Pilotos divididos sobre novo conceito de monolugares de Fórmula 1
Carros continuam “divertidos”, mas desafio mudou e gera dúvidas sobre futuro…
O novo regulamento técnico da Fórmula 1, que estreou este ano com monolugares profundamente diferentes em termos de motor, carga aerodinâmica e gestão de energia, está a ser recebido com sensações mistas pelos pilotos. Na conferência de imprensa, Pierre Gasly, Esteban Ocon e Fernando Alonso reconheceram que os carros continuam a ser excitantes de guiar, mas sublinharam que o tipo de desafio mudou e que haverá ajustes a fazer para preservar o ADN da categoria.
Pierre Gasly resumiu o sentimento geral: por um lado, continua a haver prazer em conduzir o que descreve como “os carros mais rápidos do mundo”; por outro, o francês defende que é preciso tempo e diálogo para afinar o conceito e garantir que a Fórmula 1 continua justa e centrada no talento.
Gasly: diversão garantida, mas é preciso “trabalhar” os carros
Gasly começou por frisar que, sempre que entra no cockpit, o prazer de pilotar está assegurado, mesmo com a mudança radical face ao ano passado. Para o francês, a comparação com 2023 e 2024 é inevitável, mas não suficiente para um juízo definitivo depois de apenas uma prova.
“No fim do dia continuamos a conduzir os carros mais rápidos do mundo, por isso, assim que me sento no cockpit vou divertir‑me sempre”, afirmou. “Viemos dos carros mais rápidos do mundo no ano passado para algo muito diferente, motor muito diferente, carga muito diferente. É sempre outro tipo de sensação.”
O piloto admite que há aspetos que gostava de ver alterados, mas recusa conclusões precipitadas. Defende que é preciso acumular alguns Grandes Prémios antes de abrir uma discussão estruturada com a Fórmula 1 sobre eventuais correções ao regulamento.
“Posso dizer que gosto de os conduzir? Sim. Há coisas que mudaria? Sim, definitivamente. Mas não consigo dar um feedback justo e objetivo depois de um fim de semana apenas”, sublinhou, apontando para a necessidade de encontrar um equilíbrio entre o espetáculo televisivo e o desafio ao volante. “Se perguntar a quem esteve no sofá e viu 120 ultrapassagens no domingo, provavelmente tem uma opinião diferente. Temos de agradar a todos e há um meio termo a encontrar.”
Gasly insiste ainda numa ideia central: que a Fórmula 1 continue a premiar o risco, a habilidade e a coragem do piloto, e não apenas a gestão de sistemas ou situações em que quem arrisca menos acaba por ganhar tempo.
“Queremos uma Fórmula 1 justa. Queremos carros competitivos, que permitam à maior parte do pelotão lutar por vitórias e pódios, e algo que recompense o talento e o risco, em vez de dar vantagem a quem levanta o pé em certas situações e até ganha com isso. Isso não é ADN da F1”, concluiu, defendendo que os carros “são divertidos, mas podem ser ainda mais” e que é com esse objetivo que pilotos e organização devem trabalhar.
Ocon: comportamento “mais previsível” lembra 2016, mas falta margem para o estilo de condução
Esteban Ocon colocou o foco na forma como o carro se comporta em curva. Para o francês, esse é um dos pontos positivos do novo conceito, que o remete para as melhores máquinas de meados da década passada.
“O lado positivo é como o carro se sente nas curvas. Está muito mais próximo do que eram os bons carros em 2016, os carros de topo”, explicou. “A forma como deslizas, como podes atacar as curvas, é muito mais previsível e muito mais agradável em termos de equilíbrio e também de forma como o carro ‘copia’ o asfalto.”
Na perspetiva de Ocon, isso representa um claro passo em frente em relação a 2025, tanto em qualificação como em corrida, onde nota mais ação em pista e mais lutas roda‑com‑roda, ainda que por vezes caóticas: “Na corrida houve mais ação, mais ultrapassagens, mais luta ao longo da prova, o que é positivo”, disse. “Mas não é algo simples no carro. E a parte negativa é que o piloto ainda não consegue fazer diferença suficiente com o estilo de condução para montar ‘jogadas de xadrez’.”
O francês acredita, no entanto, que a situação pode evoluir com o tempo, à medida que as equipas compreendem melhor o comportamento dos novos monolugares.
“Acho que isso vai melhorar ao longo do ano. Se melhorar, deverá ser muito mais agradável para nós também”, concluiu, apontando para uma curva de aprendizagem que ainda está no início.
Alonso: “É um desafio diferente – continuo a divertir‑me, mas preferia o anterior”
Fernando Alonso trouxe uma perspetiva mais histórica e comparativa, separando claramente duas questões: o prazer intrínseco de guiar e o tipo de desafio que os novos carros colocam ao piloto. O espanhol recordou que a paixão pela condução vai muito além da Fórmula 1.
“Temos de separar duas coisas. Se gostamos de conduzir estes carros? Eu diria que sim, porque adoramos correr”, começou por explicar. “Todos os anos faço quatro ou cinco corridas de 24 horas em karts de aluguer, só para perceberem o quanto gostamos disto. Quando pegas num carro de aluguer para fazer uma corrida de 24 horas é porque amas mesmo conduzir.”
Nesse sentido, Alonso sublinha que qualquer Fórmula 1 continua a ser excitante. Contudo, reconhece que o tipo de desafio mudou profundamente. Antes, havia curvas que colocavam à prova os limites da física e da coragem do piloto; agora, muitas dessas zonas passaram a ser utilizadas sobretudo para gestão de energia.
“Costumávamos lutar pela vida em curvas como a 12 do Bahrein, a 9 e 10, a 11 em Melbourne, o primeiro setor em Suzuka, a 130R, as curvas 7 e 8 aqui na China”, recordou. “Havia sempre certas curvas na Fórmula 1 que desafiavam os limites da física e em que o piloto tinha de usar todas as competências e ser corajoso em alguns momentos.”
Com a nova geração, esse elemento perdeu‑se em grande parte, afirma o bicampeão mundial: “Quando metes pneus novos e fazes uma curva à velocidade mais alta que alguma vez fizeste num fim de semana de treinos, esse desafio desapareceu de certa forma. Agora usas essas curvas para carregar a bateria, já não para fazer o tempo por volta”, lamentou. “É um desafio diferente atrás do volante.”
Alonso não esconde que, por ter crescido num conceito em que essas curvas eram o exame máximo ao piloto, tem preferência pelo regulamento anterior. Mas, ao mesmo tempo, diz‑se grato por ter vivido as duas eras.
“Continuo a divertir‑me? Sim, porque adoramos correr. É este o futuro? Não sabemos. Depende também da próxima geração de regulamentos e da direção que a indústria automóvel tomar, se a F1 tem de seguir ou não”, referiu. “Como cresci com o outro tipo de desafio, provavelmente prefiro esse. Mas fui super sortudo por correr nessa era e ainda me sinto sortudo por correr agora, por isso gosto dos dois.”
Debate aberto sobre o futuro regulamento
Em comum, os três pilotos deixam a porta aberta a um debate mais profundo com a Fórmula 1 e a FIA, à medida que se acumulam Grandes Prémios com a nova geração de monolugares. A prioridade, sublinham, passa por encontrar um equilíbrio entre espetáculo e pureza desportiva: carros mais previsíveis e agradáveis de conduzir, corridas com mais ação, mas sem perder o elemento de risco controlado e de recompensa direta ao talento ao volante.
À medida que o campeonato avança e se aproxima a discussão sobre o próximo ciclo regulamentar, as opiniões de Gasly, Ocon e Alonso oferecem um retrato claro: a base é sólida e ainda divertida, mas o desafio já não é o mesmo – e a forma como a Fórmula 1 responder a estas preocupações poderá definir o rumo da categoria na próxima década.
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