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O dilema do risco no Dakar: prudência vs agressividade

José Luis Abreu by José Luis Abreu
7 Janeiro, 2026
in DAKAR, Newsletter, TT
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No Rali Dakar, a escolha entre arriscar e ser prudente constitui um dos dilemas centrais da competição, especialmente em etapas com terrenos rochosos ou arenosos desafiantes. Não se trata de um mero jogo de sorte, mas também de um cálculo estratégico subjacente, ainda que o acaso desempenhe um papel bastante significativo. Mesmo muito!

Não arriscar: a abordagem defensiva
Quando um piloto opta pela prudência, a estratégia foca-se na preservação da viatura. Velocidades moderadas minimizam o impacto em componentes críticos como pneus, suspensão e chassis, e os furos são mais facilmente evitados com uma condução suave.
Contudo, esta abordagem tem o seu reverso da medalha: a perda de vários segundos por quilómetro acumula-se, resultando em desvantagens no cronómetro. Ainda assim, terminar a etapa sem avarias ou contratempos pode ser mais vantajoso do que ganhar tempo num segmento e, posteriormente, perdê-lo devido a uma avaria ou furos. É crucial recordar que, com dois furos, a margem de segurança desaparece, uma vez que sem pneus é impossível continuar.

A desvantagem evidente reside no facto de os rivais mais agressivos acumularem um tempo real considerável. Se todos os competidores adotassem uma postura prudente, o diferencial seria mínimo. No entanto, perante pilotos dispostos a arriscar, a estratégia defensiva pode levar a perdas significativas de posição, por vezes, várias.

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Assumir o risco: a agressividade
Quando um piloto assume o risco de atacar, o ganho de tempo é imediato. Numa etapa de 450 km, aumentar a velocidade média em 5 a 10 km/h pode traduzir-se em 10 a 15 minutos ganhos no final do dia. Além disso, um piloto agressivo, como Henk Lategan demonstrou após vários dias com furos, força os adversários a reagir, desencadeando uma série de decisões sob pressão que podem levar a erros.

É lógico que, quanto maior a velocidade, menor o tempo de reação a obstáculos inesperados. Uma rocha ligeiramente maior, uma zona de areia mais profunda com pedras por baixo ou um ângulo diferente podem facilmente resultar num furo. Adicionalmente, o risco de avaria mecânica ou de erro de pilotagem aumenta exponencialmente.

O fator sorte vs cálculo racional
A sorte, embora presente, não é totalmente aleatória. O Dakar distingue-se de uma lotaria, pois um piloto experiente aprende a “ler” o terreno, identificando rochas afiadas e a melhor forma de posicionar o veículo para minimizar impactos. Henk Lategan, ao decidir atacar, agiu com base na lei das probabilidades. Após nove furos em três dias, atacou e assumiu a liderança da corrida.
Teve sorte? Sim, mas não apenas sorte. É provável que se tenha focado melhor, confiado mais na sua capacidade de interpretar o terreno, e o resultado foi extremamente positivo.

Elementos de acaso e o seu impacto
No Dakar, os elementos de acaso são abundantes. A variabilidade do terreno, por exemplo, pode apresentar uma rocha inesperada que afeta apenas um veículo. O desgaste acumulado torna um pneu com um pequeno corte vulnerável, e o impacto seguinte pode causar um furo.

É quase impossível um piloto manter o foco a 100% durante uma etapa de 400 km. Se a sua concentração diminuir no momento em que surge uma armadilha, os problemas tornam-se inevitáveis. Isto aplica-se a todos os concorrentes em pista, sem exceção.

A questão fulcral a ponderar é sempre: qual a probabilidade de um piloto agressivo completar a etapa sem problemas? Se essa probabilidade for superior a 50%, a abordagem é considerada positiva; se for inferior, é negativa.

O contexto específico de Henk Lategan
A decisão de Lategan de atacar, após nove furos nos dias anteriores, foi estrategicamente ponderada, uma vez que uma abordagem ousada se destaca… se correr bem, como foi o caso. Lategan encontrava-se a 15 minutos da liderança e, na etapa maratona, ainda que consciente de que muitos imprevistos poderiam ocorrer, arriscou e avançou para a frente da corrida. ‘Saltou’ da 11.ª para a 1.ª posição. Lategan demonstrou uma psicologia vencedora, pois recuperar a confiança após uma série de percalços não é fácil, mas é crucial. O piloto “libertou-se” da ansiedade associada ao risco, ao aceitar a sua existência, e beneficiou dessa atitude.

Conclusão: risco e sorte no Dakar
O risco compensa, mas não se trata de pura sorte; envolve sempre um grau de cálculo. Em etapas normais e menos complicadas, a prudência é sensata, uma vez que os ganhos são marginais e não justificam o risco de furos, toques ou avarias. Em etapas mais críticas, como as maratonas, a agressividade torna-se racional. Embora a margem de segurança diminua, o valor de ganhar tempo aumenta exponencialmente. Foi exatamente o que sucedeu com Henk Lategan.

Quando a prudência não se mostra eficaz, atacar torna-se a opção mais lógica, pois o risco já está inerente, independentemente da abordagem. O Dakar recompensa os pilotos que conseguem identificar o momento certo para atacar — não aqueles que atacam cegamente, nem os que se recusam a correr qualquer risco ou dificilmente o fazem.
Lategan demonstrou esta perícia ao “jogar à roleta russa” com uma confiança calculada, e não com desespero.
Contudo, a meio da primeira semana de prova, nada é definitivo. No final da primeira semana, sim, começa a delinear-se uma linha condutora onde a lógica se torna mais previsível, mas até lá a prova tende a ser bastante anárquica.

FOTO Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool

Tags: Dakar
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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