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A história dos finlandeses voadores

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16 Dezembro, 2017
in Ralis
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Um dia, um finlandês voador, Pasi Hagstrom, campeão finlandês de 1999, participante em muitas provas do WRC, que foi também ‘instrutor’ de Armindo Araújo, quando este se preparava para a sua aventura mundial, contou-nos que o facto do seu país manter muitas das estradas em terra se deve ao facto dos invernos rigorosos as cobrirem de neve, boa parte do ano, e os poucos meses em que estão secas, não justifica o investimento no asfalto, até porque sendo normalmente largas e com boa consistência, o piso em muitos sítios, quase não parece de terra, mas sim uma qualquer ‘autoestrada’ natural. A única coisa que Pasi Hagstrom afastaria são as enormes árvores, que ficam muito bem na paisagem, mas a 200 km/h já não parecem tão bem ali ao pé…

Tudo começa nos anos 60

Foi no início dos anos 60 que se passou a ouvir falar os “finlandeses voadores” que começavam a surgir nas provas internacionais, quando, por exemplo, a BMC contratou Rauno Aaltonen e Timo Mäkinen para guiar os seus Austin Healeys e os MINI. Mas talvez tenha sido um filme de 1968 da Castrol, precisamente denominado “Finlandeses Voadores” que tenha ‘pegado’ pois a partir daí foi como Timo Mäkinen, Hannu Mikkola, Simo Lampinen Rauno Aaltonen, Pauli Toivonen e tantos outros, passaram a ser conhecidos.

Ao longo do tempo, a Finlândia foi-nos dando grandes campeões, mesmo não o tendo sido efetivamente, como Rauno Aaltonen, Timo Mäkinen, Pauli Toivonen, Hannu Mikkola, Markku Alén, Ari Vatanen, Timo Salonen, Henri Toivonen, Juha Kankkunen, Tommi Mäkinen e Marcus Grönholm, e agora mais recentemente Mikko Hirvonen, Jari-Matti Latvala e Espaekka Lappi, que têm trabalhado para atingir o estatuto da maioria dos seus antecessores, mas que devido ao facto de terem tido pela frente franceses  chamados ‘Sébastien’, Loeb e Ogier, ainda não o conseguiram na plenitude.

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Os vídeos que nos ficaram da história dos ralis permitem-nos recordar imagens fabulosas, e perceber um pouco do que estes finlandeses fizeram pela modalidade, tornando-os conhecidos em todo o Mundo. Hoje em dia, o finlandês mais conhecido continua a ser Kimi Raikkonen, Campeão do Mundo de Fórmula 1 de 2007, e nem ele deixou de seguir as pisadas dos seus veteranos compatriotas, que fizeram com que qualquer finlandês que se preze, seja um verdadeiro apaixonado dos ralis. Vamos recordar alguns deles em palavras e também em imagens.

Sr. Eurodeputado Ari Vatanen

Para além de finlandês voador, Ari Vatanen bem que podia ter sido apelidado de camaleão. Porquê? Talvez porque conseguiu colocar o mesmo grau de eficiência por onde passou. Fez história no Mundial de Ralis, que trocou pelas dunas do Dakar com a mesma (maior?) eficiência, ficou na memória de todos com o recital de pilotagem Pikes Peak acima e ainda foi a tempo de ser eleito por duas vezes como eurodeputado.

Nasceu na rural Tuupovaara e diz que ainda hoje conserva os fundamentos que aprendeu em criança. Ari Vatanen defende que “nenhum homem me merece tanto respeito como o próximo. Do rei da Jordânia ao rapaz descalço de Timbuktu, todos me são iguais por princípio”. Membro do Parlamento Europeu entre 1999 e 2009, foi eleito por partidos da Finlândia e de França, onde vive desde os tempos da Peugeot e onde tem uma exploração vinícola. Enquanto eurodeputado lutou pela causa da segurança rodoviária. Não foi por acaso: o pai morreu num acidente de viação e Ari também estava no carro.

Inteligente e sensível, alimenta frequentemente os seus dois sites pessoais – um de caráter geral e outro sobre ralis. Foi lá que escreveu a homenagem ao amigo Colin McRae: “Quando soube da notícia fiquei de rastos. Pensei na fragilidade da vida humana. A minha mulher, Rita, sentiu-se doente, talvez porque o ex-marido também morreu num desastre de avião, ou talvez porque tínhamos estado com o Colin e a mulher dele, Alison, pouco tempo antes. As pessoas dizem que eu e ele tínhamos o mesmo estilo do ‘tudo ou nada’. Haverá outra forma de viver?”

Depois, uma pequena provocação. “Se sinto a falta da competição? Bem… É um pouco como um músico profissional que deixa de tocar numa orquestra ou numa banda. O gosto e paixão continuam lá, mas já não se compram tantos discos ou se ouve tanta música. Tive uma carreira recheada de coisas boas, pelo que sinto que vivi bem os meus anos como piloto”, confessou.

Markku Alen ou o campeão sem título

Apesar de toda a sua popularidade e rapidez, Markku Alen não obteve nenhum título na sua longa carreira. O piloto ganhou a Taça FIA de Pilotos em 1978, exatamente um ano antes daquela entidade criar o campeonato destinado aos condutores pois anteriormente só as marcas eram laureadas. Dado curioso é que chegou a ser campeão por quinze dias em 1986. Dada a desclassificação dos Peugeot 205 Turbo 16 em Sanremo, o finlandês chegou a festejar o título antes da federação decidir da classificação do campeonato o resultado da prova italiana.

O piloto é, no entanto e ainda hoje, um dos que melhores estatísticas tem nos ralis. Nascido a 15 de Fevereiro de 1951, Alen é o terceiro vencedor mais novo dum rali mundial pois ganhou o Rali de Portugal de 1975 com 24 anos e 156 dias. No agora denominado WRC somou 19 vitórias e terminou 56 vezes (43,4% das participações) no pódio. Chegou a correr na velocidade em 1995 com a Alfa Romeo em duas provas  dos ITCC e DTM de 1995 e participou duas vezes no Dakar com camiões Iveco. A sua carreira como piloto de ralis terminou aos 50 anos no Rali da Finlândia de 2001 em que alinhou com um Ford Focus WRC e terminou num honroso 16º lugar: “Fiz o meu primeiro rali em 1969 com um Renault Gordini e mantive-me três anos ao volante de pequenos carros de série. Em 1974, participei na minha primeira prova fora da Finlândia, em Portugal, com o Fiat 124 que ainda era, digamos, metade de série e metade de competição. Depois disso, a evolução foi grande, hoje em dia os carros de rali não têm nada a ver com o que se conduz em estrada e se vai ao supermercado ou comprar leite de manhã. Podemos dizer que os carros de rali foram evoluindo ao longo das décadas na mesma proporção que os carros de série”.

Ao serviço do grupo Fiat, Alen esteve ao volante de vários grupo B como os Lancia 037 e Delta S4. Estabelecer um paralelo entre esses “monstros” e os actuais carros é quase impossível, garante: “Acho que hoje é toda a equipa que faz a diferença. No meu tempo bastava acelerar a fundo e ver o que se conseguia. Agora temos os engenheiros, a telemetria, as suspensões, etc. Isso torna mais difícil o piloto fazer a diferença.”

As próprias provas no passado eram mais “românticas. Os ralis tinham uma outra aura e a proximidade dos carros com aqueles que o público utilizava todos os dias serviram para tornar a modalidade muito popular”. Algo que acontece em Portugal onde Markku Alen ainda tem muitos adeptos. “Acho que hoje já não terei fãs propriamente ditos mas tenho cá muitos amigos e adoro o vosso país.”

Maximum attack

A expressão banalizou-se e hoje utiliza-se desde a Fórmula 1 até aos ralis e perícias de campeonatos regionais. No entanto, “Maximum attack” continuará como a frase típica de Markku Alen no relacionamento com os media numa altura em que, à semelhança de tantos outros finlandeses, o seu domínio de qualquer língua estrangeira era praticamente nulo. Mais importante que isso é contudo o seu contexto e a forma perfeita como se adapta à postura daquele piloto que entusiasmou várias gerações de adeptos. Esse empenho está bem patente em algumas suas declarações, já com algum tempo, como conselho a novos jovens pilotos. “O importante não é estar nos ralis a 99% mas sim a 110%. Hoje é difícil porque os carros são muito caros mas defendo que é melhor andar a fundo e liderar mesmo se depois se tem um acidente do que andar a arrastar-se por lugares secundários pois assim ninguém nos conhece. Ou dá-se tudo ou fica-se em casa!”

O regresso ao passado de Juha Kankkunen

O que faz um piloto que já por quatro vezes foi Campeão do Mundo de Ralis ser visto atualmente, por vezes, ao volante de um Ford Escort RS 1800 de Grupo 4? Na primeira pessoa, Juha Kankkunen tem a resposta: “pura diversão!”

Juha Kankkunen continua a ser um dos expoentes máximos da geração dos “finlandeses voadores” e  hoje revive sensações já quase esquecidas, porque abandonadas há mais de 20 anos. É a lei da vida, a mesma lei do progresso que o fez guiar carros tão diferentes como um Opel Manta, Toyota Celica TCT e GT-Four, Turbo 4WD, Peugeot 205 Turbo 16, Lancia Delta 4WD e Integrale, Ford Escort Cosworth e WRC, Subaru Impreza WRC, Hyundai Accent WRC e, claro está, o mítico Ford Escort RS, a que agora voltou depois de se ter estreado no Rali dos 1000 Lagos, corria o ano de 1979!

https://youtu.be/Y5dPqWMXxNE

Para o finlandês que conseguiu já 22 vitórias, 32 segundos lugares e 20 terceiros no “Mundial” de Ralis e que agora divide o seu tempo de forma bem diferente: “não faço ideia o que vou fazer nos automóveis nos próximos anos. Agora tenho mais tempo para dedicar à família e à vida caseira, o que é bom, mas não me apetece acabar já os meus dias atrás de um volante”. Não dizem que os gatos têm sete vidas? Pois Kankkunen, certamente, ainda não as gastou todas…

 

A segunda vida de Tommi Makinen

Jyvaskyla, no centro da Finlândia, ‘produziu’ dois Campeões do Mundo especiais: Juha Kankkunen e Tommi Makinen, cada um com quatro títulos de Pilotos. Mas o que Jyvaskyla nunca tinha produzido até há pouco tempo era uma espécie de centro técnico dedicado aos ralis. O que era uma miragem no passado, já não é. Quando Tommi Makinen se retirou do Mundial de Ralis, foi convidado pela Subaru para criar esse centro, com a especialização no modelo Impreza e com a pontaria direcionada para os mercados do norte e do leste europeu, complexo que nasceu nos subúrbios de Jyvaskila, em Puuppola, o ex-Campeão do Mundo redimensionou toda a sua estrutura, juntando as suas ‘armas’ às providenciadas por Kankkunen, na Juha Kankkunen Driving Academy, especializada em evoluir a condução de pilotos de ralis no gelo e na neve! Como se sabe, é agora líder da Toyota Gazoo Racing, estrutura que montou, fruto da experiência que já trazia da Tommi Makinen Racing, liderando agora uma equipa que tenta regressar ao topo dos ralis, numa ideia que estava longe do pensamento de Makinen há duas décadas: “tem sido um trabalho fascinante, mas tenho que confessar que mesmo quando abandonei o WRC e pensava apenas dedicar-me à minha quinta, estava longe de imaginar que iria ser preparador a partir de 2003 depois do convite dos japoneses, e agora chefe da equipa Toyota”.

Currículo invejável

Antes da ‘Ogiermania’ dos dias de hoje, Tommi Makinen foi um dos mais carismáticos pilotos do Mundial de Ralis arrastando, também ele, uma autêntica legião de fãs. Mesmo se já não detém o recorde de títulos, o finlandês voador foi o primeiro a conseguir conquistar quatro títulos consecutivos (entre 1996 e 1999). Ostenta no currículo 24 vitórias, 45 pódios (cinco segundos lugares e 16 terceiros) e 362 vitórias em provas especiais de classificação, números que merecem o respeito de todos que o tiveram como adversário ou que simplesmente admiraram as suas aptidões para a condução. Apesar de ter sido piloto da Nissan e da Subaru, foi na formação oficial da Mitsubishi que construiu o nome. Aliás, foi mesmo o único piloto a conseguir estrondosos sucessos num modelo de Grupo A (Lancer) na era dos World Rally Cars. Inesquecível…

E há muito mais que podiam ser aqui dados como exemplo…

Tags: Ari VatanenHannu MikkolaHenri ToivonenJari-Matti LatvalaJuha KankkunenMarcus GronholmMarkku AlenMikko HirvonenPauli ToivonenRauno AaltonenTimo MäkinenTimo SalonenTommi Makinen

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