O presidente da Ferrari, Sergio Marchionne revelou que está dentro dos seus planos retirar-se depois de 2018. Aos 64 anos, tomou conta de Fiat há uma década, mas a sua liderança na Ferrari só se notou depois da saída de Luca di Montezemolo. Já não é a primeira vez que o refere, já o tinha dito em 2014 que tinha na ideia retirar-se após 2018 e agora no Salão de Detroit confirmou as suas intenções. Tem, por isso, dois anos para endireitar a Scuderia Ferrari, que ainda não acertou o passo com a nova era híbrida.
Depois do que se viu do paupérrimo ano de 2014, o ano de 2015 foi de autêntica revolução na Ferrari, com a chegada a Maranello de Maurizio Arrivabene, James Allison e Sebastian Vettel. Isso permitiu à Scuderia ter desde logo um ano de 2015 muito promissor, mas como é habitual na Ferrari a pressão que vem de cima, é cega, surda e muda, e sendo Sérgio Marchionne um puro homem de negócios, cometeu o erro de achar que a Fórmula 1 se gere como um outro qualquer negócio, e sem uma verdadeira consciência das dificuldades que é vingar neste mundo super competitivo, colocou uma enorme pressão em todos os elementos de Maranello.
Não é preciso ser uma sumidade na Fórmula 1 para saber que a vantagem que a Mercedes conseguiu em 2014 com a fabulosa unidade motriz que construiu, a que juntou um chassis sem mácula, só com muito melhor trabalho é possível reduzir essa diferença a zero com alguma rapidez, e sendo certo que a Ferrari tem vindo a recuperar um pouco, chegando ao final do ano de 2015 a cerca de sete décimos por volta dos Mercedes, a verdade é que a equipa de Maranello entrou numa espiral de problemas e azares que têm condicionado muito toda a sua prestação.
Não restam dúvidas a ninguém que tanto a Ferrari como a Red Bull trabalharam bem nos seus carros de 2016, deram um salto qualitativo, mas esse salto só se faria notar muito se a Mercedes tivesse ficado a marcar passo, o que esteve longe de acontecer em Brackley. Por isso se a Ferrari cresceu dez, a Red Bull cresceu vinte, a Mercedes também cresceu e atenuou ou reduziu mesmo a zero a recuperação dos seus adversários. No que às unidades motrizes diz respeito, a Ferrari aproximou-se da Mercedes, partiram bem atrás dos homens de Brackley, mas evoluíram bem no seu conhecimento e perceção do que é a tecnologia híbrida, e aprenderam depressa. Neste aspeto, a margem ainda não foi toda colmatada, mas para lá caminham. O problema está longe de ser aí. Tem sido um padrão a Ferrari ser conservadora no design dos seus carros, competentes, mas não tão agressivos quanto a Red Bull, e nem sequer, mais recentemente, que a Mercedes. Há neste ponto uma clara prova de falta de inovação e pensamento criativo, e James Allison não conseguiu tocar todos os instrumentos. Há na sua equipa demasiado conservadorismo.
O patrão da equipa, Maurizio Arrivabene teve um entendimento mais esotérico da questão e diz que no campeonato da má sorte, a Ferrari ganhou destacada na frente, o que é verdade pois tanto Sebastian Vettel como Kimi Raikkonen tiveram uma boa dose de problemas mecânicos, mas isso está muito longe de explicar tudo.
Fala-se agora em crise da Ferrari, mas a verdade é que depois das fabulosas épocas de Michael Schumacher, só por uma vez alcançou um título de pilotos, Kimi Raikkonen em 2007 e dois de Construtores, precisamente em 2007 e no ano seguinte. Desde aí a ‘seca’ de títulos em Maranello tem sido constante, ainda que por várias vezes tivesse estado perto do conseguir. Como se recordam, em 2008, Felipe Massa perdeu para Lewis Hamilton após quase um ‘milagre’ na última volta do GP do Brasil, isto depois duma época com oito vitórias e o 16º título de construtores, batendo a McLaren por 21 pontos.
Em 2009 o Mundial foi um descalabro para a Ferrari e em 2010, já com Fernando Alonso, a luta pelo título chegou a pender muito para o homem da Ferrari – foi o tempo de polémica “Felipe, Fernando é mais rápido que tu, percebeste a mensagem?” e no final do ano, uma escolha estratégica totalmente errada na ‘marcação’ a Mark Webber, esquecendo Sebastian Vettel foi fatal ao espanhol e aos homens de Maranello, acabando por ser o jovem alemão, que era terceiro à entrada da última prova, a ser Campeão. Em 2011 as coisas voltaram a correr muito mal para a Scuderia, mas em 2012, Alonso levou novamente a decisão do campeonato até à última prova, perdendo outra vez para Vettel. Em 2013, Alonso nada pode fazer face ao poderio da Red Bull, e quando terminaram os quatro anos de domínio Red Bull e Sebastian Vettel, começou o da Mercedes. 2014 foi o último ano de Fernando Alonso em Maranello, desmotivado por não conseguir o almejado terceiro título Mundial com a Ferrari a cair para o quarto lugar dos Construtores, pela primeira vez desde 1993. No final do ano, Sebastian Vettel rumou a Maranello. No ano seguinte, apesar das promissoras três vitórias a diferença para a Mercedes continuou a ser muito grande e esperava-se que em 2016 as coisas mudassem para melhor. Longe disso, apesar de alguns sinais contraditórios, a Ferrari parece estar cada vez mais longe das vitórias. Resta saber se dão a volta em 2017…










