Shadow (1973-1980): Uma sombra que passou pela F1

Por a 24 Fevereiro 2023 10:12

Um fundador misterioso, dois pilotos mortos, uma única vitória no palmarés e um comprador ainda mais misterioso: esta a radiografia breve da Shadow, que fez jus ao nome na F1

A Shadow foi fundada em 1968 por Don Nicholson, um personagem misterioso, quase sinistro, ligado à CIA nos anos 50 e a assuntos mal esclarecidos no Médio Oriente e que, na década seguinte, arranjou negócios variados no Japão, onde foi mesmo concessionário da Firestone e da Goodyear, ao mesmo tempo que desenhava pistas de competição.

Baseada na Califórnia, a empresa chamava-se Advanced Vehicle Systems e Nicholson convenceu Trevor Harris a desenhar os carros de corrida, a que deu o nome de Shadow (vá lá saber-se porquê…o símbolo da equipa era um homem camuflado!). O primeiro, o Mk I, entrou na CanAm, com George Follmer e Vic Elford ao volante e era algo inovador, com asas muito pequenas, o que lhe dava pouco arrasto aerodinâmico e o tornava muito rápido. Porém, a fiabilidade era um problema que Nicholson resolveu despedindo Harris e substituindo-o por Peter Bryant, em 1972. O Mk III era um carro que tinha elementos em titânio e foi mais competitivo. Nesse ano, chegou à equipa Jackie Oliver, que tinha alguma experiência de F1 e se tornou numa peça chave da Shadow. Com o Mk III, terminou em 8º na Can Am e, com a conta cheia do dinheiro da UOP (Universal Oil Products), Nicholson começou a fazer planos para ir para a F1, logo em 1973.

Para isso, contratou Tony Southgate, que estava na BRM e que desenhou o DN1 e foi buscar ainda Alan Rees, outro ex-piloto de F1, para liderar a equipa no terreno. Como pilotos, aproveitou a experiência de Oliver – que, aos 31 anos, ainda era um jovem – e desviou Follmer da Can Am. Além disso, numa jogada de ‘marketing’ que acabou por não dar grandes resultados, vendeu um terceiro chassis a Graham Hill, para o colocar a correr sob as cores da sua Embassy.

Southgate construiu o protótipo do DN1 na pequena garagem da sua moradia , em Weedom, no Lincolnshire, bem perto da sede da BRM. O DN1 foi para a pista sem ser desenvolvido mas, quando Follmer acabou em 6º a sua primeira prova, em Kyalami e em 3º a segunda, em Espanha, as coisas ficaram por ali. O carro era competitivo e pronto!

Nessa altura, Oliver estava a conduzir um DN2 ao mesmo tempo na Cam Am, que dominou em 1974, sendo campeão na frente de Follmer, num ano em que teve principalmente a oposição de privados, pois a Mclaren e a Porsche tinham-se ido embora. Infelizmente, na F1 as coisas não estavam a correr tão bem: logo no início da temporada, morreu o seu primeiro piloto, Peter Revson. A equipa levou tempo a recuperar do choque e, do resto, reza a História noutro local destas páginas.

GP da Áustria 1977: Vitória única

14 de agosto de 1977: o único dia que brilhou no firmamento obscuro da Shadow. Nesse dia, Alan Jones ofereceu à equipa a sua única vitória no Campeonato do Mundo de F1. Foi na 12ª prova dessa temporada, que estava a ser dominada por Niki Lauda, num Ferrari. Em ‘casa’, bateu o seu rival James Hunt na primeira luta, pela ‘pole’ e aproveitou bem isso para saltar para o comando na largada. Mas a pista estava molhada, traiçoeira e, logo na segunda curva, o ‘herói local’ foi passado pelo Lotus de Andretti e, pouco depois, pelo de Nilsson. Quando este parou para trocar de pneus, deixou o segundo lugar para Hunt, que se viu no comando quando, pouco depois, falhou o motor do carro de Andretti. Nessa altura, já Alan Jones, com o Shadow, estava ao ataque, passando sucessivamente Scheckter, Stuck, Nilsson e Lauda, até ficar atrás do líder, Hunt. E quando, a dez voltas do final, o motor do seu McLaren falhou, Jones herdou o comando, dando à Shadow a sua única vitória no Mundial. O pódio ficou completo por Lauda e Stuck, 2º e 3º respetivamente.

O fim anunciado

Quando, no final de 1977, Alan Jones saiu da equipa, assinando com a Williams e provocado a debandada da maior parte do ‘staff’ técnico e do principal patrocinador, Franco Ambrosio, que acabaram por formar a Arrows, em 1978 – que foi buscar à Shadow o talentoso Riccardo Patrese e fizeram essa temporada com uma cópia fiel do DN8 – foi selado o fim prematuro da casa de Northampton. Em 1978, a Shadow, apesar de ter contratado os experientes Clay Regazzoni e Hans Stuck e ter conseguido o dinheiro dos tabacos Villiger, não conseguiu mais que três 5º lugares. O caminho descendente inclinou-se ainda mais e o DN9, em 1979, não inverteu a tendência. Para piorar as coisas, o primeiro chassis com efeito de solo da Shadow, o DN11, começado a desenhar por John Gentry – que entretanto abandonou o projeto e a equipa – e terminado por Richard Owen e Vic Morris, foi um fracasso, apenas se qualificando numa corrida em 1980. Em desespero de causa, Morris e Chuck Graeminger fizerem o DN12, que não foi melhor e apenas foi visto em três GP. Então, farto, Nicholson decidiu encerrar a equipa logo a seguir ao GP de França, vendendo todo o material a Teddy Yip, que transformou os DN12 em Theodore TY01em 1981.

ANO A ANO

1973 – Ano de estreia, com dois pilotos fixos: Jackie Oliver e George Follmer. O primeiro GP foi o terceiro da temporada, na África do Sul. Os dois pilotos fizeram a temporada até final, 13 GP. Os melhores resultados foram duas subidas ao 3º lugar do pódio – em Espanha (Follmer) e no Canadá (Oliver). Na última prova (Estados Unidos), Brian Redman não conseguiu qualificar-se para a corrida. Chassis/Motor: DN1/Ford Cosworth 3.5 V8 DFV. Campeonato: 9º, com 8 pontos.

1974 – O único piloto sob contrato para toda a temporada foi Jean-Pierre Jarier, que não alinhou no GP da África do Sul, depois da equipa perder Peter Revson, num acidente em testes privados, em Kyalami, dias antes. Para o substituir, a Shadow foi buscar o seu conhecido Redman, que fez três provas (Espanha, Bélgica e Mónaco), antes de dar lugar ao local (bem) pagante Bertil Roos… na Suécia. Depois e até final do ano, o DN3 com o nº 16 foi ocupado por Tom Pryce. Nas três primeiras provas, a Shadow usou o DN1 e, a partir da quarta, o DN3. O melhor resultado foi o 3º lugar de Jarier no Mónaco. Chassis/Motor: DN1 e DN3/Ford Cosworth 3.5 V8 DFV. Campeonato: 7º, com 8 pontos.

1975 – Tom Pryce e Jean-Pierre Jarier foram os pilotos de serviço, ao volante do DN3 (duas primeiras provas) e do DN5, que lhe sucedeu. A fiabilidade não foi o seu forte mas, mesmo assim, Pryce terminou nos pontos em cinco das sete corridas que terminou, uma delas no pódio (3º lugar na Áustria), acabando o Mundial em 10º lugar, com 8 pontos. Por seu lado, Jarier foi mais irregular, pontuando somente uma vez e, em duas provas (Áustria e Itália) pilotou o DN7/Matra V12, que apenas fez essas duas corridas na sua vida e tinha a peculiaridade de ter um motor V12, na tentativa de trazer para a F1 a Matra que, logo de seguida, decidiu equipar a Ligier em 1976. Com dois abandonos, a Shadow nunca mais utilizou o DN7. Em Brands Hatch, Pryce venceu a Corrida dos Campeões, depois de fazer a ‘pole’, mas a prova não contava para o Mundial de F1. Chassis/Motor: DN3 e DN5/Ford Cosworth 3.5 V8 DFV e DN/Matra V12. Campeonato: 6º com 9,5 pontos.

1976 – De novo com Pryce e Jarier, desta feita a Shadow resolveu a maioria dos problemas e quebras mecânicas que a apoquentaram no ano anterior, terminando quase todas as corridas. Porém, o DN5B não era mais que uma evolução do DN5 e o DN8, que se lhe seguiu a partir da Holanda, sendo pilotado somente por Pryce, foi apenas ligeiramente mais competitivo. Pryce foi de novo o melhor piloto, tendo sido 3º na primeira prova, em Kyalami. Jarier conduziu sempre o DN5B. Chassis/Motor: DN5B e DN8/Ford Cosworth 3.5 V8 DFV. Campeonato: 10º, com 8 pontos.

1977 – Novo ‘annus horribilis’ para a Shadow, que perdeu o seu segundo piloto num acidente e de novo em Kyalami: Tom Pryce, que foi decapitado de forma bizarra, durante a prova, em que atropelou um bombeiro, que socorria o outro Shadow, de Renzo Zorzi. Apesar disso e com Alan jones, que foi o único piloto a cumprir toda a temporada, depois de substituir Zorzi, nos Estados Unidos-Oeste, a oferecer mesmo a primeira vitória (e única) em GP à Shadow, na Áustria. Foram vários os pilotos ocupar o lugar eixado vago pelo infeliz Pryce (Oliver, Merzario, Jarier…), mas o jovem Riccardo Patrese foi quem mais provas fez – nove, tendo sido 6º na última, o GP do Japão. A equipa correu quase sempre com o DN8, excetuando na Argentina (DN5B, Zorzi) e no Brasil (Pryce e Zorzi, DM5B). Este foi o ano em que mais pontos teve no Mundial de F1. Chassis/Motor: DN5B e FDN8/Ford Cosworth 3.5 V8 DFV. Campeonato: 7º, 23 pontos.

1978 – O DN8 fez apenas as quatro primeiras provas, sendo substituído pelo DN9. Foi uma época calma, mas pouco produtiva, pois foram poucas as vezes em que os dois pilotos de serviço (Hans-Joachim Stuck e o veterano Clay Regazzoni, já com 39 anos) chegaram ao fim de um GP. Terminaram por três vezes nos pontos – e sempre no 5º lugar (duas para ‘Rega’ e uma para Stuck). Apesar de mais pontuado, o suíço falhou por cinco vezes a qualificação, contra uma do alemão. Chassis: DN8 e DN9/Ford Cosworth 3.5 V8 DFV. Campeonato: 11º, 6 pontos.

1979 – O princípio do fim. Já com pouco dinheiro, a Shadow renovou a sua dupla de pilotos, apostando em valores mais novos – Jan Lammers e Elio de Angelis. Manteve, no entanto, o DN9 como chassis, sem dinheiro para desenvolver outro projeto. Lammers falhou a qualificação no Mónaco (tal como De Angelis) e de novo em Itália e nos Estados Unidos, nunca pontuou e o ano foi mais ou menos salvo com o 4º lugar de De Angelis, precisamente em Watkins Glen, palco do encerramento da temporada. Chassis/Motor: DN9/Ford Cosworth 3.5 V8 DFV. Campeonato: 10º, 3 pontos.

1980 – O ano do final anunciado. A equipa até usou dois novos chassis, o DN11 e o DN12, mas apenas uma vez se conseguiu qualificar para um GP: em Kyalami, com Geoff Lees, que terminou em 13º lugar. Lees tinha tomado o lugar de Stefan Johansson, que falhou a qualificação para os dois primeiros GP, em que teve como colega de equipa David Kennedy. A Shadow encerrou portas depois do GP de França, sendo absorvida pela Theodore. (ver Caixa). Chassis/Motor: DN11 e DN12/Ford Coswrth 3.5 V8 DFV. Campeonato: não pontuou.

OS PILOTOS DA SHADOW

De Angelis, Elio (I, 26/03/1958 – 15/05/1986) – 15 GP (1979). 1 NQ. 3 pontos

Follmer, George (US, 27/01/1934) – 13 GP, 1 NP (1973); 1 pódio (3º, GP Espanha 1973); 5 pontos

Jarier, Jean-Pierre (F, 10/07/1946) – 44 GP (1974 a 1977). 1 pódio (3º, GP Mónaco 1974). 9 pontos

Johansson, Stefan (S, 08/09/1956) – 2 GP (1980). 2 NQ

Jones, Alan (AUS, 02/11/1946) – 14 GP (1977). 1 vitória (GP Áustria). 2 pódios (1º, GP Áustria e 3º, GP Itália). 22 pontos

Kennedy, David (IE, 15/01/1953) – 7 GP (1980). 7 NQ

Lammers, Jan (NL, 02/06/1956) – 15 GP (1979). 3 NQ. Não pontuou

Lees, Geoff (GB, 01/05/1951) – 5 GP (1980). 4 NQ

Merzario, Arturo (I, 11/03/1943) – 1 GP (1977). Não pontuou

Oliver, Jackie (GB, 14/08/1942) – 14 GP (1973/1977); 1 pódio (3º, GP Canadá 1973); 4 pontos

Patrese, Riccardo (I, 17/04/1954) – 9 GP (1977). 1 ponto

Pryce, Tom (GB, 11/06/1949 – 05/03/1977) – 41 GP (1974 a 1977). 2 pódios (3º GP Áustria 1975 e GP Brasil 1976). 20 pontos

Redman, Brian (GB, 09/03/1937) – 4 GP, 1 NQ. (1973/1974). Não pontuou

Regazzoni, Clay (CH, 05/09/1939 – 15/12/2006) – 16 GP (1978). 5 NQ. 4 pontos

Revson, Peter (US, 27/02/1939 – 22/03/1974) – 2 GP (1974). Não pontuou

Roos, Bertil (S, 12/10/1943) – 1 GP (1974). Não pontuou

Stuck, Hans-Joachim (D, 01/01/1951) – 15 GP (1978). 1 NQ. 2 pontos

Zorzi, Renzo (I, 12/12/1946) – 5 GP (1977). 1 ponto

PALMARÉS

Nome: Shadow Racing Cars

Morada: Northampton, UK

Fundador: Don Nicholson

Diretores: Jackie Oliver, Alan Rees; Jo Ramirez

F1: 03/03/1973-29/06/1980

GP F1: 112

1º GP F1: GP África do Sul 1973

Último GP F1: GP França 1980

Vitórias: 1 (GP Áustria 1977, Alan Jones)

‘Pole positions’: 3

Melhores voltas em corrida: 2

Pódios: 7

Pontos: 67,5

Melhor classificação CM Pilotos: 7º, 22 pontos (1977, Jones)

Melhor classificação CM Construtores: 6º, 9,5 pontos (1975)

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3 comentários

  1. Luís Sampaio Howell

    24 Fevereiro, 2023 at 14:53

    Don Nichols era o nome, um homem misterioso mas longe de ser sinistro. Fã de banda desenhada o seu herói preferido era “O Sombra”, “The Shadow” no original e o símbolo da equipa não mera um homem de camuflado mas a silhueta da tal personagem de BD com a sua capa. Ver e aprender em https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Sombra.
    Não houve nenhuma jogada de marketing entre Nichols e Hill. Graham Hill, em final de linha, tinha saído da Brabham e contava ser cliente da MRD, mas com a Bernie à frente da Brabham e a saída de Tauranac a coisa não se deu. Hill adquiriu o chassis que conseguiu para fazer uma época que, para si, só começou em Kyalami, quando houve carro…
    A Shadow não teve só uma vitória na fórmula 1, Pryce venceu uma corrida extra-campeonato em 1975, a Race o f Champions em Brands Hatch.
    E, Santo Deus, Pryce não foi decapitado (isso foi o Koinnig), Pryce foi degolado pela fivela do capacete (foi a partir deste incidente que surgiram capacetes que apertavam sem fivela), o que não terá feito diferença pois foi morto pelo impacto do extintor.
    Naquilo que poderia ter sido um texto muito interessante vemos algo pouco cuidado em que nem o nome do fundador saiu certo.

    • Danny Ric Fan Club

      24 Fevereiro, 2023 at 15:28

      Para não falar do português intragável, com uma construção das frases confusa e inúmeros erros de sintaxe. O autor conseguiu arruinar um artigo interessante.

      • Luís Sampaio Howell

        25 Fevereiro, 2023 at 1:21

        Nem me dei ao trabalho de assinalar tudo, então os DFV de 3 litros e meio é para rir. Bom, houve aquele caso do Brambilla sublimado por Jean Graton no “Príncipe Branco” (lá voltamos à BD) mas isso não foi oficial…

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