Sébastien Ogier: o Rei do Part-Time faz História no WRC

Por a 29 Novembro 2025 13:18

De Gap ao nono título, Sébastien Ogier igualou Sébastien Loeb, numa jornada épica em que desafiou o destino. Esta é a história de um homem que não corre contra os outros, mas contra a perfeição. A história de Sébastien Ogier, um rapaz de Gap que desceu das montanhas para igualar os deuses.

Tudo começou nos Alpes Franceses, onde a neve não perdoa e as estradas serpenteiam como cicatrizes na rocha. Em Gap, a mesma terra que viu nascer a lenda do Rali de Monte Carlo, um jovem mecânico de esquis olhava para as montanhas não como pistas de descida, mas como troços de velocidade. O nome “Sébastien” já era pesado no mundo dos ralis – Loeb, o ‘extraterrestre’ da Alsácia, reinava supremo. Mas Ogier não queria ser o “outro” Sébastien. Queria ser o único Ogier.

A sua ascensão foi meteórica. Em 2008, conquistou o título mundial Júnior (JWRC) com uma facilidade desconcertante. A Citroën, a equipa que construíra o império de Loeb, viu nele o herdeiro natural. Mas a convivência de dois reis no mesmo castelo é impossível. Entre 2009 e 2011, o mundo viu o pupilo desafiar o mestre. E de que maneira!

Ogier era rápido, cirúrgico, mas também impetuoso. A tensão na Citroën tornou-se insustentável, e Ogier tomou a decisão mais arriscada da sua vida: sair da equipa campeã para abraçar um projeto que nem sequer existia ainda na estrada.

Foi na Volkswagen que o príncipe se tornou rei. Ao volante do Polo R WRC, Ogier encontrou a simbiose perfeita entre homem e máquina. De 2013 a 2016, foi intocável. Quatro títulos consecutivos. Ele dominava no asfalto, voava na terra e dançava no gelo. A sua condução era económica nos gestos, mas brutal na eficácia.

Onde outros lutavam com o volante, Ogier acariciava a estrada. Parecia que ele via o tempo passar mais devagar do que os restantes mortais.

Mas a vida, tal como os ralis, tem curvas cegas. A Volkswagen retirou-se subitamente no final de 2016 devido ao escândalo das emissões.

Ogier, o tetracampeão, de repente, estava desempregado. Com o orgulho ferido e a vontade de vencer intacta, assinou pela M-Sport, uma equipa privada, com recursos limitados, liderada pela paixão de Malcolm Wilson.

O Ford Fiesta não era o melhor carro, mas tinha Ogier. E isso bastou. A ‘malta’ toda da M-Sport “encheu o peito”, vestiram o macaco de super-heróis, e transformaram uma estrutura quase resignada a uma super potência que ganharia títulos nos dois anos seguintes. Chamemos-lhe o “efeito Ogier”.

Contra as equipas de fábrica gigantes, Ogier venceu os campeonatos de 2017 e 2018. Até a M-Sport-Ford foi Campeão em 2017. Foram, talvez, os seus títulos mais saborosos. Provou que não era o carro que fazia o piloto, mas o piloto que elevava o carro.

O regresso à Citroën em 2019 foi uma tentativa romântica de fechar o círculo, mas acabou em frustração. O carro não estava à altura, e pela primeira vez em anos, o trono foi-lhe roubado pelo estónio Ott Tänak. Muitos disseram que era o fim. Que a era Ogier tinha acabado.

Enganaram-se redondamente…

A Toyota e Tommi Mäkinen chamaram-no. Ogier, já a falar em reforma, aceitou um último desafio. Em 2020 e 2021, somou o sétimo e o oitavo títulos, adaptando-se a uma nova máquina com a frieza de um veterano de guerra. E então, decidiu parar. Ou melhor, abrandar.

A partir de 2022, Ogier tornou-se um “part-time driver”. Corria por prazer, escolhia as suas provas favoritas, queria passar tempo com a família. Mas o talento é uma maldição que não se desliga. Mesmo correndo apenas metade dos ralis, continuava a vencer.

Chegamos a 2025. O ano do quase impensável.

Aos 41 anos, Ogier começou a temporada novamente como um piloto de “biscates”. Mas a sua consistência era assustadora. Enquanto os candidatos a tempo inteiro – Rovanpera, Evans, Neuville, Tänak – tropeçavam nas suas próprias ambições, Ogier, livre de pressão, acumulava pontos. A meio da época, a Toyota olhou para a tabela e percebeu o absurdo: o seu piloto a tempo parcial estava na luta pelo título.

Pediram-lhe para fazer o resto da época. Ele aceitou.

A batalha foi até ao fim, até às dunas traiçoeiras da Arábia Saudita. O seu colega de equipa, Elfyn Evans, tinha a vantagem. Mas na hora da verdade, na hora em que o pó se levanta e a pressão esmaga os ossos, a lenda de Gap emergiu. Enquanto Evans lutava com a areia, Ogier geriu. Calculou. Foi o “Professor” uma última vez.

Ao cruzar a meta na Arábia Saudita, no terceiro lugar, os pontos foram somados.

Nove títulos.

O número mágico. O número de Loeb.

Durante anos, disseram que o recorde de Loeb era inalcançável. Que 9 títulos mundiais era uma anomalia estatística que nunca se repetiria. Mas Sébastien Ogier, o homem que venceu com três marcas diferentes (VW, Ford, Toyota), o estratega implacável, o mestre da gestão de pneus, igualou o impossível.

Ele desceu do carro no meio do deserto, o fato sujo de areia e suor, e sorriu. Não foi o sorriso arrogante do jovem de 2008, nem o sorriso aliviado de 2013. Foi o sorriso sereno de quem escalou a montanha mais alta, olhou para o cume vizinho onde estava a bandeira de Loeb, e a espetou ao lado, à mesma altura.

A história dirá que houve dois “Sébastiens”. Mas o cronómetro, esse juiz frio e imparcial, dirá apenas que Ogier foi, até ao último metro, o mestre do seu próprio destino.

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