Há edições que se vencem na estrada. E há outras — raras, quase míticas — que ficam para sempre presas a um instante absurdo, desses que o desporto automóvel não consegue explicar por completo. A Volta à Madeira de 1981 foi uma dessas provas, um rali onde o destino trocou as voltas à lógica e onde a vitória mudou de mãos no silêncio de um reabastecimento.
Naquele agosto quente, a prova insular já deixara de ser promessa para se afirmar como palco europeu. Entre as curvas apertadas e o asfalto traiçoeiro da ilha, reuniam-se nomes de peso: Jean-Claude Andruet, mestre do asfalto, Adartico Vudafieri, campeão europeu, e uma armada italiana que via na Madeira uma oportunidade estratégica para o campeonato.
Ferrari, Abarth e a lei do mais forte
Desde o primeiro troço, Andruet impôs uma autoridade quase intimidante. O Ferrari 308 GTB, calçado com Michelin, parecia colado à estrada. Mais de trinta segundos de vantagem logo na abertura eram um aviso claro: ali mandava o francês.
“Mais de um segundo por quilómetro”, recordavam as crónicas da época, sublinhando o domínio esmagador. Enquanto isso, o Jolly Club desmoronava-se cedo: Zanussi fora de estrada, Vudafieri em queda aparatosa, com consequências físicas e mecânicas. O rali, que prometia duelo, transformava-se num monólogo.
Também no plano nacional, o cenário se simplificava. José Pedro Borges abandonava, deixando Santinho Mendes com caminho aberto.
A Madeira parecia, então, desenhada para heróis solitários.
O momento que mudou tudo
Mas o automobilismo tem memória longa porque cultiva o inesperado. E foi já pela noite dentro que tudo se quebrou. Num erro tão simples quanto devastador, o Ferrari de Andruet foi abastecido com água em vez de gasolina. Um engano mecânico, humano — ou, como alguns ainda hoje insinuam, algo mais — que ditou o fim abrupto de uma vitória anunciada.
“Era a desistência inglória”, escrever-se-ia depois. E com ela, não só se perdia o rali, mas também, na prática, o campeonato europeu. Até hoje, o episódio permanece envolto em dúvida. Acidente? Descuido? Sabotagem? A verdade dilui-se no tempo, mas o impacto permanece intacto.
A vitória que ninguém previa
Aly Kridel, discreto e eficaz, herdou a liderança e nunca mais a largou. Sem o brilho mediático dos favoritos, fez o que o rali exige na sua essência: resistir, manter-se em prova, aproveitar o momento. “Para vencer, basta acima de tudo ser regular”, dir-se-ia, quase como moral desta história improvável. Atrás, Antonella Mandelli consolidava um sólido segundo lugar, enquanto Santinho Mendes, apesar de contratempos, saía da ilha mais próximo do título nacional.
Memória, mito e legado
Décadas depois, a edição de 1981 continua viva — nas histórias contadas à beira da estrada, nas peças guardadas como relíquias, nas conversas entre gerações. Há quem ainda recorde o despiste de Vudafieri nos eucaliptos ou quem guarde fragmentos de um Fiat 131 Abarth como se fossem artefactos sagrados.
E há também quem, como Giovanni Bernacchini, conhecido navegador de pilotos como Nasser al Attiyah, Lorenzo Bertelli, Gigi Galli, etc,
revisite essas memórias através dos relatos do pai, confirmando dores, quedas e detalhes que o tempo não apagou.
A Volta à Madeira desse ano não foi apenas um rali. Foi um lembrete de que, neste desporto, a fronteira entre glória e desilusão pode caber num simples bidão — e que é precisamente aí, nesse território imprevisível, que nascem as histórias eternas.








