Vinte e cinco anos depois, o Rali de Portugal volta a cair nas malhas da política do Mundial de Ralis. E é difícil não olhar para esta decisão com uma mistura de incredulidade, revolta e aquele sarcasmo amargo que sobra quando se percebe que, para alguns, o “ADN dos ralis” é uma excelente frase de entrevista — desde que não obrigue a preservar aquilo que, de facto, define os ralis.
Éric Boullier chegou ao WRC a prometer devolver o campeonato ao lugar de destaque. Garantiu que o ADN da modalidade seria respeitado, protegido, mantido como “linha vermelha”. Bonito. Forte. Quase comovente. Depois, uma das primeiras grandes decisões associadas ao novo ciclo promocional é retirar do calendário precisamente uma das provas que melhor representa esse ADN: o Rali de Portugal.
Não deixa de ser uma maneira bastante particular de tranquilizar os adeptos. Primeiro diz-se que nada vai mudar na essência do Mundial; depois tira-se da equação uma prova com história, multidões, troços míticos, paixão popular, longevidade e reconhecimento transversal entre quem vive o campeonato por dentro. Se isto é preservar o ADN, talvez seja melhor começar por esclarecer o significado da sigla.
Outra vez a política
Em 2001, a poderosa Alemanha tinha de entrar no calendário do Mundial. Era preciso abrir espaço. O Rali de Portugal pôs-se a jeito, as coisas correram mal — pelos motivos que todos recordamos — e Portugal ficou de fora.
Foi uma queda particularmente pesada: até então, a prova portuguesa tinha estado ininterruptamente ligada ao Mundial desde o nascimento do campeonato. A exceção fora 1996, quando a rotatividade obrigatória das provas também lhe tocou e Portugal integrou apenas a F2, reservada aos carros de duas rodas motrizes. Mas, tirando esse parêntesis, o Rali de Portugal era uma presença natural. Não era um enfeite de calendário. Era uma das vigas da casa.
Agora, em 2026, regressa a sensação de déjà vu. Mais uma vez, Portugal fica exposto àquilo que raramente se explica de forma transparente e que, no WRC, costuma ser embrulhado em palavras institucionais, sorrisos de circunstância e promessas vagas de futuro. A política do calendário voltou a passar por cima da história.
E convém dizer isto sem rodeios: esqueçam a narrativa fácil de que terá sido um reboque em Arganil a condenar a prova portuguesa, que tinha a sua permanência no calendário aparentemente alinhavada até 2028. Isto não parece um castigo. Parece uma decisão. E são coisas muito diferentes.
Porque, se a lógica fosse mesmo a dos “castigos”, então talvez fosse útil recordar o que aconteceu no Rali do Japão: um carro civil entrou em sentido contrário num troço e acabou parado à frente de Elfyn Evans quando o galês se preparava para iniciar a especial. Imagine-se, por um instante, se Evans já estivesse lançado no troço. O potencial de tragédia estava lá, nu e cru, sem maquilhagem promocional.
O Japão saiu do Mundial? Não.
Portanto, não tentem vender a ideia de que Portugal foi afastado por uma qualquer necessidade de punir, disciplinar ou dar um exemplo. Esta saída não tem ar de sanção. Tem ar de escolha política. E, como tantas escolhas políticas, talvez só faça verdadeiro sentido quando alguém decidir explicar aquilo que, por enquanto, prefere deixar no nevoeiro.
As explicações ficam para quem tiver o dever — e a coragem — de as dar.
O rali que o WRC usa… até deixar de precisar?
A ironia é quase perfeita. Os vídeos oficiais do WRC, os genéricos de abertura, as imagens promocionais da competição: quantas vezes começam com Portugal? Quantas vezes a terra, os saltos, as multidões e os troços portugueses serviram para vender ao mundo a imagem de um Mundial vibrante, extremo, apaixonado e espetacular?
O Rali de Portugal é suficientemente bom para os trailers. Suficientemente fotogénico para a promoção. Suficientemente mítico para ilustrar aquilo que o WRC quer ser. Mas, aparentemente, não é suficientemente importante para estar no calendário.
É uma extraordinária lição de marketing: usar a alma de uma prova para vender o produto e, depois, remover a própria prova do produto. Talvez haja quem lhe chame modernização. Outros chamar-lhe-ão incoerência. E com razão.
Boullier disse que o WRC precisa de recuperar relevância. Disse que o ADN dos ralis não será alterado. Disse mesmo que esse ADN seria uma “linha vermelha”.
Mas sem o Rali de Portugal, o ADN do Mundial já não é o mesmo.
Não é uma questão de chauvinismo, nem de bandeirinhas agitadas por reflexo patriótico. É uma questão de realidade. A FIA e o novo Promotor falam de ralis competitivos, de provas fortes e de identidade histórica. Portugal encaixa em todas essas categorias com uma facilidade desconcertante.
Em matéria de tradição e peso histórico, poucos podem comparar-se. Monte Carlo e Finlândia estão nesse patamar. A Suécia tem ainda a condição irrepetível de ser o único rali de neve. Portugal, por seu lado, é terra, multidões, calor, dificuldades, troços icónicos, história e uma ligação popular que muitos campeonatos matariam para ter.
Mas parece que tudo isso vale menos do que uma vaga de calendário, uma negociação de bastidores ou, quem sabe, uma conta que fecha melhor noutro ponto qualquer do mapa.
O que dizem os protagonistas
Em 2024, questionámos duas dezenas e meia de pilotos e navegadores do WRC sobre as suas provas preferidas. Não eram comentadores de sofá, influencers de ocasião ou adeptos guiados por patriotismos convenientes. Eram pilotos e navegadores que conhecem os ralis de dentro: os pisos, os troços, as organizações, os ambientes, a exigência, as viagens, os riscos e as diferenças entre uma prova que funciona e uma prova que apenas ocupa uma data no calendário.
A pergunta era simples, mas abrangente: qual era o rali que mais se destacava no calendário? Quais os melhores troços? Onde havia melhor ambiente? Qual a melhor organização? Qual a prova mais difícil? Qual o país mais bonito? E, já agora, onde se comia melhor? No fim, a pergunta decisiva: em termos gerais, qual era a prova preferida?
As respostas foram variadas, como seria natural num campeonato que percorre países, culturas e tipos de piso tão diferentes. Mas houve conclusões difíceis de ignorar.
Na qualidade da organização, Portugal ficou empatado no primeiro lugar com Estónia e Finlândia: sete votos para cada um. Os restantes quatro votos distribuíram-se por Espanha, Suécia, França e Grã-Bretanha.
Ou seja: para quem trabalha no Mundial, Portugal não é apenas uma prova “bonita”, nem uma nostalgia para consumo interno. É uma das referências organizativas do campeonato.
Depois vem o ambiente. E aqui a mensagem foi brutalmente clara.
O Rali de Portugal foi escolhido como a prova com melhor ambiente por 14 dos pilotos e navegadores consultados. Quase não há necessidade de acrescentar muito mais. Argentina teve cinco votos; Finlândia, México e Monte Carlo receberam três; Estónia, dois; e Catalunha/Espanha, Chile, Grã-Bretanha e Japão ficaram com um voto cada.
Houve votos para dez ralis. Portugal ganhou de forma inequívoca.
É esse rali que sai do calendário. O rali onde os protagonistas reconhecem o melhor ambiente. O rali que gera imagens de multidões que o WRC adora mostrar quando precisa de provar que ainda tem alma. O rali que dá ao Mundial aquilo que nenhum comunicado de imprensa consegue fabricar: uma relação emocional genuína entre competição, território e público.
Talvez seja mesmo essa a dificuldade. Paixão não entra facilmente numa folha de cálculo.
Quanto à prova preferida em termos gerais, oito ralis receberam votos. Finlândia e Grã-Bretanha lideraram, com cinco cada, o que também revela as saudades que pilotos e navegadores continuam a ter da prova britânica, ausente do WRC desde 2019. Monte Carlo e Portugal surgiram logo a seguir, com quatro votos cada. Suécia obteve três, Safari dois, e Bélgica e Argentina um voto cada.
No calendário atual, isto coloca Portugal entre os ralis mais apreciados pelos próprios protagonistas: apenas atrás da Finlândia e ao nível de Monte Carlo.
Significativo? Sim. Embaraçoso para quem decidiu afastá-lo? Também.
Os adeptos percebem
Talvez Éric Boullier devesse perder alguns minutos a ler aquilo que se escreve fora das bolhas institucionais e dos comunicados cuidadosamente polidos. Não apenas em Portugal, onde seria demasiado fácil acusar os críticos de parcialidade, mas entre adeptos internacionais, em espaços como o Reddit.
Um utilizador, Franko, resumiu assim a surpresa: “Que chatice. E muito inesperado, na minha opinião. Para mim, o Rali de Portugal parecia ser uma daquelas provas como a Suécia, a Finlândia e Monte Carlo que, a esta altura, já fazem parte da essência do WRC.”
É precisamente isso. Portugal não era uma prova qualquer, encaixada no calendário como quem preenche uma casa vazia numa grelha de Excel. Era uma das provas que fazem parte da essência do campeonato. Daquelas que ajudam a explicar a alguém, em duas imagens e três passagens de carros, porque é que os ralis continuam a mexer com tanta gente.
Michal_Baranowski foi ainda mais direto: “Perder Portugal é um espetáculo triste. Um rali que poderá ter problemas internos a nível organizacional, mas que é espetacular, com adeptos apaixonados — às vezes talvez até demais — e troços míticos. Ganhamos um evento clássico de volta, mas podemos perder dois no processo.”
A frase merece atenção: “podemos perder dois no processo”. Porque é exatamente essa a sensação. Recuperar um clássico pode ser excelente. O Mundial precisa de clássicos. Mas trocar uma prova histórica por outra prova histórica não é necessariamente evolução; pode ser apenas uma troca mal explicada, feita como se a memória, a identidade e o valor de cada rali fossem todos equivalentes. Não são.
O Rali de Portugal não é substituível por decreto. Pode haver outro rali de terra. Pode haver outro país com boas estradas, paisagens interessantes, organização competente e até público entusiasta. Mas não há outro Portugal. Não há outra Fafe, outro Arganil, outra passagem com aquele tipo de energia, outro historial construído ao longo de décadas entre carros, pó, pedras, multidões e gerações inteiras de adeptos.
E depois há a resposta de Pamuknai_K, curta, seca e talvez demasiado próxima daquilo que muitos suspeitam:
“Dinheiro.”
E ainda: “A verdadeira razão não revelada é substituí-lo por outro rali que traga mais dinheiro.”
Pode ser apenas uma opinião de adepto. Naturalmente, não prova nada. Mas quando a comunicação oficial deixa lacunas, quando uma decisão parece contradizer os princípios anunciados e quando uma prova com o peso de Portugal desaparece do calendário sem uma explicação clara, o espaço é ocupado por suspeitas. E essas suspeitas não nascem do nada: nascem do silêncio.
Uma linha vermelha apagada
O novo Promotor diz querer um WRC mais forte, mais relevante e fiel ao seu ADN. É uma ambição legítima. O campeonato precisa de visão, estabilidade, promoção inteligente, melhores narrativas e decisões que aproximem o desporto de quem já o ama — e de quem ainda pode vir a amá-lo.
Mas não se recupera a grandeza do WRC amputando uma das suas referências.
Não se protege o ADN retirando uma prova que os próprios pilotos e navegadores identificam como uma das melhores organizadas, a melhor em ambiente e uma das suas favoritas.
Não se tranquilizam os adeptos tirando do calendário um rali que, para tantos, está no mesmo grupo de Monte Carlo, Finlândia e Suécia: aqueles que não deveriam precisar de justificar a sua existência todos os anos perante uma mesa de negociações.
O Rali de Portugal não é perfeito. Nunca foi. Nenhum rali é. Houve problemas, haverá aspetos a melhorar e responsabilidades que terão de ser apuradas por quem tem competência para o fazer. Mas uma coisa é exigir rigor, segurança e melhoria contínua. Outra é fingir que a retirada de Portugal é compatível com a promessa de preservar a essência dos ralis. Não é.
O Mundial pode seguir sem Portugal. Claro que pode. Vai ter carros, campeões, troços, câmaras a bordo e comunicados inspiradores sobre o futuro. Mas será um Mundial mais pobre, menos reconhecível e menos ligado a uma parte essencial da sua própria história.
Talvez o ADN dos ralis não seja alterado, como prometeu Boullier. Mas, sem o Rali de Portugal, alguém acabou de lhe apagar uma das linhas mais importantes.









