Malcolm Wilson: “Tenho o melhor emprego de todos!”
Tal como sucedeu por exemplo com Jean-Pierre Nicolas (Peugeot) ou Guy Frequelin (Citroën), também Malcolm Wilson começou a sua carreira atrás do volante, embora no caso do britânico sem o sucesso dos seus antigos rivais franceses – que chegaram a vencer provas no “Mundial” na década de 70 e 80, respetivamente.
A razão talvez esteja precisamente na visão empresarial que Malcolm Wilson sempre teve da disciplina, fundando a sua primeira empresa, a “Malcolm Wilson Motorsport”, apenas cinco anos depois da sua estreia como piloto, em 1973. Talvez por isso, na hora de arrumar definitivamente as botas, a transição para o mundo empresarial foi relativamente fácil. Afinal, Malcolm Wilson é o primeiro a considerar que tem o melhor emprego de todos.
A ligação entre Malcolm Wilson e a Ford remonta quase à infância deste britânico, nascido e crescido em Cumbria, de onde aliás teimou em nunca sair, mesmo quando recebeu um convite de Martin Withaker para tomar conta dos destinos da Ford no “Mundial” de Ralis… mas em Essex. De início, Malcolm Wilson até considerou essa hipótese. “Mas numa noite acordei e pensei para comigo: nem pensar! Não conseguiria fazer o meu trabalho se tivesse de sair de Cumbria. Na manhã seguinte telefonei ao Martin e disse-lhe que o sonho tinha acabado”.
Só que tudo mudou num célebre Rali dos 1000 Lagos, em 1996, quando o então piloto privado da Ford, Jarmo Kytolehto, que na altura recorria aos serviços de Malcolm Wilson, bateu os oficiais Carlos Sainz e Bruno Thiry. “No dia seguinte, recebi outro telefonema e as negociações recomeçaram”. E pouco tempo depois, o mesmo miúdo que aos oito anos já conduzia um Ford Anglia, no terreno que ficava à frente da casa dos pais, dava início a uma profícua ligação com a Ford. O pontapé de saída foi dado oficialmente no “Monte Carlo” de 1997. E desde aí, muita coisa mudou na rebaptizada M-Sport, com sede em… Cumbria.
A lei do progresso
De facto, os ralis passaram a ter outro tipo de exigências, com a tecnologia a substituir cada vez mais a mão-de-obra nos ralis. “Lembro-me que no nosso primeiro ‘Monte Carlo’, em 1997, tínhamos cerca de 100 pessoas envolvidas na nossa estrutura, sendo que apenas dois eram engenheiros. Agora, apenas deslocámos 40 a 50 para uma prova, sendo que dessas, dez são engenheiros. As restantes pessoas ficam a trabalhar em ‘casa’, por detrás do palco.
A tecnologia deu efectivamente um salto incrível e os métodos de trabalho tiveram se adaptar a esta realidade, e foi com os World Rally Car que tudo começou a mudar. Por exemplo, a maioria do nosso trabalho concentra-se agora na simulação ou reprodução dos ralis, mas diante de um computador. Parece contraditório, mas na verdade poupa-se muito mais do que a testar no terreno. Para além disso, os orçamentos das equipas têm vindo a diminuir e provavelmente vão continuar, ainda mais agora que a Ford tirou o tapete.
Muitas recordações
Mas que recordações guarda Malcolm Wilson destes anos como director desportivo da Ford Motor Company? “Logicamente que as vitórias são sempre as nossas melhores recordações. Lembro-me do triunfo na ‘Acrópole’ em 1997, por ter sido o nosso primeiro no ‘Mundial’, mas também no ‘Safari’ de 1999, pois foi a primeira vitória com o Focus. Mas talvez a fase mais emocionante nestes últimos anos tenha sido precisamente o desenvolvimento do primeiro Focus WRC, devido às elevadas expectativas que foram depositadas pela Ford neste projecto. Foi, de facto, um passo gigantesco quando comparado com o Escort WRC”.
Pelo contrário, os momentos mais dramáticos aconteceram no final da temporada de 2003, “quando fomos confrontados com a hipótese da Ford pura e simplesmente se retirar do ‘Mundial’ e depois em 2012, quando isso acabou mesmo por suceder. Foram tempos bastante angustiantes, tanto para mim como para toda a equipa.
Hoje em dia, e com uma nova direção fruto da saída da Ford e do apoio do Qatar, a M-Sport continua na linha da frente o desenvolvimento e venda de carros de ralis das mais diversas categorias, de tal forma que a falta de sucessos da equipa principal no WRC foi relegada para segundo plano tendo em conta a forte atividade económica da M-Sport, que vai sofrer novo incremento com o desenvolvimento do Ford Fiesta R5. Bernardo Sousa quer levar um ao Rali da Madeira…
Na próxima edição do Autosport, leia uma completa entrevista com Malcolm Wilson relativamente a todos os detalhes da equipa que lidera.
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