Falta menos de um mês para que os novos carros entrem em ação e mostrem um pouco do que são capazes. Para vermos o que realmente nos espera 2022, talvez seja preciso esperar pela primeira qualificação do ano, um mês depois dos carros percorrerem os primeiros quilómetros em Barcelona.
As equipas são unânimes e dizem que estas mudanças são as mais profundas que a F1 já conheceu. Não significa isto que veremos tecnologia inédita, ou avanços tecnológicos de nos deixar de queixo caído. O que se trata é uma mudança de filosofia profunda que acontece de um ano para o outro, com um conjunto de regulamentos mais restritivo e, portanto, menos dado a inovações radicais. No entanto, sabemos bem que o jogo do gato e do rato entre a FIA e as equipas de F1 é sempre interessante, com os engenheiros a encontrarem sempre zonas cinzentas que permitam um salto na performance. E é isso que todos estamos à espera. Quem levará a melhor? Quem conseguirá encontrar o truque que vai levar a equipa para o topo? Tentar entender isso é claro um exercício ingrato e que muitos considerarão futurologia, pois ninguém sabe o que vai acontecer e por isso mesmo o entusiasmo em volta desta época é grande. Mas olhando para os dados disponíveis, podemos tentar desenhar um cenário do que poderá ser 2022.
Começando pelas equipas do fundo da tabela, Haas, Williams e Alfa Romeo podem dar um salto qualitativo significativo. Mas pensar que podem ser candidatas a vitórias nesta época, apesar de não ser impossível, não é muito provável, pois o défice que apresentam para as restantes estruturas não pode ser esquecido. O mesmo se pode dizer das equipas do topo da tabela, com a Mercedes e a Red Bull. Poucos são os que arriscam dizer que estas equipas não estarão na luta por vitórias este ano, olhando à sua valia. Assim, há cinco equipas que têm uma hipótese de se juntar ao topo da tabela. São essas equipas a Ferrari, McLaren, Alpine, Alpha Tauri e Aston Martin.
Da Alpine espera-se sempre um pouco mais do que se recebe, fruto do potencial que a equipa tem e que teima em não materializar e fruto das promessas constantes que não são cumpridas. A Alpine teve um ano zero, com um chassis ultrapassado e uma unidade motriz que foi menos potente da grelha. Dificilmente este cenário faria esperar algo de bom, no entanto a equipa conseguiu um par de bons resultados e prestações positivas, alavancadas pela qualidade da dupla de pilotos. 2022 é um ano de grande importância para a Alpine, com a entrada em cena de um novo chassis e uma nova unidade motriz, no entanto Laurent Rossi já disse que seria preciso esperar até 2024 para ver a Alpine em força. Será a Alpine capaz de dar o salto já este ano? Pela qualidade da sua estrutura e por aquilo que já fizeram no passado, a resposta tem de ser forçosamente sim, mas as constantes mudanças na liderança da equipa não são boas. A constante instabilidade e as inúmeras reestruturações não permitem olhar para a Alpine como um nome forte no imediato. Nesta fase de 2022 a equipa tem um líder a prazo, com Rossi a comandar a equipa, enquanto se espera pelo substituto de Marcin Budkowski, que supostamente deveria ter dividido a liderança com Davide Brivio, mas o italiano raramente se viu durante o ano. Com uma liderança tão indefinida é difícil ver a Alpine a conseguir ter bons resultados no imediato. A Renault já fez motores que deram (muitos) título assim como chassis com muita qualidade, mas para que tudo corra bem é imperativo ter uma liderança forte e para já parece faltar isso.
A Alpha Tauri fez grandes avanços durante os últimos anos, graças ao trabalho de Pierre Gasly e da estrutura técnica que tem aproveitado da melhor forma uma maior proximidade à Red Bull. Este ano, com acesso ao túnel de vento da Red Bull que permite o uso de modelos à escala com 60% do tamanho (uma melhora considerável, face aos túneis de vento que permitem apenas modelos de 50%), a Alpha Tauri tem uma ferramenta muito forte para desenvolver o seu carro. Assim, não seria de espantar que a equipa começasse a incomodar ainda mais e a chegar mais à frente. No entanto a Alpha Tauri será sempre uma equipa B da Red Bull com tudo o que isso implica. Mas olhando para o que tem sido feito, não seria um espanto se víssemos a Alpha Tauri a conseguir mais pódios.
A Aston Martin passa por momentos de reestruturação, com mudanças na sua liderança e a construção de novas infraestruturas (onde está incluído um novo túnel de vento). A saída de Otmar Szafnauer é um golpe, numa equipa que sofreu muito com as mudanças regulamentares de 2021, que resultaram num abaixamento de forma e o consequente sétimo lugar. Há muito trabalho a ser feito e com uma nova liderança é preciso dar tempo para que se vejam frutos. Mas a estrutura de Silverstone já nos habituou a fazer muito com pouco. 2021 não foi o melhor ano para ver o que podia fazer com mais meios, pois a maioria ainda não está implementada e com 2022, o carro nunca iria ser muito desenvolvido. Mas a Aston manteve a liderança no departamento técnico que tem feito pequenos milagres ao longo dos anos, pelo que essa parte terá funcionado, teoricamente, sem sobressaltos. Assim, podemos imaginar a Aston melhor que a Alpha Tauri e a Alpine neste primeiro ano de novos regulamentos, caso encontre a fórmula certa para o sucesso.
A McLaren tem sido a equipa com o trajeto mais entusiasmante dos últimos anos, com um crescimento fantástico e bem sustentado. A equipa tem agora uma base forte, já dobrou o seu Cabo das Tormentas e tem-se aproximado do topo. A liderança é forte e bem delineada, com Zak Brown e Andreas Seidl a complementarem-se muito bem, a estrutura técnica ganhou muito com a chegada de James Key a evolução tem sido gradual e consistente. É uma das equipas que mais entusiasma pois, se fizer bem o seu trabalho de casa, tem aqui uma oportunidade de ouro para chegar aos primeiros lugares. Falta ainda o novo túnel de vento e o novo simulador, obras que atrasaram com a pandemia (e com os percalços financeiros durante o arranque da pandemia), mas o potencial humano compensa, em parte, estas falhas que ainda persistem. É de esperar que a McLaren apareça mais vezes no topo da tabela e é a equipa que mais potencial apresenta… a par da Ferrari.
Se olharmos para o que tem sido feito e dito ao longo dos últimos tempos, vemos que a Ferrari aparece com uma força e um otimismo como já não se via há algum tempo. Com um novo chassis e uma nova unidade motriz, com uma filosofia inovadora, junta-se a isso um novo sistema híbrido que já foi usado durante o último terço da época passada com uma melhoria clara na performance dos carros, o que valeu o terceiro lugar no final do campeonato. Apesar da estrutura estar pressionada, especialmente Mattia Binotto, este tem mantido a serenidade e tem pedido inovação e agressividade aos seus engenheiros, na procura de novas ideias, sem medos de falhas. Foi esta filosofia que usou quando era responsável pelos motores e que voltou a usar quando foi promovido a diretor técnico da equipa. Esta mudança de filosofia permitiu que a Ferrari melhorasse muito em 2017, com soluções inovadoras que foram copiadas pela maioria das equipas. Binotto pode não ser apreciado por muitos, mas o seu trabalho na Scuderia merece crédito e se não fosse o caso de 2019 e da unidade motriz “ilegal”, a situação da Ferrari neste momento seria diferente. O discurso de Binotto nos últimos tempos tem mudado, com uma confiança que já há algum tempo não se via pelos lados de Maranello. Junta-se a isso uma dupla de pilotos de grande calibre. Não é preciso fazer um exercício de imaginação muito grande para ver a Ferrari como a equipa que mais argumentos tem para se aproximar às equipas da frente… ou até se tornar a referência.
Assim, parece-nos que a Ferrari e a McLaren deverão ser aquelas que mais se aproximarão do topo, com ligeira vantagem para a Ferrari. A Aston Martin deverá voltar a lutar pelo top 5 com a Alpha Tauri enquanto a Alpine dará os primeiros passos rumo a um futuro melhor. Pelo menos é esta a nossa expetativa.
Se os cenários aqui traçados se vão materializar… essa é a grande questão. No desporto tudo pode acontecer e nesta fase em qua a F1 se encontra, são inúmeras as possibilidades. É por isso que gostamos da F1. O que deixamos aqui é apenas uma visão com base no que temos visto. O tempo dirá se acertamos ou não.










