É muito rica a memória dos últimos 40 anos do Desporto Automóvel, diretamente ligada à evolução vertiginosa da tecnologia aplicada às quatro rodas, na qual a competição teve, tem e terá sempre, um papel absolutamente fundamental. Muitos foram os acontecimentos que me marcaram nestes últimos 40
anos, precisamente desde que, por ter cumprido 18 anos, comecei a acompanhar de forma mais completa tudo o que se ligava ao desporto automóvel, antes de entrar para o jornalismo, já nos anos 80, primeiro no Motor, depois no AutoSport, passando pelo Volante e acabando no… AutoSport.
Regressando 40 anos atrás, a 1977, três anos depois da nossa revolução, diga-se que este foi um ano em que, em termos de automobilismo desportivo, houve alguns acontecimentos que marcaram o mundo motorizado, tendo depois natural sequência nos anos seguintes; Falo por exemplo do início da era Turbo na Fórmula 1, através do aparecimento do Renault RS01, ou do lançamento de um dos mais fantásticos modelos de ralis de sempre, o Ford Escort RS 1800. Falando de Fórmula 1, nunca me sairá da memória o facto do meu piloto preferido na altura – Jody Scheckter – ter conseguido ganhar o GP de abertura da temporada (Argentina) com um carro completamente novo, projetado por um certo Harvey Postlethwaite, ganhando ainda nesse ano o Mónaco – grande luta com John Watson – e o Canadá…
Se 1977 foi marcante para quem gosta de desporto automóvel e principalmente de ralis, que dizer de 1980, altura em que foi lançado no Salão de Genebra o Audi Quattro – que viria a revolucionar os ralis, lançando a tração total no mundo automóvel, agora “banalizada” em todos os construtores, mas uma verdadeira revolução para a época. Em 1981 fui um dos que estive em Jarama e assisti em direto à fabulosa corrida de Gilles Villeneuve, com a vitória final à frente de um “comboio” de grandes pilotos – Laffite, Watson, Reutemann e De Angelis. Entre primeiro e 5º… 1,24s! O meu interesse pela F1 perdeu-se quase totalmente anos depois. Com a morte do piloto canadiano na Bélgica a 8 de maio do ano seguinte – não sem antes assistir àquela luta pelo 2º lugar no GP de França de 1979 (Dijon) sem dúvida um dos momentos mais altos da F1 de todo o sempre – só voltei a seguir esta disciplina com algum interesse durante as épocas de Ayrton Senna e, depois, no ano em que o mago Ross Brawn comprou os Honda “de ocasião” e ganhou, com Jenson Button e Rubens Barrichelo, tudo o que havia para ganhar, saindo vitorioso no Campeonato de Construtores e Pilotos, à frente de Ferrari, Mclaren, Williams…
Em 1984, a F1 regressou a Portugal e com uma equipa de grandes profissionais tive o prazer de organizar o Gabinete de Imprensa da prova, já nos anos 90, mas ainda deu tempo para assistir à fantástica primeira vitória de Ayrton Senna, com o Lotus, à chuva, em 1985, tendo começado a acompanhar os ralis
nacionais e mundiais no ano seguinte, no semanário Motor. Ralis que foram igualmente marcantes na minha vida e nos últimos 40 anos, através de um acompanhamento completo do Mundial, durante cerca de 12 anos – de 1987 a 1998 como jornalista e depois como responsável do Gabinete de imprensa do Rali de Portugal, de 1999 a 2008.
Duas experiências diferentes que me permitiram acompanhar as carreiras de grandes pilotos e privar com grandes equipas; Marcante a carreira de Rui Madeira e Nuno Rodrigues da Silva, o aparecimento de Carlos Sainz e Luis Moya e a reação dos nórdicos, como Juha Kankkunen e Tommi Mäkinen. Marcante ainda o aparecimento dos japoneses – Mitsubishi, Mazda, Toyota e Subaru – a lutar contra a super poderosa Lancia e a Ford, mas marcante também sobretudo pela fantástica festa permanente do Rali de Portugal, que perderia – perderia todo o desporto automóvel português – o seu grande mentor, César Torres, em novembro de 1997. Pelo meio e para o país, foi de extrema importância o advento do Todo o Terreno, cujo grande líder seria José Megre e a prova mais marcante seria – e é ainda – a Baja 500 Portalegre – José Megre deixou-nos em 2009 – e ainda a conversão da CDN – Comissão Desportiva Nacional – em FPAK, num processo começado em 1994 e concluído em 2011 com o reconhecimento oficial da estrutura que gere o desporto automóvel em termos nacionais. Em termos de desporto a nível global, para além dos acontecimentos já referenciados, acho que houve uma série de acontecimentos que me marcaram mais profundamente e que passo a enumerar mais resumidamente – temos sempre pouco espaço… – com especial foco no desporto automóvel nacional: Começaria pela criação da Diabolique e pelos resultados conseguidos por esta equipa e pela sua principal dupla, Joaquim Santos/ Miguel Oliveira, pelas passagens `tituladas’ de Rui Madeira / Nuno Silva e Armindo Araújo/ Miguel Ramalho no WRC, as incursões de Pedro Matos Chaves, Pedro Lamy e Tiago Monteiro na F1 – o primeiro a ser bem sucedido em muitas outras categorias, o segundo a dar cartas nalgumas provas de Sport e o último a conseguir um pódio na F1 e a marcar presença destacada no WTCC – as vitórias de João Barbosa nas 24 Horas de Daytona, a carreira fantástica de Filipe Albuquerque, que foi Campeão dos Campeões em 2010 batendo Vettel e Loeb…
Ainda um destaque pela negativa para o desaparecimento já referido de César Torres, que deixou órfão o nosso automobilismo e para alguns dos nossos pilotos de Todo o Terreno, com menção especial para Carlos Sousa e para Filipe Campos, este último autor e vencedor da melhor prova de TT nacional que vi
até hoje, os 500 Km de Portalegre de 2011. Nos ralis mundiais, a chegada de Loeb e depois de Ogier tem marcado uma disciplina, cada vez mais veloz, segura e interessante, com muito apoio das marcas. Porque muitas referências hão-de faltar… quero fazer uma última que há muito marca o nosso automobilismo desportivo: espero que concordem que o aparecimento e a resistência que o AutoSport revela desde a sua fundação até aos nossos dias o transformaram num dos pilares de qualidade deste desporto, que nos une e que todas as semanas descobrimos e confirmamos nestas páginas.










