Nasser Al-Attiyah, um nome sinónimo de excelência no desporto motorizado – e no tiro desportivo – consolidou-se como uma das figuras mais singulares e bem-sucedidas do cenário desportivo global. Com uma carreira notável que se estende por décadas, este atleta do Qatar, de 54 anos e pai de dois filhos, soube conciliar duas paixões de alto nível: os ralis e o tiro olímpico.

Durante muito tempo, Al-Attiyah dedicou-se intensamente a ambas as modalidades, tendo participado em seis edições dos Jogos Olímpicos e conquistado uma medalha de bronze em Londres 2012 na disciplina de fossa olímpica. No entanto, para se dedicar integralmente ao projeto Dacia e à sua ambição nos ralis, tomou a decisão estratégica de não participar nos Jogos Olímpicos de Paris.
A sua trajetória no Rali Dakar começou em 2004, ao volante de um Mitsubishi, onde garantiu um promissor 10º lugar. Desde então, Al-Attiyah construiu um legado impressionante, com cinco vitórias no Dakar com três veículos diferentes: um Volkswagen Race Touareg em 2011, um Mini em 2015, e um Toyota em 2019, 2022 e 2023.
Preparado para alinhar na sua 22ª participação no Dakar, Al-Attiyah ambiciona o seu sexto triunfo, desta vez novamente a bordo do Dacia Sandrider com que se estreou este ano de 2025. Ao lado de figuras como Sébastien Loeb e Cristina Gutiérrez, vão, juntos, tentar oferecer à Dacia o triunfo no Dakar, se possível, somando-o às suas cinco vitórias.
Foi no Nasser Camp, uma propriedade de Nasser Al-Attiyah localizada em Castellfollit del Boix, a cerca de 70 quilómetros de Barcelona e do seu aeroporto que com ele conversámos. Não se trata apenas de uma mansão, mas sim de um centro de experiências e treinos de desportos motorizados em plena natureza.
O local oferece uma variedade de circuitos e pistas off-road, ideais para treino de pilotos amadores e profissionais: Logicamente, Nasser Al-Attiyah e várias equipas, utilizam-o para testar as suas máquinas de competição, como o Dacia Sandrider, e para a preparação de veículos.
Lá, são feitas também apresentações de novas marcas e produtos, pois é um espaço privilegiado para eventos corporativos, apresentações de produtos e outras atividades com clientes e imprensa.

Paralelamente, podem fazer-se ali cursos de condução off-road, pois há pistas em que se podem fazer experiências de turismo ativo focadas em desportos motorizados, permitindo que entusiastas e até carros de série possam experimentar percursos fora de estrada, bem desafiantes.

O Nasser Camp é um ambiente privilegiado para atividades relacionadas com o desporto motorizado e a aventura.
Para Al-Attiyah, este era um sonho antigo, ter um local assim perto de vários países e com condições ideais para o desenvolvimento e treino no automobilismo. E foi lá que tivemos uma agradável conversa, em que o pentacampeão do Dakar, abriu o jogo sobre a sua nova jornada com a Dacia, a dinâmica com o seu companheiro de equipa Sébastien Loeb e a ambição de conquistar mais vitórias.

Direto de Barcelona, onde a equipa Dacia Duster esteve a aprimorar o seu novo “Sandrider”, Al-Attiyah revela a confiança na preparação para o próximo BP Ultimate Rally Raid Portugal e, com grande ambição, no próprio Dakar, ao mesmo tempo que reflete sobre a evolução dos veículos de rali e o seu papel contínuo no desporto motorizado.

Estamos a 70 km de Barcelona, este é o teu “parque de diversões”…
Nasser Al-Attiyah: Sim, escolhemos este local e é realmente um sítio agradável, gosto muito. Tentamos dar uma oportunidade às pessoas para virem e conhecerem-nos. É bom. Acho que não temos um lugar assim, com esta estrutura, no mundo. Esta é a melhor localização. É perto de todos os países. Sim, este foi o meu sonho durante muito tempo.

Tu e o Sébastien Loeb têm origens e personalidades diferentes. Como é que se estão a adaptar?
Nasser Al-Attiyah: “Sim, estamos bem. Temos uma boa relação e partilhamos muitas coisas, eu e o Seb.
Nas provas tento ajudá-lo também no deserto. Como sabem, tenho muita experiência no Dakar. Venci cinco vezes e agora estamos a tentar juntar tudo. Também com a Cristina (Gutiérrez).
Acho que estamos no bom caminho e tenho a certeza que a próxima corrida em Portugal, a quarta ronda do W2RC, será diferente, mas tenho um bom pressentimento de que podemos lutar pela vitória lá.”
Estás confiante de que o trabalho que está a ser feito pela Dacia dará frutos a curto prazo?
NA: “Sim. Estamos a trabalhar muito arduamente com a Dacia para vencer o Dakar. É uma marca nova, um novo nome a surgir agora no mercado, mas é uma marca muito forte. E sim, esta é a melhor forma de lançar uma nova equipa no desporto motorizado.”
Ainda há trabalho a ser feito antes do Dakar, ou sentes que se o Dakar fosse agora, estariam prontos?
NA: “Acho que estamos prontos, porque fizemos tudo para a próxima corrida em Portugal, que é muito importante. O nosso carro agora está a 100% do seu desempenho e só precisamos de testar e começar.
A Dacia é uma nova equipa para ti. Já estiveste em grandes estruturas. Como tem sido a tua vida aqui?
NA: “A vida é boa com a Dacia, é uma equipa fantástica e está a crescer muito rapidamente. É por isso que estamos com a Prodrive, porque tem muita experiência e estamos muito contentes por ter ambas as experiências (Prodrive e Dacia), mais a minha experiência e a do Seb. Acho que seremos cada vez mais fortes.
Já venceste o Dakar cinco vezes. Qual vitória foi a mais especial para ti?
NA: “A primeira vitória, claro, com o VW Touareg, porque este esse era o meu sonho há muito tempo. Depois, venci novamente com o Mini e, em seguida, três vezes com a Toyota. E agora, decidi sair da Toyota no ano passado para começar com a Dacia, e tenho a certeza de que podemos vencer no próximo ano.
Já pilotaste muitos carros diferentes no Dakar desde 2004. O que te parece ter evoluído mais, para lá dos motores, fala-nos do panorama geral…
NA: Acho que o que temos agora, para mim, é o melhor carro que já conduzi, de todos os carros que usei antes. Porque este carro, o Dacia Sandrider, foi construído para nós, para as nossas habilidades, as minhas e as do Seb. E gostamos muito porque podemos fazer 700 km sem ficar realmente tão cansados, porque o carro tira muito menos energia do nosso corpo e é construído com alta qualidade.”

E quando o carro estava a ser desenvolvido, imagino que você e o Seb tenham pedido muitas mudanças durante o processo?
NA: “Sim, e a primeira coisa estranha para mim foi no simulador, com a realidade virtual. Víamos o carro virtualmente como se estivessemos lá dentro e depois dizíamos, ‘ok, precisamos disto aqui’. Projetámos tudo em grupo, e foi realmente incrível esse trabalho. Quando os primeiros carros ficaram prontos e vimos que era exatamente o que pedimos, foi realmente espantoso, porque os nossos carros foram construídos para ter uma visibilidade excelente do terreno.

O que mais gostas no carro?
NA: “Gosto do estilo de condução, é fácil de entrar e sair. A visibilidade do carro é realmente boa, podemos ver tudo para fora, também nas dunas. E sim, é realmente um carro no topo do desenvolvimento.”
É um carro muito equilibrado em vários tipos de terreno ou é melhor em algum mais específico?
NA: “Não, não, é realmente bom em todo o lado. É um dos pontos que mais destaco, e que é fantástico.”
Tu representas o Qatar em várias modalidades. Como tem sido carregar esta bandeira no automobilismo mundial?
NA: “Bem, o desporto motorizado é realmente um grande parte da minha vida. Quando comecei jovem, tentei ser um dos bons nomes famosos no desporto motorizado e trabalhei muito arduamente.
Depois, sonhei em vencer o Dakar, a minha corrida favorita, e gosto muito de correr nesta região, Espanha e Portugal, porque as pessoas são realmente loucas por desporto motorizado.
Isso dá-nos muito respeito das pessoas. Por exemplo, se formos a Portugal, o número de espetadores é algo que não se vê em nenhum outro lugar. E se vierem a Espanha, o número também é uma loucura. Acho que é isso que procuramos e devemos procurar cada vez mais. Às vezes, quando vamos para outras localizações, não é tão interessante. Acho que temos muita sorte de poder correr nestas regiões, adoro isso, correr co muito público.
Até quando planeias correr?
NA: “Bem, quando começar a sentir que vou perder, eu paro. Se puder continuar a vencer, sem problemas, vou continuar (risos)…”
Vês-te noutro papel no desporto motorizado no futuro?
NA: “Sim, por que não? Por exemplo, talvez ser presidente da FIA, por que não? Agora o Muhammad (Ben Sulayem, presidente da FIA) está a fazer um trabalho realmente incrível, e temos uma boa relação porque ele mudou muitas coisas. Ok, talvez alguns não gostem das mudanças, mas este é o momento de colocar tudo nas mãos de outros. E acho que todas as federações o apoiam…”
Como se percebe, a carreira de Nasser Al-Attiyah continua impulsionada por uma mentalidade vencedora incontornável e um desejo insaciável de conquistar cada vez mais, promete perdurar enquanto a sua chama competitiva o mantiver na vanguarda das corridas, agora reforçada pela ambição que o novo projeto Dacia lhe confere, visando guiar a equipa rumo ao sucesso.











