está conforme as evoluções da Ficha de Homologação.”
Porquê um Ford Capri V6? O que te atrai particularmente neste modelo e o que representa para ti correr com um carro tão associado às corridas de Grupo 1 da época?
MM: “É um modelo de referência nas corridas, associado às minhas memórias de infância — lembro-me bem de os ver correr — e mantém aquele som mágico que já me impressionava na altura. Este projeto resulta também da conjugação de dois fatores: a minha preferência por corridas com mais do que um piloto, a componente de equipa que tanto eu como o Miguel Pereira valorizamos, e o desafio técnico que representa o desenvolvimento de um carro distinto. Além disso, considero fundamental que nas corridas de clássicos haja diversidade de marcas e modelos, e que a escolha não seja feita apenas pela competitividade do carro, mas sim pelo prazer de participar. É preciso que seja suficientemente competitivo para lutar no pelotão da frente, e isso, como provámos na primeira corrida, o Capri consegue.”
Depois de correres com o Alfa Romeo Giulia, quais são as principais diferenças que esperas encontrar ao volante do Capri? É um carro que exige uma abordagem completamente diferente?
MM: “São carros completamente diferentes! O Alfa Romeo, por muito avançado que fosse para a sua época, representava a tecnologia dos anos 50, enquanto o Capri pertence à geração seguinte, que se manteve relevante até aos anos 80.”

Em que ponto está atualmente o desenvolvimento? Podemos considerar o carro pronto para competir ou esta próxima participação será ainda uma fase importante de desenvolvimento e afinação?
MM: “Como já mencionei, em termos de material, os motores incorporam os componentes mais desenvolvidos. Naturalmente, por serem novos, requerem sempre algum trabalho, especialmente ao nível da carburação, que é o ponto fraco do carro. De qualquer forma, vamos sempre para a pista para dar o nosso melhor!”
O objetivo inicial no regresso é lutar imediatamente por resultados ou, nesta fase, terminar corridas e acumular quilómetros é mais importante?
MM: “Os resultados não são o nosso foco principal. Vamos para a pista para nos divertirmos e darmos o nosso melhor; quando estas duas premissas se conjugam, os bons resultados surgem naturalmente.”
O motor V6 é naturalmente uma das características mais marcantes do Capri. O que nos podes contar sobre a preparação do carro e sobre aquilo que foi possível fazer respeitando o regulamento da categoria?
MM: “Como é típico da Ford, o carro tem homologado o material necessário para ser competitivo. Com a introdução do Escort e do Grupo 1 e meio, a Ford apostou no Escort e não homologou um carburador que permitisse explorar todo o potencial do Capri, pois não era necessário ao abrigo do novo regulamento do Grupo 1 e meio. No entanto, a competitividade e longevidade do Capri ficaram bem atestadas com os famosos BRUT em França e Inglaterra, e com a carreira que o modelo desenvolveu até ao aparecimento do Grupo A, já nos anos 80.
Vais regressar precisamente ao Autódromo Internacional do Algarve, onde o projeto teve a sua primeira experiência menos feliz. Isso dá um significado especial a este regresso? Há alguma sensação de “assunto por resolver” em Portimão?
MM: “Há muitos assuntos por resolver, principalmente com a Senhora Sorte. Foi a primeira vez, em quase 30 anos de corridas, que tive tanto azar. Esperamos fazer boas corridas, não só para afastar o infortúnio, mas também para honrar o apoio que o Promotor, através de Francisco Abreu, sempre nos concedeu e que constituiu uma grande motivação.”
Quando finalmente estiveres na grelha com o Capri pronto para competir, o que significará para ti ver este projeto concretizado?
MM: “Este projeto só estará concretizado após terminarmos, sem problemas, as duas últimas corridas do ano. Se for acompanhado de bons resultados, será uma ocasião muito especial para mim.”

Se tivesses de explicar em poucas palavras por que razão não desististe deste Ford Capri depois dos problemas que tiveste no Algarve, o que dirias?
MM: “Nas corridas, tal como na vida, as coisas nem sempre correm como desejamos. Isso não significa que devamos desistir; pelo contrário, é preciso aprender com os desafios que o destino nos apresenta e continuar a perseguir os nossos sonhos e objetivos. Eventualmente, outros teriam desistido do carro e até das corridas, mas essa não é a minha forma de viver. O único aspeto que me entristece é o facto de, com o avançar da idade, já não conseguir tirar todo o partido do potencial do carro, dado que o desenvolvimento do chassis é um processo demorado. No entanto, termino com uma nota positiva: vamos fazer corridas fantásticas e sem problemas nos eventos que restam!”










