O futuro do WRC: Parte 1 – Entre paixão, pragmatismo e sobrevivência
A Tempestade Perfeita e a Solução Pela Simplificação
O WRC não está ‘quebrado’, mas sim preso numa dimensão que já não corresponde à realidade atual da indústria que o suporta. Com clareza, maior simplicidade e um foco genuíno na sustentabilidade, podemos não só ‘consertar’ o Mundial de Ralis, mas, com o tempo e com uma estratégia que impeça novos erros, torná-lo mais espetacular do que nunca.
Ouvimos com bastante interesse a conversa de Mathias Henke, CEO e fundador da Secto Automotive – o patrocinador principal do Rali da Finlândia – com David Evans e a Dirtfish. Henke, um verdadeiro apaixonado por automobilismo, partilha a sua visão sobre o estado atual do Mundial de Ralis e o futuro da indústria automóvel.

Ele argumenta que o WRC se tornou demasiado complexo e caro, o que afasta novos fabricantes, bem como o público. A sua principal solução passa pela simplificação, sugerindo que os carros da categoria Rally2 se devem tornar a classe principal do campeonato, como provavelmente vai mesmo acontecer, tendo em conta o que já sabemos das novas regras avançadas pela FIA. Henke tem uma expressão muito interessante: “salvar o carro, tornando-o sustentável”, defendendo o uso de combustíveis sintéticos e outras tecnologias para garantir o futuro tanto do automobilismo como da mobilidade em geral.
É certo que a mobilidade, de uma forma ou de outra, vai sempre mudar, mas nunca nos podemos esquecer das diversas velocidades a que o mundo ‘rola’. Nos países desenvolvidos a transição vai, ou está a dar-se, de uma forma ou de outra, mas nos países menos desenvolvidos ou pobres, é preciso pensar em soluções. Aproveitar o que já existe, os motores a combustão, parece claramente uma boa ideia se dessa equação se retirar o que é mau: as emissões.

O Futuro Unificado do WRC
Não é só Mathias Henke que acredita que o WRC está a passar por uma “tempestade perfeita” devido à sua complexidade excessiva, à falta de fabricantes (equipas de fábrica) e a uma desconexão com a realidade da indústria automóvel, que está há muito em transição.
Por isso, ele e muitos entendem que a solução passa por simplificar, agarrando no que hoje em dia é um sucesso. A proposta da FIA, que deverá mesmo avançar, passa por classes unificadas: os novos carros WRC27 e os atuais carros Rally2 passam a competir na mesma classe, lutando por vitórias e pelos títulos mundiais.
Isto tem potencial para tornar o desporto muito mais aberto e acessível. Com o potencial de vermos pilotos e equipas privadas a mistrarem-se com as suas congéneres de fábrica, tal como sucedia nos anos 90 com os Grupos A. Passou a haver menos carros de topo com os WRC a partir de 1997, devido aos custos (lá está), mas nada como sucede agora.
Provavelmente vamos voltar a ver mais talentos locais a surgir, como aconteceu em 2024 com Martins Sesks, e isso tem grande potencial para melhorar a experiência e a ligação com os adeptos. Na verdade, esta é uma boa oportunidade para uma ‘reviravolta’ no WRC. Mesmo que se perca algum ‘andamento’ em virtude da queda da potência dos carros, penso que se for possível ter muito mais gente a lutar na frente, e eventualmente ter pilotos de mais países a surgir e a entrar nessas lutas, especialmente nos ralis caseiros. Tal como sucedia muitas vezes no passado, isso pode ser muito bom para o WRC.
Esta é claramente uma grande oportunidade para reinventar o desporto de modo a tentar torná-lo mais relevante novamente.

Equilíbrio Entre Paixão e Pragmatismo
Todos nos lembramos dos orçamentos ‘ilimitados’ dos anos 80 e das loucuras que se fizeram no desporto automóvel. Hoje, isso é impossível, porque todo e qualquer CEO tem de prestar contas e só pode gastar o que pensa poder ajudar a ganhar mais no produto final: a venda de carros.
É o choque destas duas forças que tem paralisado o WRC. O investimento não tem o retorno certo. Na F1, hoje em dia, não se fala de gastos porque o retorno chega e sobra. No WRC, temos o contrário, portanto é preciso atacar o problema.
Os puristas da engenharia (dentro da FIA e das equipas) querem, claro, manter o WRC como o pináculo da tecnologia de ralis, defendendo carros cada vez mais complexos e rápidos (como os atuais Rally1 e os híbridos de 2022-2024). Para eles, simplificar é “andar para trás”. Compreende-se, porque isso entusiasma muito mais. A maioria deles cresceu com a paixão pelos ralis no tempo em que o WRC entusiasmava fortemente, e esta era de carros WRC 2017-2021 e Rally1 2022-2026, tem sido fantástica para eles, pois os desafios técnicos dos carros são fantásticos e o seu andamento impressiona os adeptos mais ‘desligados’.

Mas os gestores corporativos (dentro dos fabricantes) estão focados exclusivamente no retorno sobre o investimento (ROI) e por isso perguntam: “Como é que um carro de ralis de 2 milhões de euros me ajuda a vender o meu novo SUV?”
Como se percebe, é preciso construir uma ponte entre estes dois mundos. Todos amamos a velocidade e o espetáculo (a paixão), mas para os podermos manter, o desporto tem de fazer sentido financeiro e ser relevante para o mundo de hoje (o pragmatismo). Por um lado, temos o enorme espetáculo que os carros dão nos troços; por outro, o desalento de ter poucos carros de topo, o que significa poucas mudanças nas tabelas do top 10 das provas. Portanto, o que se gasta entre quem luta na frente e os RC2/Rally2, que é uma categoria de sucesso, tem de ser equilibrado, não pode haver tanta diferença neste ‘salto’.
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