Há automóveis que pertencem ao seu tempo. E há outros que, muitos anos depois, continuam a dizer alguma coisa a quem os vê passar. O Renault 8 Gordini pertence claramente à segunda categoria. Nascido nos anos 60, tornou-se símbolo de uma forma muito particular de entender os ralis: automóveis relativamente simples, rápidos e exigentes, pilotos obrigados a dosear coragem e mecânica, estradas que ainda eram parte integrante da aventura. Em Portugal, o seu nome ficou para sempre ligado a uma das páginas fundadoras da história da modalidade.
Agora, quase seis décadas depois daquela vitória, a Renault recupera o nome Gordini através de um novo exercício de estilo. O Renault 8 Gordini Concept, um coupé elétrico de dois lugares, com 270 cv, carroçaria baixa e larga e uma linguagem visual inspirada no desporto automóvel. Não pretende reproduzir literalmente o automóvel de 1964. Procura, antes, transportar para o presente a emoção associada a uma das maiores referências desportivas da marca.
Quando o Renault 8 chegou às estradas
A história começou antes da palavra Gordini ganhar protagonismo. No final dos anos 50, a Renault procurava substituir o Dauphine e iniciou um extenso programa de testes, realizado em condições tão diferentes como o frio do Norte dos Estados Unidos, o calor e a poeira da Guiné ou as estradas difíceis da Sardenha.
O Renault 8 seria apresentado no Salão de Paris, em 1962. Tinha quatro portas, motor e travões traseiros, uma carroçaria de 3,99 metros e um motor de quatro cilindros e 956 cm³, com 48 cv. Era um automóvel familiar, confortável e acessível. Mas dois anos depois surgiria a transformação que mudaria a sua história.
Amédée Gordini pegou na base do Renault 8 e criou uma versão desportiva com cerca de 90 cv e dois carburadores. A cor azul e as duas faixas brancas passaram a identificar um automóvel que rapidamente deixou de ser apenas uma versão mais potente de um modelo de produção. O Renault 8 Gordini tornou-se uma verdadeira escola de condução e ajudou a formar uma geração de pilotos, entre eles Jean Ragnotti.
A sua vocação competitiva ficou evidente logo na estreia, com a vitória na Volta à Córsega. Até 1966 seriam produzidos 2623 exemplares. Nesse mesmo ano surgiu o Gordini 1300, com 1255 cm³, 103 cv e uma velocidade máxima de 175 km/h. A evolução trouxe também dois faróis auxiliares de longo alcance, aproximando ainda mais o pequeno Renault do universo dos ralis.
Um Gordini azul entrou para a história portuguesa
Foi precisamente um desses automóveis que chegou a Portugal em 1967 para integrar a equipa oficial da Renault. Ao volante estava José Carpinteiro Albino, piloto que começara nos ralis apenas dois anos antes, ao volante de um Volkswagen 1200.
Nesse mesmo ano, tudo mudou.
Em outubro de 1967 nasceu o Rallye Internacional TAP, concebido por César Torres com a ambição de, a prazo, levar a prova ao Campeonato da Europa de Ralis. O modelo seguido era o dos grandes ralis internacionais da época, com partidas de várias cidades europeias, concentração e depois milhares de quilómetros de percurso comum.
A dureza era deliberada. Sintra, Montejunto, Caramulo, Lousã e Arganil já faziam parte do mapa, mas os ralis eram muito diferentes daqueles que hoje conhecemos. Os setores de ligação, disputados em estrada aberta, tinham enorme importância. Os controlos horários obrigavam a manter ritmos elevados e a noite assumia um papel determinante, com menos trânsito e médias mais altas.
À partida, o jovem francês Jean-Pierre Nicolas surgia como uma das grandes figuras da prova, também ele num Renault 8 Gordini. José Lampreia liderou inicialmente, mas abandonou, deixando Nicolas no comando.
A história, porém, ainda não estava escrita.
Na última etapa, disputada na região de Sintra, problemas na caixa de velocidades comprometeram o Gordini de Nicolas. O francês tentou recuperar e acabou por bater. A liderança passou definitivamente para José Carpinteiro Albino e Silva Pereira.
O Renault 8 Gordini azul tornou-se, assim, o automóvel da primeira vitória portuguesa no Rali de Portugal.
Carpinteiro Albino recordaria mais tarde a dureza daquela aventura de forma simples e reveladora: “A dureza da prova era inimaginável, tanto para os condutores como para os automóveis.”
Uma história que não terminou em 1967
Aquele Gordini continuou a ser uma peça importante da carreira de Carpinteiro Albino. Durante duas épocas, o piloto esteve aos comandos do Renault 8 Gordini da equipa oficial da Renault e foi vice-campeão nacional em ambas. Mas a vitória no primeiro Rali Internacional TAP permaneceu como o momento maior.
José Carpinteiro Albino, nascido em Setúbal em 1938, foi muito jovem para Elvas, era descrito como um piloto metódico e muito regular, raramente dado a erros e especialmente rápido no nevoeiro. Em 1970 conquistou o Campeonato Nacional de Turismo Especial, já com um Saab 96. Terminaria a carreira em 1973, ao volante de um Fiat 124 Spider da equipa Torralta. Continuou depois ligado ao automobilismo, na Galp, onde acompanhou os patrocínios a equipas e pilotos. Morreu em 2002.
O Renault 8 Gordini teve também uma segunda vida. Depois de duas décadas sem se conhecer o seu paradeiro, foi comprado e recuperado no início dos anos 90, participando depois pontualmente em provas de regularidade histórica, pelas mãos de Eduardo Carpinteiro Albino, filho do piloto que o levou à vitória em 1967.
Do carro que venceu ao concept que recorda
É neste ponto que o Renault 8 Gordini Concept ganha um significado especial. A Renault não recuperou apenas um nome conhecido. Recuperou uma ideia.
O novo concept é 100% Renault e nasceu de um concurso interno que recebeu mais de 300 propostas dos designers da marca. Duas chegaram à fase de maquete à escala 2:5 e acabaram por contribuir para a definição do projeto final.
As referências ao passado estão espalhadas pela carroçaria: a inscrição Gordini inspirada no original, o novo emblema “8”, o rebaixo na linha de cintura, as cavas das rodas retangulares, os retrovisores em forma de concha e, sobretudo, os seis faróis redondos que reinterpretam a assinatura luminosa do antigo carro de ralis.
Por baixo dessa memória está, contudo, uma máquina de outra época: elétrica, com 270 cv e concebida como um coupé de dois lugares. O interior troca os plásticos pelo alumínio escovado e pela Alcantara®, mantendo a inspiração no universo “café racer”. Alexandre Malval, vice-presidente de Design da Renault, resume a intenção do projeto: “Com o Renault 8 Gordini Concept, quisemos despertar emoção, inspirando-nos simultaneamente no nosso património e na modernidade.” E acrescenta que o objetivo é “emocionar e estimular a imaginação” dos entusiastas.
O mesmo nome, outra época
Em 1967, um Renault 8 Gordini enfrentou milhares de quilómetros, estradas abertas, noite, controlos horários e uma mecânica levada ao limite. Carpinteiro Albino e Silva Pereira chegaram ao fim quando outros ficaram pelo caminho e inscreveram os seus nomes na história do Rali de Portugal.
Em 2026, o nome regressa num automóvel que já não precisa de carburadores, caixa de velocidades ou faróis auxiliares para evocar essa memória. O Renault 8 Gordini Concept pertence a outro mundo, mas procura preservar aquilo que fez de “la Gorde” um ícone: a ligação entre um automóvel acessível, a competição e a emoção de conduzir.
Talvez seja esse o verdadeiro legado do Gordini. Não a reprodução do passado, mas a capacidade de fazer com que uma história dos ralis iniciada numa estrada portuguesa há quase 60 anos continue a ser contada.
E, enquanto o velho Renault 8 azul continuou durante muito tempo a aparecer nas provas históricas, conduzido agora pelo filho do homem que o tornou vencedor, essa história terá ainda rodas para continuar.












