A entrada de novos proprietários no Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), com a aquisição do WRC Promoter pela Cosmobilis e pela Park Square Capital e a nomeação de Eric Boullier como diretor executivo, traz estabilidade e investimento à modalidade, mas obriga a uma coordenação estreita com a Federação Internacional do Automóvel (FIA): quem o defende, é Robert Reid, ex-navegador de Richard Burns, que entre 2021 e abril de 2025, exerceu funções como presidente-adjunto para o Desporto da FIA.
Os cargos de Reid na FIA incluíram o de vice-presidente da Comissão do Campeonato do Mundo de Ralis, presidente dos comissários desportivos do WRC e presidente da Comissão de Revisão do Código Desportivo Internacional.
Em 2021, foi eleito presidente-adjunto para o Desporto ao lado de Mohammed bin Sulayem. Renunciou a este cargo a 10 de abril de 2025, afirmando que a FIA regista “uma rutura fundamental nos padrões de governação dentro do órgão dirigente global do automobilismo”.
Apresentação feita, numa análise publicada por si na plataforma Substack, o antigo navegador e campeão do mundo de 2001 salienta que os ralis têm sofrido com a falta de coerência sistémica. Segundo o antigo dirigente da FIA, a modalidade mantém estradas extraordinárias, equipas empenhadas e bases de voluntários sólidas, mas o desafio continua a ser alinhar os diferentes intervenientes na mesma direção.
A questão assume particular relevância face à chegada das regulamentações WRC27. Embora o conceito inicial apontasse para custos mais baixos e flexibilidade técnica para atrair construtores e preparadores independentes, a exigência de construir dez carros em vinte e quatro meses, garantir a capacidade de fornecimento e alinhar obrigatoriamente duas viaturas na primeira época representa um risco financeiro elevado para estruturas independentes.
Relação entre Promotor e FIA e o papel do fundo de desenvolvimento
Para Robert Reid, a transição de propriedade sublinha a necessidade de alinhamento entre a estratégia regulatória da FIA e a realidade comercial do promotor. As restrições regulamentares que reduzem a participação acabam por limitar as histórias e o valor comercial que o promotor pode explorar, tornando indispensável que ambos os organismos mantenham propósitos convergentes.
O antigo dirigente aborda também o impacto do Fundo de Desenvolvimento da FIA, defendendo que a aplicação de padrões internacionais em contextos locais — como no automobilismo de base em África — deve pautar-se pela proporcionalidade e pela melhoria faseada, sob pena de inviabilizar campeonatos regionais inteiros devido aos custos de conformidade.
Com Eric Boullier no cargo de diretor executivo e seis meses adicionais de due diligence acumulados pelos novos investidores, a modalidade aguarda agora que a transição institucional se traduza em prioridades estratégicas concretas para o futuro do WRC e do Campeonato da Europa de Ralis (ERC).
É fácil perceber que o novo investimento pode estabilizar o WRC, mas não produzirá resultados se a estratégia comercial do promotor e a regulamentação da FIA continuarem desalinhadas.
Resumindo, o capital não basta. O dinheiro novo não compensa regras que afastam construtores e equipas. Menos participantes significam menos espetáculo e menos valor para o promotor.
E há uma contradição no WRC27. O objetivo declarado era atrair construtores pequenos, mas os requisitos de homologação e de compromisso desincentivam-nos.
A FIA e o promotor têm de se coordenar. A FIA regula e o promotor monetiza. Se tiverem prioridades diferentes, cada decisão de uma parte anula o efeito da outra.







