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Entrevista com Carlos Fernandes: entre a memória do irmão e a paixão inabalável pelos Ralis

José Luis Abreu by José Luis Abreu
1 Fevereiro, 2026
in Newsletter, Newsletter destaque, Ralis
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Carlos Fernandes, piloto de ralis, recorda a influência do seu irmão falecido, a paixão pelos automóveis e a resiliência que o movem nas competições. Numa entrevista exclusiva, Fernandes partilha os desafios enfrentados, os sonhos de alcançar um título nacional e agora a dedicação em potenciar novos talentos na Wintech, revelando a alma de um competidor que nunca desistiu de perseguir a velocidade, mesmo perante as adversidades. Que nunca foram poucas.
Um exemplo de persistência, resiliência, e umas ‘mãozinhas’ para guiar como poucos na história dos ralis portugueses…

FOTOS Arquivo AutoSport e Facebook Carlos Fernandes

AutoSport: Carlos Fernandes, para começarmos, o que te despertou o gosto pelos ralis e como é que tudo começou?
Carlos Fernandes: “A minha paixão automóvel está profundamente ligada à memória do meu irmão, que faleceu quando eu tinha cerca de 26 anos. Ele era dez anos mais velho e tinha um entusiasmo enorme por carros. Lembro-me de fazermos corridas de tratores na herdade dos meus pais e ele era um verdadeiro aficionado; quando tinha carros desportivos, vencia as rampas todas na nossa zona, em Sintra.
Naquela altura, por volta de 1990, eram as chamadas “rampas solidárias”: fechava-se um troço para apoiar uma causa e os particulares competiam para ver quem fazia o melhor tempo.
O meu irmão, António Manuel Fernandes — conhecido pelos amigos como “o Portão” —, era uma referência.
Foi aí que nasceu a minha paixão, que foi crescendo com a vontade de aprender e evoluir.
Mais tarde, comprei um Mitsubishi Lancer Evolution VI para participar em track days. Depois, adquiri um Evolution V em Inglaterra para o converter para condução à esquerda. Inicialmente, o objetivo eram apenas os track days, mas um grande amigo, o Ferreira, que acabou por ser o meu primeiro navegador, disse-me: “Não, vamos fazer ralis. Um evo é um carro de ralis, não de pista.” Na altura, a influência do Carreira 18 e do António Pais Amaral foi o impulso decisivo para começar. E assim começou a minha história.”

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AutoSport: Começaste a correr em 2010, aos 26 anos. Foi por não ter sido possível começar mais cedo?
Carlos Fernandes: “Precisamente. O desporto motorizado é muito dispendioso e não tive essa oportunidade anteriormente. Provavelmente, se tivesse começado num troféu mais jovem, a carreira poderia ter tomado outro rumo, pois as marcas investiam de forma diferente nos talentos nacionais.
Sinto que me faltou um pouco de sorte nesse aspeto. Costuma-se dizer que mais vale cair em graça do que ser engraçado. Eu corro pelo prazer que a competição me dá e pelo desafio de enfrentar outros pilotos, fazendo o melhor com os meios que tenho à disposição.”

AutoSport: Quando te iniciaste em 2010, quais eram os teus sonhos?
Carlos Fernandes: “Inicialmente não tinha grandes ambições, mas após três ou quatro ralis comecei a ponderar como seria competir no estrangeiro. Só em 2019 consegui correr em Espanha, onde venci troços contra pilotos locais, o que provou que consigo ser rápido fora de Portugal. Nos meus primeiros anos, os ralis mais próximos eram na Marinha Grande; de resto, corria em Fafe, Vieira do Minho ou Barcelos. Isso obrigou-me a aperfeiçoar as notas.
Nos últimos anos, como tenho mudado frequentemente de navegador, foco-me no essencial: tiro notas objetivas e confio plenamente no que me ditam. Quando eles ditam e eu executo, as coisas acontecem naturalmente.”

AutoSport: Qual foi o momento em que percebeste que tinhas velocidade para patamares superiores?
Carlos Fernandes: “Senti isso no Rali de Mortágua, em 2010. Vencemos a Super Especial no Regional e fizemos o terceiro tempo à geral no Nacional, a poucos segundos do Miguel Campos, que venceu a especial.
Isto com um carro convertido, com adaptações aqui e ali. No final desse rali, disse ao Luís — o meu braço direito e grande impulsionador, a par do António José Pais Amaral — que, se tivéssemos um carro fiável e em igualdade de circunstâncias com os outros, ganharíamos. Isso confirmou-se, em 2011, quando montamos um Peugeot: em sete corridas, vencemos três e conquistamos o campeonato sem precisar da oitava prova.”

AutoSport: A vitória no Desafio Modelstand, em 2012, abriu-te portas?
Carlos Fernandes: “Infelizmente, não abriu portas nenhumas. Terminamos o ano sem apoios. Valeu-nos novamente o Carreira 18, que nos cedeu um Citroën C2. Na terra, fizemos um excelente Rali Serra de Fafe, embora tenha tido problemas de motor — talvez por eu ter abusado um pouco nas reduções, admito.
No asfalto, nunca conseguimos que o carro fosse competitivo face aos DS3 R3. Na altura, talvez eu quisesse extrair mais do carro do que ele podia dar; faltou-me a destreza de aceitar as limitações do material.”

AutoSport: Como era, para um piloto rápido, ver outros com menos velocidade subir na carreira por terem mais apoios?
Carlos Fernandes: “Contra mim falo, mas talvez nunca tenha sabido trabalhar essa vertente. No desporto moderno, é preciso saber montar e promover um projeto de marketing e publicidade que viabilize a subida de patamar.
Eu limitava-me à parte técnica: ter o carro, afiná-lo e trabalhar nele. Faltou-me essa componente promocional.
Em 2016, tive o apoio de um amigo, o Pedro Simão, mas nunca conseguimos os meios necessários para disputar o Nacional com todas as condições.”

AutoSport: Se tivesses encontrado um grande patrocinador em 2011 ou 2012, onde acreditarias poder chegar?
Carlos Fernandes: “Acredito que teria conquistado facilmente um título nacional. Digo isto sem querer retirar mérito, profissionalismo ou velocidade a qualquer outro piloto, mas sinto que tinha velocidade suficiente para isso. Era um sonho ganhar o título nacional absoluto. Com o passar do tempo, torna-se cada vez mais difícil, mas a convicção mantém-se.”

AutoSport: Qual foi o melhor carro que guiaste até hoje?
Carlos Fernandes: “Tenho dois ‘amores’. O Mitsubishi Lancer Evolution é o carro onde me sinto mais à vontade; conheço-o desde 2007. É um carro muito competente e brilhante, mas tem as suas “manhas” e, sendo um projeto antigo, exige que estejamos sempre à espera de algo, seja um problema de travões ou de caixa. Por outro lado, gosto muito do Porsche. Dizem que é um carro difícil, mas já consegui vencer um rali à geral com ele (em Mesão Frio), o que muitos consideravam improvável. É um carro desafiante, exigente e que transmite uma sensação de modernidade comparado com o Mitsubishi.”

AutoSport: Quais são as principais diferenças de condução entre os dois?
Carlos Fernandes: “O Porsche exige muito mais respeito. É tração traseira, o que muda tudo nas zonas lentas, nas rápidas e no apoio. A gestão entre o travão e o acelerador é crucial. Tem dois pontos fortes excecionais: a velocidade de ponta em reta e a travagem. Já o Mitsubishi é um carro que permite “atirar” para dentro da curva e ele resolve a situação; é mais fiel e fácil, sendo tração integral. Contudo, é preciso ter cuidado com a frente.
No Norte, o meu navegador Valter usa o termo “soro” para quando o carro vem com o peso todo e empurra a frente em excesso; se a curva é para 100 km/h e entramos a 120 km/h, o peso do carro já não permite recuperar a trajetória.”

AutoSport: Toda a gente reconhece a tua rapidez, mas isso raramente se traduziu em oportunidades. Como lidas com esse reconhecimento ‘invisível’?
Carlos Fernandes: “Creio que quem ama verdadeiramente os ralis me conhece e respeita. Talvez não tenha tido a sorte de “cair em graça” perante quem decide os apoios, mas sinto que os meus adversários e equipas reconhecem o meu valor. Fica a mágoa de não ter tido a oportunidade certa, mas não fecho o capítulo, embora saiba que o tempo corre.”

AutoSport: Como é a tua vida profissional hoje e como tem evoluído a Wintech?
Carlos Fernandes: “Na Wintech, considero-me uma peça fundamental para potenciar os nossos pilotos através da minha experiência. Como já venci com carros de duas rodas motrizes, tento ajudá-los na afinação dos carros e na estratégia. A minha vida profissional sempre esteve ligada às corridas e à oficina.
A parceria com o Dr. Vítor Calisto veio potenciar a equipa, permitindo-nos evoluir e colocar os nossos pilotos num patamar superior. É gratificante ver o reconhecimento no parque de assistência sobre a evolução deles.
O meu papel é garantir que sejam o mais rápidos possível, com segurança, transmitindo-lhes os melhores conselhos técnicos.”

AutoSport: A equipa tem potencial para crescer mais?
Carlos Fernandes: “Não pretendo que a equipa cresça desmesuradamente. Não quero dar “um passo maior que a perna”. O meu objetivo é a qualidade: prefiro ter quatro ou cinco carros e garantir que todos recebem o mesmo tratamento de excelência, desde o piloto que luta pela vitória até ao que corre num clássico.
Quero que os nossos clientes tenham as melhores condições competitivas e o máximo conforto. Preparamos um clássico com o mesmo rigor que um carro de topo, porque é esse o nosso profissionalismo.”

AutoSport: O que ainda pretendes fazer nos ralis?
Carlos Fernandes: “Vou continuar a fazer o meu melhor enquanto os ralis me derem prazer e eu me sentir rápido.
O meu objetivo é sempre tentar ganhar com o material que tenho disponível, seja com os Cupra, com o Mitsubishi ou qualquer outro desafio. Já guiei quase tudo: duas rodas motrizes, quatro rodas motrizes e Porsche. Como diz o Paulo Homem, eu guio qualquer coisa.
Houve também aquela experiência com o Skoda Fabia S2000, nos açores, na prova do Europeu. Fomos com um carro desatualizado, um orçamento muito curto e sem seguro, mas o que conta é o desafio. O tempo acabará por escrever o resto…”

Tags: Carlos Fernandes
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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