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Juan-Manuel Fangio: Velho diabo

José Luis Abreu by José Luis Abreu
6 Janeiro, 2026
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, F1, FÓRMULA 1, pv2
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Juan-Manuel Fangio: Velho diabo

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Em 1957, no traiçoeiro Nurburgring, um velho diabo de 46 anos deu um recital de condução e assinou o seu quinto título mundial. Nascia uma lenda

A temporada de 1957 fora palco de um encarniçado duelo entre a Scuderia Ferrari com Mike Hawthorn e Peter Collins, e o “squalo” da arqui-rival Maserati, tripulado pelo maestro e veterano Juan Manuel Fangio, que perseguia o seu quinto título mundial, e quarto consecutivo, um ano após ter abandonado a equipa de Maranello devido a conflitos insanáveis com Enzo Ferrari. «Não temos dinheiro para pagar a Fangio», lia-se num comunicado sarcástico da Ferrari. Fina ironia que iria ser vingada num epílogo digno de intriga italiana.
Fangio precisava de vencer em Nurburgring, última prova do Mundial, num circuito onde teoricamente os Ferrari dos jovens ingleses eram mais fortes. Os carros de Enzo Ferrari não estavam obrigados a fazer uma paragem na boxe, já que o depósito de combustível dava para toda a corrida e os pneus Englebert tinham compostos mais duros do que os Pirelli da Maserati. A estratégia definida por Fangio era alcançar uma vantagem de 30 segundos que lhe permitisse reabastecer e regressar à pista em condições de bater os Ferrari.
Na largada, Hawthorn e Collins colocam-se na frente do pelotão, e Fangio vai seguindo atento, como velho caçador, à espera de um deslize das suas presas, Passadas poucas voltas desfere um ataque impressionante, deixando para trás Hawthorn e depois Collins, cavando depois a almejada distância de 30 segundos, e encostando às boxes. Para adensar a trama, os mecânicos da Maserati atrasam-se, e um impassível Fangio sai para a pista com mais de 50 segundos de atraso para os dois Ferrari, A corrida e o título pareciam perdidos, já que o argentino ainda perdeu mais 10 segundos nas duas voltas seguintes.
Mas o velho diabo estava num daqueles dias … e, com uma condução temerária, a travar para lá dos limites e a desenhar novas trajetórias
(era um mestre nessa arte), vai diminuindo a diferença, baixando os seus tempos por volta de uma forma incrível. A duas voltas do final, os 100 mil espetadores que enchiam as bancadas do Monte Eiffel levantam-se, e preparam-se para um apoteótico final. Na penúltima volta cola-se a Collins, que no ano anterior fora seu companheiro na Ferrari e lhe cedera então o carro para Fangio poder ser campeão.
Fangio está perfeito, ataca forte por dentro e sai largo, permitindo a Collins recuperar a posição; depois, na pequena reta antes do assustador salto da ponte, coloca-se ao lado de Collins.

Alguém tem de ceder e esse alguém não é Fangio. Entra na última volta com Hawthorn na mira; a poucos quilómetros do fim, numa curva apertada, consegue realizar uma ultrapassagem impossível, rumo ao seu quinto título mundial e também a última das suas 24 vitórias em 51 GP‘s disputados. No final, depois de abraçar o seu mestre, Hawthorn mostrava-se rendido à façanha de Fangio: «Quando chegámos juntos à ponte e os dois carros não cabiam, pensei: se não abrando, o velho diabo passa-me por cima». Fangio alcançou vitórias memoráveis na sua longa carreira, mas nenhuma como esta, como o próprio confessou: «Nunca havia conduzido desta maneira, mas também percebi que jamais poderia voltar a conduzir assim. Jamais! » No ano seguinte, em Reims, Juan-Manuel Fangio colocava fim a uma notável carreira, onde assistiu a 30 mortes por acidente de colegas seus, tragédias que sempre o marcaram, até ao acidente de Ayrton Senna, o único piloto que ele admirou depois do seu tempo, e de quem chorou a morte.

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Génio tardio
Quem diria que este piloto tardio, nascido a 24 de Junho de 1911 em Balcarce, na Argentina, filho de uma família modesta, que foi aprendiz de mecânico aos 13 anos, condutor de camionetas, vencedor de provas locais com táxis emprestados pelos pais dos seus amigos, se tornaria uma das maiores lendas da F1 e o mais popular desportista argentino antes de Maradona. Certamente que ninguém na elite das corridas europeias acreditaria, em 1950, que este desconhecido e veterano sudaca (termo depreciativo para designar sul-americanos), seria capaz de fazer sombra na equipa Alfa Romeo ao grande Nino Farina e sagrar-se, logo no primeiro mundial, vice-campeão. No ano seguinte, e ainda com a Alfa Romeo, Fangio conquista o título mundial e sofre um terrível acidente em Monza, que o afasta das pistas durante uma época e, segundo os críticos, o impediria de voltar a ser campeão do mundo. Fangio, “el Chueco” (o homem das pernas arqueadas) provou que não, e em 1954 dá a glória à regressada esquadra Mercedes, com os Flecha de Prata de Alfred Neubauer, somando mais dois títulos mundiais. Foram de Stirling Moss, o único piloto do seu tempo que lhe fez frente, as palavras que melhor definem Fangio: «Um piloto corajoso, um maestro nas trajetórias, um homem notável. Um deus entre os mortais».

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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