Houve manhãs em que Belém pareceu pertencer a outro tempo. Em finais de 2005, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, na Praça do Império, o rugido dos motores cruzou-se com a memória dos Descobrimentos: o Dakar, o mais mediático dos ralis-raids, preparava-se para partir de Lisboa. Para um país demasiado habituado a duvidar de si próprio, foi mais do que uma partida desportiva. Foi uma afirmação.
“Sair de Lisboa é algo de fantástico, único mesmo, até devido à história de Portugal com os Descobrimentos”, recordava Etiénne Lavigne, director da prova, na altura. “A ideia de fazermos a partida do Dakar na capital tinha já alguns anos, mas só agora foi possível concretizar… pecando apenas por tardia!”
Belém, palco de partida
O Centro Cultural de Belém transformou-se no coração logístico do Lisboa-Dakar 2006. Sala de imprensa, verificações documentais e técnicas, parque fechado: tudo convergiu naquele espaço, com o Mosteiro dos Jerónimos como cenário imponente. Lavigne não escondeu a satisfação: “O local escolhido para dar início à prova deste ano é soberbo. Por tudo isto, sabemos que a aposta em Portugal está ganha.”
A organização portuguesa, apoiada pela Câmara Municipal de Lisboa, pela João Lagos Sport e pelos comissários técnicos, deixou marca. “Não tive de me preocupar com nada, são todos de um trato fantástico e com conhecimentos profundos sobre o papel que desempenham”, elogiava o responsável francês.
O público que abraçou o Dakar
Mas não foi apenas a máquina organizativa a surpreender. Nas ruas, nas verificações e junto ao parque fechado, o público português respondeu com uma curiosidade quase festiva. “As pessoas têm muita curiosidade e manifestam o seu carinho a todos os pilotos, não só aos portugueses”, sublinhou Lavigne. “Vi muita gente a pedir autógrafos e fotografias e a comprar um souvenir do Dakar, o que me apraz muito.”
Para Lavigne, Portugal reunia condições raras: “É, de facto, um cocktail excepcional! Alia a paixão pelo desporto a uma proximidade com o continente africano e a uma organização a todos os níveis notável.”
Duas especiais que mudaram a partida
A edição de 2006 trouxe também uma inovação decisiva: duas etapas competitivas em território nacional, substituindo o tradicional percurso rodoviário até ao ferry rumo a África. “Os pilotos querem é competir e, quando lhes proporcionamos mais duas etapas, ficam mais satisfeitos”, explicava Lavigne, que sobrevoara as especiais dias antes do arranque.
“Uma era mais rolante e outra técnica e disputada na serra. Como tal, o pelotão chega a Marrocos com ritmo competitivo, o que não acontecia até agora, com as centenas de quilómetros em autoestrada até ao barco.”
Um legado que permanece
O Lisboa-Dakar 2006 ficou como prova de que Portugal sabia receber, organizar e emocionar. Lavigne olhava já para o futuro: «Mal termine esta edição e estaremos já a preparar a próxima. Aumentar as distâncias das etapas disputadas em Portugal é uma das hipóteses.»
A história acabaria por seguir outros caminhos, mas a memória permanece: Lisboa foi, durante aqueles dias, capital mundial do rali-raid. E Belém, entre o Tejo e os Jerónimos, voltou a ser ponto de partida para uma aventura.
Mais de duas décadas depois, o Dakar volta a Portugal para a edição de janeiro de 2027. O desafio é conhecido, mas também familiar: receber o mundo com organização, paixão e aquele espírito de aventura que sempre definiu este país. Tal como há 500 anos, quando Portugal olhava para o mar como ponto de partida, Lisboa pode voltar a ser o início de uma grande travessia — desta vez, sobre rodas, areia e montanha, rumo ao deserto.











