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“Ele nunca desistiu” engenheiro da Haas descreve luta de Grosjean: lições de um acidente quase fatal

José Luis Abreu by José Luis Abreu
6 Fevereiro, 2026
in Destaque Homepage, F1, FÓRMULA 1, Newsletter, Newsletter destaque
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Acidente pavoroso assustou Fórmula 1

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A ‘impossível’ fuga de Romain Grosjean é uma história de coragem, humanidade e lições de segurança para a F1 com Ayao Komatsu, na altura engenheiro do piloto a recordar pormenores até aqui desconhecidos do público.

Durante a sua participação no podcast High Performance, Ayao Komatsu, chefe de equipa da Haas, revisitou os pormenores cruciais da milagrosa sobrevivência de Romain Grosjean no GP do Bahrein de 2020. O engenheiro japonês detalhou a agonia vivida no cockpit, sublinhando como a lucidez sob pressão extrema e o instinto de sobrevivência do piloto francês foram os fatores decisivos para escapar à tragédia.
Há um detalhe que nos deixa abismados e que confirma bem o sangue-frio do piloto francês. Segundo Komatsu: “quando o chassis voltou, ainda estavam as botas de competição presas atrás do pedal…”

Romain Grosjean: a fuga ‘impossível’ que redefiniu a coragem na F1
A história que revisitamos começa com uma imagem que, ainda hoje, arrepia: os destroços em chamas do Haas de Romain Grosjean, no Bahrein, em 2020, e a incredulidade de quem assistiu tudo de frente. Segundo Ayao Komatsu, hoje em dia chefe de equipa da Haas, na altura o engenheiro que acompanhava Grosjean, a primeira sensação foi brutal: “não consegues imaginar que alguém saia dali vivo”..

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Como refere o engenheiro, revendo as imagens onboard a que só teve acesso por motivos de segurança, o momento decisivo aconteceu em segundos, mas parece uma eternidade. Grosjean percebe que o pé esquerdo está preso atrás do pedal e tenta libertá‑lo. Não consegue. Então toma uma decisão contra‑instintiva: recua o tronco, à procura de apoio, para ganhar força suficiente para puxar a perna de dentro da bota.

É aqui que o detalhe técnico ajuda a perceber a dimensão do esforço. Como recorda o interlocutor, os pilotos de Fórmula 1 não usam “sapatos”: usam botas de competição, extremamente justas, para garantir sensibilidade máxima nos pedais. Como sublinha o engenheiro, isso significa que Grosjean teve de encontrar força “suficiente para deslocar o tornozelo” e arrancar o pé de dentro de uma bota apertada, no meio de um incêndio, com o chassis partido ao meio e cravado no rail.
Ao recuar o corpo para ganhar força, Grosjean acaba por deixar as botas para trás, presas no cockpit, e impulsiona‑se para fora, apoiando a mão esquerda no halo – diretamente na zona das chamas. A única lesão séria que traz desse momento é precisamente na mão, queimada no contacto com o fogo enquanto se projetava para fora do carro.

Assistir ao impossível a partir do muro das boxes
Enquanto tudo isto acontecia em fracções de segundo, na box a realidade era outra: confusão, silêncio e incredulidade. O engenheiro conta que estava na parede das boxes quando alguém lhe disse que Grosjean tinha saído do carro – e que a primeira reação foi de descrença. Só quando o viu no ecrã de televisão, de pé, percebeu que o impossível acontecera.

Como explica, correu ao centro médico antes do piloto ser evacuado de helicóptero. Ainda do lado de fora, conseguiu vê‑lo e receber um sinal de positivo através do vidro – um gesto simples, mas carregado de significado: ele estava vivo. Mais tarde, já no ambiente clínico, foi autorizado a ver a gravação onboard completa, aquela que a transmissão televisiva corta no momento do impacto. O objectivo era técnico – tirar lições de segurança –, mas o que o marcou foi outra coisa: “percebes que o Romain Grosjean nunca desistiu de sobreviver”.

Segundo o engenheiro, cada decisão tomada por Grosjean no cockpit foi a correta. Se tivesse insistido mais cinco ou dez segundos a tentar libertar o pé de outra forma, provavelmente não teria saído. O tempo de resistência ao fogo do equipamento estava no limite e o francês operou, sem saber, na ‘fronteira’ dessa margem. Uma fronteira que não tinha volta…

O instinto que apaga o fogo… na cabeça
Há um detalhe psicológico que torna esta história ainda mais impressionante. Depois de rever as imagens, o engenheiro diz ter elogiado Grosjean pela coragem de “voltar para trás” no meio do fogo para ganhar posição e puxar a perna. A resposta do piloto surpreendeu‑o: como refere, Grosjean garantiu que, naquele momento específico, não sentia que estivesse cercado por chamas.
“Não, Romain, tu estavas, havia fogo por todo o lado”, lembra o engenheiro, sublinhando o contraste entre o que as imagens mostram e a percepção do piloto. A conclusão que tira é quase instintiva: talvez seja um mecanismo subconsciente de sobrevivência, uma forma da mente “anular” o fogo circundante para permitir que o corpo faça aquilo que tem de ser feito.

Esse instinto de nunca desistir marcou também a família. O engenheiro recorda a conversa com a mulher de Grosjean, Marion, que insistiu em ver a gravação onboard. Ele tentou dissuadi‑la, mas ela manteve a decisão.
No fim, contou‑lhe que as imagens a ajudaram enormemente: ver o marido “nunca, jamais, desistir”, tentar tudo até ao último momento “por ela e pelos filhos” transformou um trauma em prova de amor e resistência.

Do “lunático da primeira volta” ao respeito absoluto
O episódio ganha ainda mais profundidade quando o engenheiro volta atrás no tempo, ao período mais difícil da carreira de Grosjean. Como lembra, o francês já tinha sido rotulado por Mark Webber como “lunático da primeira volta”, depois de incidentes como o arranque caótico em Spa e o toque em Suzuka. Na altura, o próprio engenheiro admite que era ainda muito jovem no papel de engenheiro de corrida e que não sabia bem como ajudar.

Recorda um momento tenso em Suzuka, quando Webber foi ao camião da equipa, após a corrida, pontapear os painéis à porta do francês. O ambiente era de enorme pressão e, nas palavras do engenheiro, ele próprio não tinha “ferramentas de vida” para apoiar Grosjean como gostaria. Confessa que, visto à distância, sente que o desiludiu: se tivesse “mais cinco anos de experiência”, acredita que teria conseguido estar ao lado do piloto, levá‑lo “fora daquele buraco” emocional.

Mais recentemente, reencontrou Grosjean e decidiu dizer‑lhe isso, frontalmente. Segundo o próprio, a resposta do francês foi desarmante: “crescemos juntos, eu não queria um engenheiro com mais cinco anos de experiência nessa altura, não mudaria nada”. Para o engenheiro, essa reacção confirma o carácter de Grosjean: alguém que, apesar de ter vivido momentos duros, mantém a generosidade e a capacidade de perdoar.

Solidão sob os holofotes
O episódio também abre espaço para uma reflexão mais ampla. Como sublinha o entrevistador, há uma tendência para assumirmos que pilotos de Fórmula 1 e outras figuras de topo estão “cercados de informação, amor e elogios”. Na prática, a realidade muitas vezes é o oposto: solidão, pressão e pouca margem para fragilidade. Como outros pilotos, Lando Norris já falou disso abertamente nos últimos anos, e o engenheiro admite que, na fase mais difícil de Grosjean, ele próprio não conseguiu ter o impulso simples de dizer “vamos beber um copo, vamos falar disto”.

Essa ausência de apoio emocional, cruzada com os erros em pista, ajuda a perceber o peso que o acidente do Bahrein teve no trajecto de Grosjean – e porque é que a sua fuga das chamas se tornou, para muitos, um ponto de viragem na forma como olhamos para os pilotos: não apenas como atletas, mas como pessoas vulneráveis, sujeitas a falhar, aprender e reerguer‑se.

Uma história que o desporto não pode esquecer
Quase seis anos depois, revisitar este relato – a forma como o engenheiro descreve cada segundo, cada decisão de Romain Grosjean e cada falha de apoio num passado mais distante – ajuda‑nos a compreender melhor o impacto daquele acidente no Bahrein. A sobrevivência em condições aparentemente impossíveis é, por si só, um milagre técnico e humano; mas o que fica é a imagem de um piloto que nunca cedeu ao pânico, que lutou até ao fim por si e pela família, e de uma comunidade que ainda aprende a cuidar dos seus protagonistas fora do capacete.

No contexto do desporto motorizado, esta história é mais do que um momento viral de “escape às chamas”: é um marco na cultura de segurança, na compreensão da saúde mental dos pilotos e na forma como equipas e engenheiros se reveem no seu próprio papel. É por isso que voltamos a este tema, pois percebemos que esta não é apenas uma boa história para recordar – é um lembrete essencial de coragem, de falibilidade e de humanidade no coração da alta velocidade.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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