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Rali Safari reacende polémicas no WRC: “É inacreditável. Mudaram a estrada depois das notas”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
14 Março, 2026
in Newsletter, Ralis, WRC
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O episódio vivido hoje em Elmenteita 1, no Rali Safari, reabriu uma das discussões mais sensíveis do Mundial de Ralis: até onde podem ir os organizadores na alteração das condições de estrada entre os reconhecimentos e a prova. Rochas colocadas na especial para impedir cortes de trajetória transformaram o troço num “campo de minas”, provocando uma série de furos, danos mecânicos e críticas duríssimas dos pilotos à organização e à FIA.

O que dizem as regras – e como são aplicadas
O regulamento da FIA é claro no princípio: o traçado e as condições essenciais da estrada não podem ser alterados, de forma substancial, entre o recce (reconhecimentos) e a prova, para garantir que as notas de andamento são fiáveis e que não surgem surpresas de segurança ou competitividade em plena especial.
Ao mesmo tempo, o regulamento deixa espaço para a introdução de dispositivos de segurança, como chicanes físicas ou virtuais, desde que estes sejam devidamente comunicados, marcados e integrados na documentação oficial (boletins, mapas, correções de roadbook).
Na prática, isto significa que os organizadores podem intervir, mas não podem “mudar o jogo” sem aviso.
Foi precisamente aqui que Elmenteita 1 fez soar todos os alarmes no pelotão do WRC.

Casos antigos: chicanes e obstáculos que mudaram corridas
A tensão entre segurança e “pureza” desportiva não é nova. Em ralis rápidos como a Finlândia, já foram introduzidas chicanes físicas de “última hora”, feitas com maquinaria ou obstáculos volumosos, para reduzir velocidades médias que a FIA considerava excessivas. Numa edição, foram mesmo usados tratores para desenhar uma chicane numa especial, decisão que gerou forte contestação entre os pilotos, que a consideraram artificial e intrusiva num troço que esperavam fazer em ritmo pleno.

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Em provas de asfalto, como a Alemanha ou o Central European Rally, tornou‑se habitual o uso de barreiras anti‑corte – desde blocos de betão a ‘pinos’ flexíveis – em curvas onde os pilotos tendem a cortar agressivamente. Em vários casos, esses dispositivos foram colocados depois do recce, mas com comunicação prévia às equipas e apoio de vídeos para atualização das notas, precisamente para evitar que os concorrentes fossem apanhados de surpresa ao chegar em ritmo de qualificação a um obstáculo que não constava do caderno original.

Também em ralis de terra como o Safari e a Sardenha tem sido prática anunciada a colocação de elementos camuflados anti‑corte, com as equipas a serem informadas com antecedência para ajustarem notas. Noutros contextos, como na Argentina, houve alterações de traçado forçadas por condições extremas – troços encurtados ou secções removidas após tempestades severas – sempre com o argumento da segurança em primeiro plano.

A diferença de Elmenteita 1: quando as pedras aparecem “do nada”
O que torna o caso de Elmenteita 1 particularmente polémico não é apenas a dureza natural do troço, mas a perceção de que os organizadores foram além dessa margem de intervenção regulamentar.
Depois de um primeiro dia em que já se tinha visto a tentação dos pilotos em cortar curvas e aproveitar sulcos, surgiram hoje pedras colocadas na trajetória para desencorajar esses cortes – sem que, segundo vários protagonistas, essas alterações tivessem sido devidamente comunicadas ou refletidas nas notas.

O resultado foi uma sucessão de furos e danos que afetou praticamente todo o topo da classificação. Sami Pajari viu o pneu traseiro explodir em plena reta, destruindo parte do carro e deitando por terra um lugar de pódio. Takamoto Katsuta terminou a especial com duplo furo no lado direito e não escondeu a revolta: “É inacreditável. Mudaram a estrada depois das notas. Como é que fazemos notas a partir de vídeo? Trajetórias totalmente erradas nos sulcos, acabo com dois furos.”

Elfyn Evans, que vinha a atacar forte e chegou a ser claramente mais rápido do que Oliver Solberg nos parciais, perdeu todo o ganho quando os dois pneus do lado direito cederam. O galês repetiu palavra por palavra a crítica do colega japonês, sublinhando a sensação de que a estrada que encontraram em prova já não correspondia àquela que tinham reconhecido.

No meio do caos, foi o próprio líder a deixar a acusação mais contundente. Oliver Solberg chegou ao final de Elmenteita 1 com um duplo furo no lado direito e mais de 20 segundos perdidos, apesar de garantir que tinha feito a especial “o mais cuidadosamente possível”. À saída, não poupou ninguém: “Organização e FIA, o que fizeram aqui no fim é inaceitável.” A leitura no parque de assistência era unânime: ao colocarem pedras em zonas de corte sem aviso suficiente, os organizadores terão violado não apenas o espírito do regulamento, mas também a confiança básica entre quem desenha o rali e quem o enfrenta a fundo.

Segurança ou erro de julgamento?
Do lado dos organizadores, a justificação implícita é conhecida: reduzir cortes, proteger as bermas – que na verdade não existem – e evitar que a estrada se destrua ainda mais, num rali onde a gestão de piso é um desafio permanente. Mas a forma como essas alterações surgiram em Elmenteita 1 – com pilotos a relatarem obstáculos inesperados na zona de trajetória – faz com que a fronteira entre “dispositivo de segurança” e “armadilha” pareça perigosamente ténue.

Num campeonato onde já existem soluções modernas, como as chicanes virtuais controladas por GPS, que permitem limitar velocidades sem introduzir barreiras físicas imprevisíveis, o episódio de hoje no Safari será inevitavelmente escrutinado pela FIA e pelos delegados desportivos. Resta saber se Elmenteita 1 ficará apenas como mais um capítulo polémico na história do WRC, ou se será o ponto de partida para regras mais claras – e mais respeitadas – sobre até onde se pode mudar uma estrada depois de os pilotos terem ‘escrito’ as notas.

Tags: Rali Safari
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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