2026 é um ano de grandes desafios para a Speedy Motorsport. Além da presença habitual nas competições nacionais e ibéricas, junta-se o desafio do GT4 European Series, um novo capítulo para a equipa de Pedro Salvador. Em Vila Real, o chefe de equipa e piloto sentou-se com o AutoSport para fazer um balanço da participação no europeu e explicar este regresso ponutal às pistas.
A Speedy Motorsport tem se afirmado como a estrutura de referência da velocidade nacional, com os recentes sucessos a coroarem o esforço de toda uma equipa que alia ambição, juventude e irreverência. 2026 chegou com novas metas a atingir, com o desejado passo para os palcos europeus dos GT4 a completar-se finalmente, com nota claramente positiva com já duas presenças no pódio, uma na primeira jornada do ano em Paul Ricard e uma na última jornada, em Misano. Dentro de portas, o desafio não é menor, com a concorrência a revelar-se cada vez mais forte, especialmente a Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal que este ano se apresenta muito competitiva e regular. Um ano depois de festejar 10 anos de existência, a Speedy enfrenta o desafio do europeu, os desafios internos de um campeonato nacional e ibérico cada vez mais forte e consolidado, sempre em busca de mais e melhor.
Tudo isto não impediu Pedro Salvador de fazer as corridas de Vila Real, ao lado e César Machado, conquistando uma pole e um pódio, num traçado que bem conhece e onde quase sempre saiu vitorioso. Foi com este tema que se iniciou uma conversa que passou pelos temas mais relevantes da equipa. Desde o que sente ao volante nestas participações pontuais, à escolha de Pedro Alves para ser colega de Pompeu Simões, num fim de semana que acabou demasiado cedo para vermos a valia de Alves, passando inevitavelmente pelo europeu: as lições, o nível da equipa, sempre em crescendo, a fé numa segunda metade de temporada melhor e a gestão da estrutura para 2027, que poderá traduzir-se numa redução de carros nas competições nacionais e ibéricas, para cimentar o passo europeu. Salvador falou de tudo, como sempre… direto, claro, eloquente e com uma visão ambiciosa e inabalável do que quer e de onde quer chegar.

A participação em Vila Real e… a ferrugem
Antes de mais, queria falar sobre o teu regresso. Como é que surge e porquê? É por ser Vila Real?
Pedro Salvador: Vem dentro do mesmo motivo do ano passado. O Tomás [Teixeira] nunca andou em Vila Real. Obviamente que eu gostava que ele cá estivesse. Ele tinha a vontade de vir, o que é ótimo também, mas acho que acaba por ser uma decisão mais consciente, no sentido de que o Tomás tem dado ótima conta de si, tem estado com um nível de performance, penso eu, muito acima daquilo que seria a expectativa geral. Está dentro daquilo que eu acho que é possível e a tendência é melhorar até ao final do ano.
No entanto, eu não queria correr o risco de interromper uma progressão que vai no sentido de ganhar cada vez mais confiança, de se sentir mais tranquilo, mais à vontade. Vila Real é aquele circuito em que ou estás confortável, ou não estás. Quero acreditar, pela atitude que ele tem demonstrado e pela vontade que mostrou em vir, fosse num Supra ou noutro carro qualquer, que se iria sentir bem cá em Vila Real. Mas, ao mesmo tempo, obviamente, temos também a noção dos objetivos de equipa: tentar a vitória, tentar chegar ao quarto título consecutivo. Existe também a perspetiva do César, que quer garantir o melhor resultado possível. Portanto, não é uma questão de falta de performance, tal como o ano passado também não seria da parte do Tomás Guedes. É apenas, como equipa, tomar uma decisão que proteja um pouco a juventude e os 18 anos do Tomás Teixeira, que permitam continuar a crescer e evoluir no ritmo que tem feito, sem interromper uma cadência positiva.
Este trabalho de formação e de evolução de jovens pilotos tem de ser feito de forma consciente. A preocupação na parte desportiva tem de ser superior à económica. Nunca foi a parte económica a prioridade máxima dentro da Speedy. Contudo, obviamente, esta minha participação dependia sempre de ter os parceiros para poder ser uma realidade, de ter quem confie novamente na minha vinda para fazer uma corrida. Isso foi possível.
Não era garantido que seria eu. Poderia ter sido o Rafa [Rafael Lobato], falando com a abertura que gosto de ter. O Rafa é mais um piloto da casa e esteve em Portimão com o Pompeu [Simões]. Poderia ter vindo o Rafa também fazer Vila Real com o Pompeu, mas ele está noutros compromissos profissionais, que muito me orgulham. Não estando o Rafa disponível, venho eu, contrariadíssimo [risos], a Vila Real. Mas sim, obviamente consciente da responsabilidade e de tudo aquilo que envolve esta participação.

O facto de estares a fazer participações pontuais é um desafio que te atrai nesta fase, ou é o contrário, gostas mais de andar a tempo inteiro?
Pedro Salvador: Estou consciente que tenho falta de ritmo, consciente que a última corrida que fiz foi Vila Real no ano passado. Dei umas voltas no Estoril a semana passada, no Caterham, para tentar tirar a ferrugem, tirar a ferrugem mais que outra coisa qualquer. Consciente também de tudo aquilo que envolve a minha pessoa ao fim e ao cabo, a idade vai avançando. Os campeonatos já não faço a tempo inteiro há algum tempo. Particularmente em Vila Real, ainda me sinto minimamente competitivo. Portanto, é tentar entregar essa performance dentro da Speedy, como sempre fiz, tentando ajudar o César também a alcançar um objetivo que é claro.
Já sentes muito a ferrugem, ou quando te sentas no carro, os feelings são os mesmos?
Pedro Salvador: Não te vou dizer que não, porque seria mentira. Não acho que seja diretamente associado à idade, acho que acima de tudo é a falta de ritmo, falta de andamento. Acho que o geral da performance está lá. A parte mais fina e o fine tuning dão muito mais trabalho e exigem muito mais esforço. Porque as reações não estão ao mesmo nível, porque a subtileza e o detalhe daquilo que é a condução não está no mesmo nível de sintonia fina que podes ter e alcançar quando estás a correr a tempo inteiro. Portanto, aí sim, obviamente que sim, sinto isso.
Sinto que Vila Real permeia um bocadinho mais a coragem em detrimento da parte técnica tão apurada e tão fina. Se me perguntares se estou ao meu melhor nível, não, não estou. Tenho essa conversa com o nosso engenheiro, ele também está consciente disso mesmo. Isso não quer dizer que esteja mal. Acho que estou ali nos 90%. Não quer dizer que possa ser 10% mais rápido, mas quero dizer que se calhar posso ter mais 5% de rapidez e os outros 5% de suavidade, de progressividade, tudo aquilo que dá o controlo, e esse controlo traz a consistência. Pode ser mais fácil ou mais difícil.
A escolha de Pedro Alves e a postura na Speedy
Como surge a participação de Pedro Alves?
Pedro Salvador: Surge precisamente da questão do Pompeu ter decidido que queria vir a Vila Real nos GTX. O Rafa, infelizmente, não pode estar presente. Tivemos a confirmação de que o Rafa não poderia estar presente no final da semana passada. Tivemos de encontrar uma alternativa válida, uma alternativa que conheça Vila Real também, para acrescentar uma mais-valia à participação do Pompeu.
E o Pedro surge naturalmente nessa perspetiva. O Pedro é um belíssimo piloto, também um homem da casa, uma pessoa muito querida para nós. Vou acompanhando o percurso do Pedro do lado de fora e costumo sempre dizer isto: o Pedro é muito melhor do que parece. Acho que isso define tudo. Além disso, é um tipo de trabalho, uma postura humilde, que se enquadra nos valores que nos norteiam.
Gostamos particularmente desse tipo de atitude. Não sou muito fã de grandes estrelas. Não querendo passar isto para o futebol, mas há diversos motivos pelos quais eu sou adepto do Futebol Clube do Porto. Sou adepto pela postura de trabalho, pela dedicação, pelo balneário fechado, por aquilo que o Porto recuperou no ano passado. Essa é a forma de trabalhar com que me identifico. Apreciamos particularmente uma postura de equipa, uma postura de trabalho, que tenha consciência de que o trabalho de equipa é aquele que vence, e não uma inspiração divina de alguém.

Muitas lições no Europeu
Vamos falar agora do Europeu. Qual o balanço que fazes e o que é que tem sido o maior desafio? Que lições é que vocês têm tirado neste primeiro ano?
Pedro Salvador: Imensas lições. Começámos muito bem em Paul Ricard, circuito bom para o Toyota, e logo de seguida fomos para Monza, o pior circuito da época tanto para o Toyota como para o BMW. Claramente são circuitos em que a performance de motor é parte fundamental. O Toyota e o BMW, até por dimensão, não são os carros com mais aerodinâmicos, ou com mais capacidade de velocidade de ponta. Portanto, Monza foi verdadeiramente sofrimento.
Em Spa já tivemos bastante mais competitividade, mas não tivemos a performance que queríamos ter na qualificação, muito por lado da pilotagem, assumido pelos pilotos. Mais uma vez é trabalho de equipa. O Mees [Houben] podia ter feito um top seis, mas falhou na volta de qualificação na Eau Rouge, custando-nos meio segundo. O Loki [Lachlan Evennett], tanto como o Pedro [Perino], apanhou tráfego e mau posicionamento na pista, porque eram 44 carros em pista, todos ao mesmo tempo.
O Tomás [Guedes] fez uma boa qualificação, ficou ali a uma décima e meia daquilo que poderia ter sido a volta, mas ficou à porta do top 10. Depois, nas corridas, tivemos uma performance boa, obviamente mais fortes na segunda parte da corrida do que na primeira. O Toyota tem um carro que privilegia a consistência e não tanto o início de corrida.
Duas corridas no top 10 para o Mees e para o ‘Loki’. Podia ter sido também o mesmo com o Tomás e com o Pedro; infelizmente, na segunda corrida, levámos um toque que nos fez desistir. Mas, acima de tudo, temos a noção plena e a consciência de que tudo se paga, qualquer erro tem uma consequência séria a nível de grelha. Quando arrancas acima do 15º lugar, já estás numa zona complicada da grelha, não esquecendo que são 40 carros. Também não esquecendo que meio segundo são 12, 13, 14 lugares. Temos de estar todos no nosso melhor. É um desafio enorme para a equipa, um desafio enorme para quem trabalha.
É a consciência plena de que temos de estar sempre no nosso melhor. Desde o mecânico até aos pilotos, por toda a gente que passa pela Speedy e pela preparação da prova antes de arrancarmos para cada um dos eventos. Isto obriga-nos a melhorar, a ser mais exigentes, a dar cada vez mais, mas isto é sempre bem-vindo, porque se queremos continuar a crescer como equipa, se queremos continuar a ter uma performance que nos permita não só ir lá fora, mas ficar lá fora, tudo isto é exigível. É um desafio duro, mas é um bom desafio.
Speedy cada vez mais perto do nível das melhores da Europa
Chegaste ao europeu com a tua estrutura ao nível que consideras necessário, ou pensas que ainda há algumas que tem de melhorar?
Pedro Salvador: Ainda não estamos onde eu quero estar. Não é que nos afete a performance, mas afeta-nos a fluidez com que as coisas acontecem. Ainda não estamos no ponto em que tudo acontece de forma inconsciente, ainda estamos num plano, em que as coisas ainda obrigam à atenção, ainda obrigam a estar permanentemente em alerta, a cuidarmos uns dos outros, apesar de cada vez melhores.
Não é que isso vá desaparecer, mas eventualmente o peso que isso tem poderá diminuir. E acho que é esse o plano e onde queremos chegar. A equipa é jovem. São pessoas que têm crescido dentro da estrutura e que merecem também este desafio e esta recompensa de abraçar um campeonato de nível superior.
Mas permanentemente conscientes, até porque também sou chato o suficiente para os chamar a atenção sempre que é necessário, para estar sempre o mais atento possível, mas acima de tudo para termos a noção de que temos mesmo de cuidar uns dos outros. E eu faço parte dessa equipa que comete erros, que nem sempre toma a melhor decisão no momento mais acertado, mas também estou a procurar crescer e evoluir para ser cada vez mais útil dentro da equipa.

Aposta cada vez mais forte no europeu, mesmo que implique reduzir presença nos nacionais
E o futuro da Speedy na Europa, o que é que já está definido? Qual é o teu desejo? O que é que podemos esperar?
Pedro Salvador: O objetivo principal é ficar lá no próximo ano. Por isso estamos a tentar fazer o melhor possível este ano, mas já estamos a trabalhar em 2027, obviamente. A intenção é ir para o Campeonato Europeu para ficar. Obviamente, não abandonar aquilo que estamos a fazer aqui, mas possivelmente alterando um pouco a proporção daquilo que estamos a fazer. Acho que eventualmente poderá ser isso que será exigido: estar presente provavelmente aqui no Supercars, talvez com menos carros do que estamos neste momento, e ver o que é que o futuro nos pode trazer de bom.
Não tens receio de fazer essa adaptação nas competições nacionais para estares mais preparado para o Europeu, que ainda é uma fase muito verde do projeto?
Pedro Salvador: Não, acho que no final deste ano vamos estar conscientes de tudo o que obriga um campeonato europeu. Obviamente temos de ir aprendendo o mais rápido possível ao longo de cada uma das provas. Acredito que podemos ter uma segunda metade da época muito positiva. É para isso que estamos a trabalhar também. Acho que vamos terminar o ano com uma subida de performance assinalável, e aí, sim, olhar para o próximo ano com a convicção necessária. Queremos fazer o Winter Series, queremos usar o Winter Series para preparar o Europeu, fazer o percurso que as melhores equipas fazem. Exige esforço, mas é um bom esforço e sem isso nada se faz.












