Por Nuno Branco
Bruno Famin tem sido um dos principais orquestradores das grandes vitórias da Peugeot neste milénio. Sob a sua batuta, o “leão” desenvolveu um carro ganhador para Le Mans, triunfou em Pikes Peak, conquistou uma tripla vitória no Dakar e mostra agora a sua raça no WRX, a mais recente aposta da marca para prosseguir a tradição desportiva. Em Montalegre, por ocasião da etapa portuguesa do mundial de ralicross, Famin explicou-nos as razões que levaram a Peugeot a apostar no WRX, uma competição em franco crescimento onde atuam alguns dos maiores ídolos desta geração.
Que motivos levaram a Peugeot a escolher o WRX para dar continuidade ao seu envolvimento no desporto motorizado?
Quando a Peugeot decide um programa desportivo é porque tem algo de novo a dizer sobre os seus produtos. Quando apostou no Todo Terreno, queria promover o lançamento do seu novo SUV, inicialmente o 2008 e depois o 3008. Para isso, nada melhor do que participar no Dakar e no Silkway Rally, cujo percurso incluía a passagem pela China, um mercado com elevado potencial. No ano passado, a marca decidiu mudar agulhas para outra modalidade com o objetivo de promover a futura geração do 208 que irá incluir uma variante elétrica. O WRX pareceu-nos ser a solução adequada porque será oficialmente confirmado dentro de semanas que, a partir de 2020, os carros do WRX serão totalmente elétricos. Decidimos também apostar no WRX porque, apesar de ainda não ser uma modalidade tão conhecida como as outras que têm campeonato mundial, a verdade é que está a crescer rapidamente e tem a particularidade de ter um público mais jovem do que o das outras disciplinas. O WRX oferece-nos, assim, a possibilidade de comunicar uma nova geração de carros para uma nova geração de consumidores e isso resulta numa combinação perfeita.
Quer isso dizer que se trata de um programa a longo prazo?
Sim, o compromisso com a FIA é de ficar no WRX, no mínimo, quatro anos após a chegada dos carros elétricos, ou seja, pelo menos até 2023 a Peugeot irá estar presente.
O WRX já é interessante do ponto de vista mediático? Que dados tem acerca do retorno desta competição relativamente às outras disciplinas?
Pelo facto de ter um público mais jovem, o WRX é muito forte nas redes sociais e esse foi um dos fatores que pesou na nossa decisão. Infelizmente, o Ken Block não estará presente a tempo inteiro durante a temporada de 2018 mas posso dizer que Ken Block, Petter Solberg, Mattias Ekström e Sébastien Loeb têm, juntos, milhões de seguidores, muitos mais do que os pilotos do WRC.
Comparativamente a um carro do WRC, que desafios encerra o desenvolvimento de um carro do WRX?
Não há muitas diferenças. São carros semelhantes. Ambos têm quatro rodas motrizes e a transmissão, embora não seja a mesma, segue a mesma filosofia. A maior diferença está no motor. No WRX, os motores têm uma cilindrada de 2 litros, com mais 200 cavalos do que os do WRC e também têm mais torque.
Tivemos que reforçar a transmissão mas a necessidade de garantir a fiabilidade dos componentes é menor uma vez que as provas de ralicross são muito curtas. Durante o fim-de-semana, um carro do WRX percorre 45 a 50 quilómetros, o que equivale à extensão de um troço da Volta à Córsega!
O Budget necessário também será menor do que o das outras competições onde a Peugeot tem participado?
Sim, podemos dizer que o WRX tem um budget inferior ao das outras disciplinas.
Os engenheiros já começaram a trabalhar no motor elétrico que irá para as pistas em 2020?
Para já, estamos ainda à espera da oficialização por parte da FIA, que deverá acontecer nas próximas semanas. Depois, é preciso aguardar pelos novos regulamentos técnico e desportivo e só aí daremos início ao projeto.
O anúncio da entrada oficial da Peugeot no WRX foi feito há apenas seis meses. Em que estágio se encontra o desenvolvimento do carro que neste momento compete no campeonato do mundo?
Há ainda muito trabalho para o melhorar em todos os aspetos. O tempo foi muito apertado e o 208 WRX que iniciou este campeonato é praticamente o mesmo que fez a temporada anterior já que todos os desenvolvimentos estão ainda a ser ultimados na fábrica. Neste momento ainda não podemos comparar o desenvolvimento do nosso carro com o da Volkswagen, que aproveitou muito do que havia sido desenvolvido para o Polo WRC e teve a oportunidade de evoluir o motor em provas de ralicross nos Estados Unidos. Da nossa parte, temos que evoluir o chassis, o motor, a suspensão e um conjunto de pequenos detalhes que podem ser cruciais para o sucesso.
As diferenças de andamento são tão pequenas e é tão importante estar à frente na primeira curva que é preciso ser perfeito em todos os aspetos. Espero que, a meio da temporada, possamos estar em condições de lutar de igual para igual com os nossos adversários.
Como avalia a evolução de Sébastien Loeb na modalidade?
O Sébastien é muito rápido em tudo o que conduz. Está a evoluir na sua aprendizagem e o seu grande desafio é continuar a ganhar experiência a correr em simultâneo com os seus adversários na pista e a escolher as melhores linhas em cada curva.
Estará ele entusiasmado com o facto de vir a pilotar um carro elétrico?
Daquilo que conheço do Loeb, ele tem entusiasmo em conduzir tudo!
Conta com ele para a nova aventura elétrica?
Claro que sim. Quando se tem um piloto como o Loeb na equipa, tem que se contar com ele.
Vai ter saudades do Dakar? Pessoalmente, que lições retirou da participação na prova sul-americana?
Não vou ter saudades do Dakar mas estou muito satisfeito com os resultados que alcançámos. Vencer na segunda edição em que participámos e obter três triunfos consecutivos é simplesmente extraordinário e resultou de um trabalho incrível de todos. Gerir uma equipa numa prova como o Dakar, algures em locais inóspitos, é um enorme desafio porque antes da vitória temos um objetivo ainda mais importante: garantir que toda a gente regressa a casa. Mostrámos o que éramos capazes de fazer e decidimos que era altura de mudar…
Grande parte desta equipa que o acompanha já passou pelos ralis, pela resistência, andou pelo Dakar e agora está no ralicross. Como se faz a mudança de mentalidades para garantir a adaptação ao novo desafio?
Eles estão acostumados à mudança. Quando regressei à Peugeot Sport em 2004, estávamos no WRC, depois treinámo-los para a resistência, preparámos-los para o Dakar e agora estamos no WRX. Cada disciplina tem as suas especificidades. No WRC temos 40 minutos para reparar o carro, nas corridas de resistências, as intervenções são feitas durante a corrida. No Dakar, trabalha-se durante a madrugada no Bivouac e aqui no WRX, temos 5 minutos entre a semifinal e a final e, caso surja um problema, o objetivo não é repará-lo porque não há tempo para isso. A prioridade é simplesmente levar o carro para a grelha de partida para que possa participar e amealhar alguns pontos. Temos que adaptar a mentalidade a cada situação mas a equipa está habituada a essas mudanças…










