A chegada de Sébastien Loeb à Hyundai vai pressionar ainda mais Andreas Mikkelsen, cuja equipa lhe tentou reduzir o número de provas para 2019 de modo a poder gerir melhor os programas dos pilotos que tem sob contrato. O norueguês fez finca pé, exigiu cumprir o que tem assinado, a época inteira, mas os responsáveis da equipa já o avisaram que tem de melhorar muito face ao que produziu o ano passado, em que esteve longe, por exemplo, da produção do seu colega de equipa Thierry Neuville, e mesmo Dani Sordo, que fazendo apenas metade do campeonato, teve apenas menos 13 pontos que Mikkelsen.
Esta foi claramente a temporada mais difícil para Mikkelsen, e o que lhe aconteceu é uma espécie de ciclo vicioso. Falta de confiança levou a que qualquer questão que estivesse menos bem com o carro se tornasse num grande problema.
Voltando um pouco atrás, quando se percebeu que Andreas Mikkelsen seria o piloto mais prejudicado com a saída da Volkswagen do WRC no final de 2016, depressa se pensou que seria uma situação transitória, e quando durante a temporada de 2017 se viu que havia equipas e pilotos a fraquejar, todos pensaram que o norueguês seria a solução.
E foi! Começou pela Citroën, não conseguiu fazer melhor que um oitavo e nono lugares na Sardenha e Polónia, facto que se atribuiu ao carro, que todos sabiam estar com problemas nos pisos de terra. E o segundo lugar, precisamente no Rali da Alemanha, em asfalto, deixou a ideia que em condições normais era piloto para fazer muito melhor do que os resultados que obteve antes na terra.
Depois seguiu-se a Hyundai, foi 18º na Catalunha, 4º na Grã-Bretanha e 13º na Austrália. Nessa altura, a Hyundai já tinha visto o que precisava e deu-lhe um contrato para 2018. Não se esperava que brilhasse a grande altura, pois sendo uma equipa nova e com o nível do WRC, ninguém chega vê e vence e se o fizer, é aos poucos como tem feito Ott Tanak este ano na Toyota.
Este ano, Andreas Mikkelsen foi terceiro na Suécia, quarto no México, o que se podem considerar resultados normais. No asfalto da Córsega, nem Mikkelsen nem a equipa estiveram bem, mas daí para a frente foi um verdadeiro descalabro. 16º em Portugal, 18º na Sardenha e 10º na Finlândia. Na Alemanha, Turquia e Grã-Bretanha teve prestações mais ‘normais’, ainda que não foi além do quinto e sexto lugares nas provas, terminando novamente a época muito mal com um 11º lugar em Espanha e 10º na Austrália. É verdade que ajudou Neuville, mas isso está longe de explicar tudo.
O calendário do WRC tem várias provas que ‘mascaram’ defeitos e virtudes dos carros, e logicamente dos pilotos. Monte Carlo e Suécia, são evidentes, no México, a altitude baralha um pouco por causa do motor, a Córsega é um rali de asfalto muito sinuoso, e com mau piso, e a Argentina é um rali muito duro, em que o que interessa, maioritariamente é sobreviver. Até aqui, as equipas e pilotos só mostram, a espaços, os seus melhores defeitos e virtudes. Depois surge Portugal. E este é o primeiro rali em que não há nada de verdadeiramente diferente, ou seja é um rali num tipo de piso em que quem andar bem lá, anda bem em qualquer lado. Mais afinação, menos afinação…
E foi a partir daí que Mikkelsen passou a ter mais dificuldades e foi quando se ouviu melhor o piloto a dizer uma coisa que anda a fazer há algum tempo. Mudar o seu estilo de pilotagem para se adaptar melhor às necessidades do Hyundai i20 Coupé WRC.
Reparem que Mikkelsen guiou durante muito tempo carros como o VW Polo WRC e mais recentemente o Skoda Fabia R5. A passagem pela Citroën foi rápida, não deu para mudar nada, mas quando se estabeleceu na Hyundai, o norueguês teve que trabalhar para mudar o seu estilo de pilotagem.
O i20 é um carro bastante diferente do Polo WRC e foi difícil a Mikkelsen adaptar-se. Repare-se no que Mikkelsen disse na Alemanha: “Tentar mudar num rali 10 anos de estilo de condução é difícil”. Esta frase espelha bem o que está a passar-se com Mikkelsen. A equipa, naturalmente, está a trabalhar para tentar adaptar o carro o mais possível à sua habitual pilotagem, mas pelos vistos a diferença é grande entre uma ‘coisa’ e outra, e por isso as mudanças no carro são um meio termo de compromisso e é este equilíbrio que tem sido complicado para Mikkelsen.
Isto resulta no facto de, desde o Rali de Portugal o piloto andar um pouco perdido com o carro. 10 anos não são 10 dias…
Na ‘nossa’ prova, teve problemas mecânicos cedo, terminando o rali a dizer que chegou ao fim com muito trabalho feito para adaptar o carro ao seu estilo. E para se perceber bem que o ‘problema’ não é o carro, mas sim o piloto, o carro era bom em Portugal, disso não restam dúvidas, já que Thierry Neuville venceu essa prova.
Na Sardenha, chegou a liderar o rali na fase inicial, fruto da ordem na estrada, mas teve problemas de transmissão, confessando depois que o carro já estava mais adaptado ao seu estilo. Não teve tempo para mais…
Na Finlândia, uma saída de estrada devido a uma nota mal ouvida, e mais um rali perdido. Após oito provas, consegue estar pior classificado que Dani Sordo, que ficou de fora vários ralis. E por aí fora, nada mudou até ao fim do ano…
É verdade que tem tido alguns azares, mas para um piloto com a classe de Mikkelsen, ver por onde anda agora, e sabendo que não desaprendeu, percebe-se que a ligação do piloto ao carro tem que se perfeita para que o piloto possa mostrar o melhor de si, o que claramente ainda não sucedeu este ano com Mikkelsen.
O que isto nos diz é que apesar de terem andamentos semelhantes, os pilotos continuam a fazer grande diferença e um excelente piloto num carro não será necessariamente um excelente piloto noutra equipa. Nisto tudo só há uma verdade absoluta.
Quando falamos de pilotos da estirpe de Sébastien Loeb e Sébastien Ogier, estes são bons em qualquer lado…









