Nunca mais chega a nova época, muitos dizem nas redes sociais, desejosos de voltar a ver os monolugares em pista, este ano ainda mais, com tantas novidades. Mas a F1, na ânsia de satisfazer os desejos dos fãs e na procura de mais lucro, pode percorrer um caminho que não beneficia a competição.
Um calendário com 23 corridas é já extenuante que implica três jornadas triplas, se contarmos com o teste do Bahrain seguido de duas provas do Médio Oriente. Significa que o staff não pode ver os seus entes queridos durante um mês (ou mais), a menos que sejam tomadas medidas drásticas. Do mesmo modo, F1 está a perder conhecimentos e perícia valiosos através de pessoas que já não estão preparadas para viajar sem parar. É aqui que surge um potencial problema para a F1.
O mundo do desporto motorizado vive uma época de vitalidade tremenda e a F1, que continua a ser o pináculo do automobilismo, não é agora a única opção de topo. O WEC, por exemplo, com a entrada de tantas marcas novas, vai precisar de pessoal de topo, que talvez não se importe com um salário menor, mas com apenas 10 rondas por ano, menos de metade do que há na F1. E isso é válido para outros setores do Grande Circo.
Não se pode continuar com o argumento de que trabalhar na F1 é o sonho de muitos e quem está, tem de aguentar. Sucedem-se relatos dramáticos de mecânicos que enfrentam pequenos infernos. Num relato recente, um mecânico que quis manter o anonimato, relevou ao motorsport.com alguns pormenores sombrios do que enfrenta:
É apenas um pequeno excerto do relato que roça o horror no que toca a condições de trabalho, quer na componente física e mental, pois não podemos esquecer que se trata de um desporto de alta competição onde todos os erros são escrutinados ao mais ínfimo pormenor. Não é por acaso que no final de cada ano se vê cada vez mais pessoas a abandonar a F1. O desgaste físico, mas essencialmente o desgaste mental são tremendos. Não foi há muito tempo que outro membro de uma equipa, responsável pela comunicação falava em ataques de pânico motivados pela pressão constante e pelo ritmo infernal que a F1 exige. Para muitos, o sonho da F1 torna-se em pesadelo. E se é verdade que é preciso ter a capacidade física e mental para aguentar as exigências, não é menos verdade que mesmo os mais fortes vão ter problemas em aguentar se o calendário incluir mais provas.
E com isso, muitos vão ponderar e talvez optar por competições igualmente interessantes, talvez com menos impacto mediático e com isso menos pressão, com calendários razoáveis que não impliquem ficar fora de casa um mês ou mais, arruinando além da saúde física e mental, a vida social dos implicados.
É muito fácil pedir mais corridas por ano. Até de uma perspetiva jornalística, quanto mais corridas, mais temas para abordar e a nossa vida fica facilitada. Mas já vimos demasiadas vezes competições perderem fulgor e até passarem por momentos maus porque se seguiu uma via que se pensava agradar mais aos fãs e acabou por arruinar o que de bom havia. É preciso cuidar da competição e isso implica cuidar de quem lá trabalha.










