Crise de identidade na F1?
Em 2026, a Fórmula 1 entra num ciclo de regras tão profundo que já há quem questione se essas mudanças não vão contra a própria identidade da competição. Será que 2026 trouxe uma crise de identidade que já era expectável há algum tempo?
Os novos regulamentos técnicos e desportivos colocam eficiência, sustentabilidade e equilíbrio competitivo no topo da lista de exigências. Mas essa busca parece ter transformado a F1 de uma forma que poucos parecem apreciar. Mais gestão do que ataque, mais modos do que instinto: é esta a nova tendência da categoria que sempre foi vista como o auge da velocidade e da pilotagem pura.
Pit. Lane. Aura. ✨#F1 #F1Testing pic.twitter.com/P53zjjM45L
— Formula 1 (@F1) February 15, 2026
Motores: gerir em vez de ir ao limite
O coração da mudança está nas novas unidades motrizes, com uma repartição de potência que se aproxima dos 50% da parte elétrica e 50% do motor de combustão interna. Na prática, o piloto deixa de ter um motor “linear” à disposição e passa a gerir um orçamento de energia por volta: quanta energia recupera em travagem, quanto pode gastar em cada reta. Tal não seria problemático, e até já acontecia em certa medida no passado com as unidades motrizes que estiveram em ação até 2025. Mas nessa altura a maior fatia da potência continuava a vir do motor térmico. Agora, com a componente elétrica muito mais relevante, o fim da energia vinda das baterias torna‑se muito mais pronunciado e a energia disponível pode esgotar‑se depressa se for usada de forma agressiva, o que obriga a gerir cuidadosamente o gasto. A nova F1 obriga a demasiada gestão, a levantar demasiado o pé em situações em que antes se esperava ver o piloto a fundo.
É aqui que surge a primeira fissura na identidade. Vários pilotos, depois das primeiras experiências com o conceito de 2026, admitiram frustração com o peso desta gestão. Max Verstappen, por exemplo, tem sido uma das vozes mais críticas, deixando claro que não faz sentido ter carros de topo em que o piloto é obrigado a levantar o pé por causa das limitações de energia. Charles Leclerc reconheceu que “a nova direção para nós, pilotos, é um pouco menos atraente e um pouco menos agradável de guiar no geral”, precisamente porque o foco se desloca da exploração do limite para o cálculo do que a parte elétrica permite em cada volta.
Week 2️⃣ of Pre-Season Testing in Bahrain awaits 🤩👀#F1 #F1Testing pic.twitter.com/afN4dAiEEA
— Formula 1 (@F1) February 16, 2026
Ultrapassagens: mais dificuldades
Se a promessa da F1 moderna era “carros que lutam mais de perto”, a nova filosofia aerodinâmica de 2026 pode não o permitir da forma desejada. Os monolugares tornaram‑se mais curtos, mais estreitos e mais leves, com menos apoio global – o que por si não é um problema, pelo contrário. Mas entra em cena a aerodinâmica ativa: asas dianteira e traseira passam a ter modos distintos, um para máximo apoio em curva, outro para minimizar o arrasto em reta. O DRS tradicional desaparece e é substituído por um “modo de ataque”Boost Mode” que combina redução de arrasto com um incremento extra de potência elétrica, acionado em condições definidas, para facilitar a aproximação e a ultrapassagem.
Em teoria, deveria ser um passo em frente. Na prática, tudo indica que os pilotos sentem o contrário: alguns apontaram que se tornou mais difícil seguir outros carros, e muitos temem que as ultrapassagens venham a ser mais difíceis. Primeiro, porque a aerodinâmica ativa pode ser usada tanto por quem defende como por quem ataca, não criando por si só um elemento diferenciador. Esse elemento diferencial passa a ser o “Boost Mode”, que permite usar mais energia elétrica (o equivalente conceptual ao antigo DRS), mas se os níveis de energia já são difíceis de gerir numa volta normal, ainda mais exigente se torna fazê‑lo com um modo de ataque extra em jogo. Leclerc afirmou achar “extremamente difícil conseguir qualquer ultrapassagem”, explicando que o “preço” de tentar passar um rival ficou “muito mais alto do que era no passado” porque, se a investida falha, o piloto fica sem energia e vulnerável de imediato. E mesmo que a ultrapassagem se concretize, sem energia elétrica, o “predador” rapidamente se transforma em “presa”.
From endplate to nose… 👀
This season, there's a lot of variation in front wing design between teams; with this component conditioning the airflow for the rest of the car whilst also utilising active aero! 💨#F1 pic.twitter.com/Ja5v4XwHF2
— Formula 1 (@F1) February 16, 2026
Arranques: um problema que pode ser grave
Nem mesmo o momento mais visceral de uma corrida, o arranque, escapou à nova lógica. Sem o MGU‑H para controlar o turbo, o lag volta a ser um problema real. Para garantir que o turbo está na janela certa quando as luzes se apagam, os pilotos estão a ser obrigados a manter o motor em regimes altíssimos durante vários segundos, sincronizando rotação, embraiagem e gestão de energia com uma precisão milimétrica para conseguir um bom arranque. Como só o motor de combustão pode ser usado na fase inicial do arranque, e o turbo precisa de vários segundos de alto regime para atingir a velocidade ideal, qualquer erro na sequência pode transformar um arranque em patinagem excessiva ou um arranque anémico.
Engenheiros e pilotos já descrevem os arranques de 2026 como “complicados”, “caóticos” e até “potencialmente perigosos”, porque a janela de resposta ideal é pequena e nem todos os carros têm tempo para preparar o turbo, sobretudo, no fundo da grelha. Quem acerta, parte “normalmente”. Quem falha, perde metros, abrindo a porta a incidentes logo nos primeiros segundos de corrida. As preocupações foram longe o suficiente para que equipas e representantes de pilotos levassem o tema à FIA, pedindo uma revisão do procedimento de partida – nomeadamente aumentando o intervalo entre a formação da grelha e o acender das luzes, para garantir condições mais homogéneas.
What do F1 teams *actually* get up to in Testing? 👀
Let's hear from James Vowles and Jack Doohan to explain all! 👊#F1 #F1Testing pic.twitter.com/sXPKnwliJw
— Formula 1 (@F1) February 16, 2026
Qualificação: Velocidade pura deixou de existir
A qualificação sempre foi vendida como o momento em que o piloto tem tudo à disposição para extrair a volta da vida. Era neste momento que se destacavam os mais velozes, ou mais corajosos. Em 2026, a volta rápida passa a ser um equilíbrio entre aderência, motor térmico e, sobretudo, energia elétrica disponível. Com limites rigorosos de recuperação e entrega de energia por volta, torna‑se impossível usar o máximo da parte elétrica em todos os pontos do circuito. As equipas já admitem, com base em simulações, que terão de desenhar voltas de qualificação em blocos: volta de preparação para carregar bateria, volta de ataque com mais energia, talvez outra volta de arrefecimento para voltar a pôr tudo em ordem. E mesmo na volta de ataque, poderá ser preciso levantar o pé mais cedo para garantir recuperação de energia. Assim, o homem da pole pode não ser necessariamente o mais rápido no sentido clássico, mas sim o que melhor conseguiu casar talento, carro e gestão da bateria no momento decisivo.
Não nos podemos esquecer que na F1, como em qualquer outro desporto motorizado, há sempre uma componente de gestão, que faz parte e até ajuda a apimentar as corridas (desde que não seja excessiva). Mas na qualificação gostamos de ver um momento de pura velocidade e puro talento.
11 teams but only one racing line! 💪💨#F1 #F1Testing pic.twitter.com/mIKyPGTaOB
— Formula 1 (@F1) February 13, 2026
Uma F1 em busca do futuro, mas que não poder esquecer o passado
Por detrás de todas estas mudanças está uma agenda clara: tornar a F1 mais sustentável, mais eficiente e mais relevante para a indústria automóvel, atraindo novos construtores e usando a categoria como laboratório de tecnologias futuras. Carros mais leves, combustível totalmente sustentável, limites estritos de energia – todos estes elementos fazem sentido e empurram a F1 para o futuro. O problema, para muitos, é que a integração inicial destes conceitos na F1 está a ser demasiado exigente para o espetáculo em pista.
É fácil esquecer que este é o primeiro passo desta nova era. Os engenheiros vão procurar soluções para recuperar mais energia, extrair mais potência dos motores e encontrar performance, como sempre fizeram. O novo conjunto de regulamentos é um desafio à engenhosidade e à capacidade técnica para criar carros que podem fazer a diferença também na indústria automóvel. A F1 sem evolução e sem tecnologia não é F1, e quanto mais exigente o desafio, mais impressionante pode ser a resposta. As unidades motrizes de 2014 foram muito criticadas, mas evoluíram e transformaram‑se nos motores mais fortes e eficientes que a F1 já viu; com estas unidades motrizes, o caminho pode muito bem ser o mesmo.

Mas é preciso equilíbrio. E, mais uma vez, parece que esse equilíbrio caiu para o lado da engenharia e não para o do espetáculo, pelo menos na perceção de muitos pilotos e adeptos. É aqui que entra a crise de identidade. A F1 tem de olhar para soluções de sustentabilidade, mas não pode deixar de ser o pináculo da velocidade. A F1 tem de fazer crescer e evoluir a tecnologia, mas não pode deixar de permitir que as suas estrelas – os pilotos – brilhem graças ao seu talento, à sua capacidade de serem mais rápidos e mais corajosos. A F1 deve olhar para o futuro e encontrar o seu lugar, sem nunca perder as suas raízes. Um equilíbrio tremendamente complicado de encontrar.
Já vivemos tempos semelhantes no passado. Já passamos por começos de novos regulamentos duros. Quem sobreviveu a 2014, com motores pouco fiáveis e as famosas frentes “fálicas” certamente sobreviverá a esta. A diferença é que poucas mudanças de regulamento foram tão profundas e abrangentes como as de 2026. E, para aumentar o desafio, nunca a F1 teve um alcance global tão forte. O excelente trabalho de mostrar a F1 a novos públicos tem agora um teste extra: lidar com a potencial desilusão que as primeiras corridas da nova era podem gerar, se a perceção for de carros mais “travados” e menos emocionantes de ver. Adivinham‑se semanas exigentes para a F1 – dentro e fora de pista.
Foto: Philippe Nanchino /MPSA
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F1 FOR FUN
17 Fevereiro, 2026 at 15:12
Assinei ontem por 1 ano de f1TV premium e já começo a estar arrependido. Que corridas vamos ter? Carros a travar a meio de rectas? Carros a regenerar e a travar em antigas curvas de alta velocidade? Procissões atrás do líder como no início das corridas de Fórmula E, porque todos querem poupar energia.
Carlos Costa
17 Fevereiro, 2026 at 18:47
O recrutamento dos novos pilotos para a F1 vai passar a ser na Fórmula E ….. o António Felix da Costa ainda vai ter hipóteses de lá chegar…..