Citroën ZX Rally Raid: A Cavalaria do Deserto


Numa altura em que nos aproximamos do Dakar, recordamos um dos carros mais interessantes que passaram pela competição, o Citroën ZX Rally Raid.

Hélio Rodrigues, In Memoriam

Quando a Citroën inaugurou o seu Museu, em Aulnay-sous-Bois, convidou algumas dezenas de jornalistas a visitá-lo. Eu fui um deles e, mais que a História que lá se respirava, o que me deixou impressionado foi a ala reservada as ZX Rally Raid. Estavam lá todos, disseram-me então. Eram talvez uns 18 e, de imediato, recuei uns anos. Aquilo era como um imenso Museu dos Coches dos tempos modernos, em que os cavalos mecânicos substituíram os de carne e osso, no puxar daquelas altas carruagens metálicas, de rodas enormes em borracha em vez de aros de madeira pintados. Hoje, vou falar desses coches.

O primeiro Citroën ZX Rally Raid teve como base o Mk1, lançado em Julho de 1990. Parecia-se muito com o humilde ZX de série, mas tinha rodas maiores e a suspensão levantada. Na traseira, existia um enorme aileron. Pintados com as cores amarelas da Camel, que patrocinava a equipa, tinham um motor turbo de 1.905cc, de 16 válvulas, com 320 cv de potência e um monstruoso binário de 490 Nm, montado à frente do eixo traseiro. Estava associado a uma caixa manual de seis velocidades. Este primeiro modelo durou mais de um ano e, quando a Citroën terminou o Mk2, no final e 1991, a prova em que se deveria estrear, o Paris-Pequim, foi cancelada.
Sem perder tempo, a marca decidiu levá-los (eram dois) ao Paris-Cabo, em conjunto com três velhos Mk1. As diferenças entre eles estava nos guarda-lamas, mais largos, para poderem levar rodas maiores. Continuavam pintados no amarelo da Camel e tinham os mesmos motores. Tinham apenas um tubo de escape e eram explosivos nas reações.
Em 1992, a Citroën Sport lançou o Mk3. As carroçarias, em fibra de vidro, de aspeto mais agressivo, estavam agora pintadas com o vermelho oficial da equipa francesa, pois a publicidade ao tabaco tinha sido proibida no país. Mais volumoso, a diferença maior estava na frente que deixou de ser parecida com a do ZX de série, tornando-se mais desportiva e “adulta”. Foi esta a versão que, em termos de imagem, perdurou nos anos seguintes com pequenas alterações estéticas. Por exemplo, a grelha dianteira mudou e desapareceram as barras negras das primeiras versões.
O ZX Rally Raid Mk4 apenas surgiu em 1994 e diferia do anterior por ter os guarda-lamas da frente e atrás ainda maiores e ligados de forma mais harmoniosa, através de embaladeiras mas largas. A traseira ficou ainda mais agressiva, com formas circulares, muito parecidas com um escaravelho, incluindo uma espécie de “grade” sobre o motor. A frente foi alterada assumindo o “restyling” então efetuado no ZX de série, com uma grelha semelhante.
No ano seguinte a Citroën lançou o último ZX Rally Raid, o Mk5. Foi o maior ZX Rally Raid de sempre, com o seu enorme volume a ser capitalizado não apenas na largura da estrutura dianteira e traseira do carro, mas também nas laterais, com as portas a abrirem no mesmo nível dos guarda-lamas. Isso criou um tal espaço interior, que o carro podia agora transportar com toda a facilidade rodas e peças suplentes! Até os dois ocupantes ficaram com mais espaço disponível. O motor era agora um 2.499cc de 16 válvulas, com turbo mais de 390 cv e um binário de 550 Nm/3.500 rpm, feito especialmente para este carro.
Em 1996, a Citroën participou pela última vez no Dakar com este carro, que no entanto continuou a correr nas provas de Bajas e nas longas maratonas asiáticas, sempre com sucesso, até ser colocado um ponto final na sua carreira, em 1997.

Citroën ZX (1991-1998) Um humilde servidor
Sucess or do Citroën GS, que esteve ativo entre 1970 e 1986, o ZX teve uma vida relativamente curta, mas foi um humilde servidor da marca francesa, que regressou aos bons números no seu segmento médio. Quando, em 1998, foi substituído pelo Xsara, o ZX tinha sido produzido em mais de 2,5 milhões de unidades.
Ao longo da década de 80, a Citroën foi perdendo terreno entre os familiares e foram precisos cinco anos para que a marca do ‘double chevron’ apresentasse novas armas: o ZX. Lançado em 16 de Março de 1990, tinha então duas versões de carroçaria com três ou cinco portas. Na altura, recebeu elogios pelo seu espaço interior, em especial no que diz respeito aos lugares traseiros e em termos técnicos, tinha já direção assistida de série; vidros elétricos; teto de abrir também elétrico; ‘airbag’ para o condutor e, em versões mais equipadas, também para o passageiro; sistema de travagem com ABS, que podia ser de série ou opcional. Na altura, apenas o VW Golf era melhor. Os motores variavam entre o 1.1, de 60 cv e o 2.0, de 167 cv, a gasolina e o 1.9 Diesel, entre 65 e os 91 cv, quando passou a ter associado um turbo. Entre os motores a gasolina, existiram também o 1.4, de 75 cv, o 1.6, de 90 cv, o 1.8, de 103 e, mais tarde, 112 cv e o 1.9, de 130 cv. O motor 2.0 era um 16 válvulas, com dupla árvore de cames e a sua potência variou entre os 123 e os 167 cv com uma versão intermédia de 150, que deu origem às versões desportivas, utilizadas em ralis e mesmo nas pistas, um pouco por todo o Mundo.

O ZX nas Bajas
A Citroën desenvolveu uma versão especificamente para as provas da Baja, nomeadamente as de Portugal, Itália, Aragón e de Espanha. A base foi o Mk4, mas mais curto, pois a distância entre eixos passou dos quase três metros originais para 270 metros. O depósito central deu lugar a dois depósitos, um de cada lado e sob os bancos, com capacidade para 120 litros cada. Este ZX Rally Raid só podia transportar duas rodas suplentes, colocadas em cima e por trás do motor, que era, como habitualmente, montado na traseira, de forma transversal.
Tal como todos os outros ZX Rally Raid, também este tinha um problema estrutural pois, ao ter o motor naquela posição, ficava mais pesado do lado esquerdo e, além disso, tinha 65% do peso total na traseira. Isso causava muitos furos neste tipo de provas de ‘sprint’ e, desta forma, a Citroën encontrou uma solução curiosa para as Bajas: na frente, tinha jantes de 18” e, na traseira, estas eram de 16”, mas com pneus de alto perfil. As rodas suplentes eram, porém, apenas de 18”, o que causou uma série de problemas adicionais. Como curiosidade, refira-se que o ZX Rally raid das Bajas era a única versão que tinha ar condicionado.
O ZX Rally Raid venceu em todas as diferentes Bajas, no total de 15. Em Portugal, ganhou todas as edições em que participou, entre 1994 e 1997. Em 1995 e 1997 foi também segundo classificado.

A saga de vitórias no Dakar
A Citroën participou, com o ZX Rally Raid, em seis edições do Dakar. A sua estreia sucedeu em 1991, no ano a seguir ao último triunfo da casa irmã do Grupo PSA, com o Peugeot 405 T16 – que, depois dele decidiu abandonar a prova africana. Nessas suas cinco participações, o ZX Rally Raid venceu por quatro vezes: 1991 (Vatanen/Berglund); 1994 (Lartigue/Périn); 1995 (Lartigue/ Périn); 1996 (Lartigue/Périn). Depois do seu último triunfo, fez tal como tinha feito a Peugeot: abandonou as areias.

1991 – Paris-Tripoli-Dakar
Equipas: Ari Vatanen/Bruno Berglund; Bjorn Waldegaard/Fred Gallagher; Alain Ambrosino/Alain Guéhennec; Jacky Ickx/Christian Tarin
O ZX Rally Raid não passava de uma carroçaria do ZX de série, com duas portas. Por baixo dela, estava a mecânica retirada dos Peugeot 405 T16 e isso viu-se no resultado final: ses triunfos em etapas, a vitória de Vatanen e o 6º lugar de Ambrosino. Waldegaard e Ickx abandonaram quando o óleo dos amortecedores da suspensão traseira pegou fogo, ao cair sobre o turbo.
Classificações: 1º Vatanen/Berglund; (…); 6º Ambrosino/Guéhnnec.

1992 – Paris-Cabo
Equipas: Vatanen/Berglund; Waldegaard/Gallagher; Ickx/Dominique Lemoyne; Lartigue/Patrick Destaillats; Ambrosino/Guéhgennec
Desta vez, a Citroën não foi feliz, apesar de ter chegado à cidade do Cabo com todos os ZX Rally Raid e destes terem sido o carro que mais etapas venceu (oito). Mas furos sucessivos na fase inicial atrasaramnos de forma irremediável e depois não conseguiram recuperar terreno nas dunas.
Classificações: 4º Waldegaard/Gallagher; 5º Vatanen/Berglund; 6º Ickx/Lemoyne; 7º Lartigue/Destaillats; (…); 9º Ambrosino/ Guéhennec

1993 – Paris-Dakar
Equipas: Lartigue/Michel Périn; Vatanen/Christian Delférrier; Hubert Auriol/Gilles Picard; Timo Salonen/Gallagher; Ambrosino/Guéhennec
Mais um ano de luta entre os ZX Rally Raid e os Mitsubishi Pajero oficiais. Logo na quinta etapa, Lartigue que estava na frente, foi quase excluído por reabastecimento ilegal e Salonen desistiu ao capotar nas dunas, que deixaram magoado Gallagher na coluna. A Citroën ameaçou abandonar em bloco a prova e não houve lugar a sanções, mas o francês teve que se contentar com o 2º lugar.
Classificações: 2º Lartigue/Périn; 3º Auriol/Picard; (…) 7º Ambrosino/Guéhennec; 8º Vatanen/Delférrier

1994 – Paris-Dakar-Paris
Equipas: Lartigue/Périn; Auriol/Picard
O ano da “vingança”. A Citroën dominou a prova, fez uma “dobradinha”, com Lartigue na frente de Auriol, nos dois únicos ZX Rally Raid inscritos, que nunca acusaram quaisquer problemas graves e, no global, ganharam em 16 das 20 etapas da que foi a mais longa maratona.
Classificações: 1º Lartigue/Périn; 2º Auriol/Picard

1995 – Le Total Granada -Dakar
Equipas: Vatanen/Picard; Lartigue/Périn; Salonen/Gallagher; Salvador Serviá/Jaime Puig
Lartigue repetiu o triunfo do ano anterior, apesar de ter ganho apenas duas das oito etapas que os ZX Rally Raid venceram. Mas foi Vatanen quem dominou a prova, até se atrasar com problemas elétricos no ZX, desistido mais tarde, vítima de um salto numa duna.
Classificações: 1º Lartigue/Périn; (…) 5º Salonen/Gallagher; (…) 15º Serviá/Puig

1996 – Granada -Dakar
Equipas: Lartigue/Périn; Vatanen/Picard; Serviá/Puig; Philippe Wambergue/Gallagher
A Citroën terminou a sua saga do Dakar com mais uma vitória de Lartigue a terceira seguida – e a quarta em seis participações. No derradeiro capítulo da luta Citroën-Mitsubishi esta ficou claramente a perder. Os ZX Rally Raid ocuparam quatro das primeiras cinco posições, com mais uma “dobradinha”, agora com o estreante Wambergue a secundar Lartigue.
Classificações: 1º Lartigue/Périn; 2º Wambergue/Gallagher; (…) 4º Vatanen/Picard; 5º Serviá/Puig. HR

42 corridas; 36 vitórias
1990: Baja Aragón – 1º e 2º; Rali dos Faraós – 4º
1991: Baja Aragón – 3º; Rali dos Faraós – 1º, 2º e 3º; Paris – Dakar – 1º e 6º
1992: Rali da Tunísia – 1º, 2º e 3º; Paris – Pequim – 1º; Paris – Kaapstad – 4º, 5º, 6º,; 7º e 9º
1993: Paris – Dakar – 2º, 3º, 7º e 8º; Rali Atlas – 2º, 3º e 4º; Baja 1000 – 1º e 2º; Baja Aragón – 1º e 3º; Rali dos Faraós – 1º e 3º; UAE Desert Challenge – 1º
1994: Paris – Dakar – Paris – 1º e 2º; Rali da Tunísia – 1º e 2º; Rali Atlas – 1º e 3º; Baja Portugal – 1º; Baja Aragón – 1º e 2º; Baja Itália – 1º; Rali Montée de L’Olympe – 1º
1995: Granada-Dakar – 1º, 5º e 15º; Rali da Tunísia – 1º, 2º e 3º; Rali Atlas – 1º, 2º e 3º; Baja Portugal – 1º e 2º; Baja Itália – 1º; Baja Aragón – 1º e 2º
Rali Montée de L’Olympe – 1º
1996: Granada-Dakar – 1º, 2º, 4º e 5º; Rali da Tunísia – 1º e 2º; Baja Portugal – 1º e 2º; Baja Espanha – 1º e 2º; Baja Itália – 1º; Rali Montée de L’Olympe – 1º; Paris – Ulan Bator – 1º, 2º e 3º
1997: Baja Itália – 1º; Rali da Tunísia – 1º e 2º; Rali Atlas – 1º e 2º; Baja Portugal – 1º; Baja Aragón – 1º e 2º; Paris – Moscovo – 1º, 2º e 3º; UAE Desert Challenge – 1º