Campeonato Europeu FIA de Montanha – a questão da segurança
Tem lugar este fim de semana a Rampa da Falperra que integra o calendário do Campeonato Europeu FIA de Montanha e conta igualmente para o Campeonato Nacional de Montanha.
Esta terceira ronda do Europeu precede duas provas em que a segurança foi um capítulo que esteve na ordem do dia: Saint-Jean-du-Gard, França, e Rechberg, Áustria. Na primeiro caso, o AutoSport o esteve a acompanhar a estreia em competição da equipa portuguesa J. Correia/LXS, com os pilotos Ricardo Gomes e José Correia, na altura, a apontaram algumas diferenças ao nível da segurança entre o evento francês e o nacional, ambos provas FIA.
Recordando as palavras de Ricardo Gomes: “O que noto aqui (ndr. em França), essencialmente,é a falta de rails de proteção ao longo do percurso. Há partes em que nem sequer existem rails de proteção, não conseguimos verificar um rail duplo, não parece que exista, e rails triplos estão completamente fora de hipótese”.
A par disto, o piloto acrescentou ainda que “há zonas com rails pousados no chão que quase funcionam como rampas para os carros levantarem caso entrem ali, enquanto em Portugal, no Campeonato Nacional de Montanha, de forma genérica, as provas têm bastante mais segurança do que esta em que participámos. Para nós, enquanto pilotos, a Rampa Internacional da Falperra representa todas as condições de segurança, em França via-se público nas bermas da estrada e uma havia uma reduzida utilização de rails”, finalizou o piloto.
Na segunda ronda do ano, em Rechberg, Áustria, registou-se, na sequência de um acidente, o falecimento de Otakar Kramsky, durante os treinos, com o piloto a sair de pista numa zona em que é possível verificar-se (ver vídeo acima) a não existência de rails de proteção, ou algo que pudesse, talvez, evitar o fatídico desfecho.
Rampa da Falperra – a segurança passiva a ativa
Como diz o ditado, ‘há terceira é de vez’, e esperemos que em solo luso, novamente, a prova corra dentro da normalidade, sem incidentes, e que para recordações, fiquem apenas as memórias de um belo fim de semana passado a norte do país.
Mas neste contexto, e numa altura em que muito se discute a segurança, também pelo facto de o Vodafone Rali de Portugal estar à porta, o AutoSport esteve à conversa com António Barbosa Ferreira, do Clube Automóvel do Minho, clube organizador da prova minhota, sobre quais os investimentos feitos ao nível da segurança na Rampa da Falperra, assim como a relação entre a FIA e os clubes organizadores.
Para António Barbosa Ferreira, “a Rampa da Falperra, desde que retomamos a sua realização em 2009, tem sofrido, ano após ano, incrementos de segurança passiva e ativa. Quando falamos em segurança passiva, referimo-nos a tudo aquilo que é implantado na pista, como pneus e, essencialmente, vedações, de que a FIA faz os registos, e bem. Depois, anualmente e por iniciativa própria, também vamos observando pontos que podem e devem ser melhorados porque os carros cada vez são mais rápidos e de facto a segurança é algo que nunca tem fim, há sempre algo que se pode melhorar. Nós temos consciência disso e vamos também ouvindo a opinião dos observadores da FIA e cruzando-as com as nossas”.
“No ano passado metemos vários níveis de rails em várias zonas e aumentou-se as zonas de vedação do público. Para este ano os observadores da FIA não nos apontaram aspetos de aumento de colocação de rails, apenas zonas onde devia ser aumentada a vedação ao público, ou seja, porque de facto o público cada vez é mais e convém que ele esteja em segurança. De facto, este ano a principal foco do aumento de segurança na Rampa da Falperra tem a ver com vedação com rede metálica de algumas zonas que são consideradas mais perigosas na aproximação do público à estrada e posso dizer que se regista um incremento de rede com mais de três quilómetros, ao longo do percurso”, explicou.
“A par disto, nós, sempre em colaboração com a Câmara Municipal de Braga, e também conscientes de que também de facto é preciso ir aumentando a segurança, colocámos cerca de mais 100 metros de rails na zona mais rápida que é um local onde os carros chegam a atingir velocidades na casa dos 230/240 km/h”, salientou.
Por outro lado, “em termos de segurança ativa, ou seja, meios humanos, que são colocados ao longo da pista, vamos aumentar em perto de 100 elementos que não vão ter funções específicas e sim um papel de alertar e sensibilizar as pessoas no local. Serão cerca de 130 a 140 pessoas da nossa organização distribuídas ao longo de todo percurso, isto sem contar com os comissários de pista e elementos policiais que ai vamos ter”.
O papel da FIA
Já em relação à posição da FIA perante as organizações das provas do Europeu, António Barbosa Ferreira explica que “a posição da FIA tem sido de aconselhamento, porém, quando não respeitamos essas indicações coloca-se a hipótese de a prova não se realizar no ano seguinte, é um aconselhamento ‘imposto’.
Naturalmente que se vemos que as coisas não são exigidas de igual maneira em todas as provas naturalmente achámos que isso é mau e de facto também tive o feedback da prova de Saint-Jean-du-Gard. Eu sou Comissário Desportivo Internacional, faço outras provas do Campeonato Europeu de Montanha e sei o que acontece e, de facto, há aqui alguma duplicidade de critérios e exigências com que temos de uma vez por todas de acabar. Nós não estamos a dizer que não queremos fazer segurança, nós queremos fazer essa segurança, e se possível aumentá-la, agora achamos é que deve ser equitativa. Para bem da segurança de todos, da imagem do desporto automóvel, da segurança do público e dos pilotos, essas exigências têm que ser feitas a toda a gente.
Nós subescrevemos e estamos de acordo com as exigências da FIA, estamos a trabalhar para elevar o nível de segurança da prova, estamos a trabalhar para que haja competição com segurança e aí estamos de acordo, agora também dizemos claramente que isso tem que ser exigido a todas as provas, nomeadamente às provas do mesmo campeonato”, finalizou.
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