Poucas vezes vivi sensações tão arrepiantes e contraditórias como nesta 84ª edição das 24 Horas de Le Mans. A acompanhar o desfecho da corrida no ‘Media Lounge’ do eventual vencedor, foi-me impossível não sentir alguma comiseração pela Toyota – ela que há 18 participações (ironia do destino, o número de triunfos, e de pole-positions, celebradas pela Porsche), repartidas por cerca de 30 anos, procura incansavelmente a sua primeira vitória na clássica francesa.
Esteve a três minutos (!) de consegui-lo, e de igualar o feito alcançado pela Mazda há precisamente 25 anos, sendo que o construtor sediado em Hiroshima é desde então o único fabricante nipónico a obter uma vitória à geral na prova. Mas a sorte, madrasta, não quis nada com ela, como em tantas outras vezes em que a glória esfumou-se-lhe das mãos.
As lágrimas de Hugues de Chaunac, responsável pela Oreca e parceiro da Toyota, espelham bem a imprevisibilidade do desporto motorizado, contrastando com o semblante carregado, mas contido, dos técnicos japoneses, que, por uma questão cultural, e avisados pelo passado, nunca entraram em euforias – precisamente o contrário do que se viveu na garagem do Porsche 919 Hybrid, assim que Dumas e Lieb se aperceberam do melhor presente do seu percurso desportivo.
Mesmo que o seu carro também seja um justo vencedor pelas provações sofridas (dois furos, um bom exemplo), continuo com a sensação de que, desta vez, a ‘justiça poética’ fez-se com o poema errado…
André Bettencourt Rodrigues












