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» Textos: Hélio Rodrigues, In Memoriam

 

Ayrton Senna: 27 anos de saudade


Hoje, dia 1 de Maio, passam 27 anos da morte de Ayrton Senna. Uma data que indica um dos dias mais tristes da história recente da F1. Tanta coisa foi já dita sobre Ayrton, tanta coisa já se escreveu sobre Ayrton, que por vezes se fica sem saber o que mais dizer.
Por isso, recuperámos um texto que, na sua versão original, nunca tinha sido publicado em papel. Valeu para quando foi escrito – no dia em que ele faria 50 anos. Vale o mesmo agora, publicado online.

Hélio Rodrigues, In memoriam

Ayrton Senna foi, é, o melhor piloto de todos os tempos. Dizem os que ainda hoje o adoram e os que continuam a detestá-lo. Os grandes homens têm destas coisas: são capazes de provocar paixões e ódios do mesmo tamanho. Ayrton Senna foi um destes Homens, com H grande. Ame-se ou odeie-se, o que ninguém pode desmentir é que Senna foi um mágico.
Amanhã passam 20 anos da sua morte, no GP de San Marino, na famigerada (e hoje inexistente) curva de Tamburello, em Imola. Não sei se Ayrton Senna foi mesmo mágico. Apenas falei com ele uma única vez, já lá vão mais de 20 anos, para lhe pedir uma entrevista.
Aconteceu no Estoril, num fim de tarde ventoso e fresco; ele tinha acabado de sair das boxes, eu estava no “paddock”, à sua espera. Ele apareceu, atirou com a porta (ou o vento fechou-a com demasiada força…) e encaminhou-se para a motor home da McLaren.
Abordei-o – nessa altura ainda era fácil chegar à fala com um piloto de F1, mesmo um do calibre de Senna – e pedi para falar com ele. Parou, olhou para mim e disse qualquer coisa que soou como “Cara, vai ter que esperar!”. Penso que nem sequer me viu – falou e desapareceu em dois saltos, dentro do camião. Depois de uma hora ao vento e cada vez mais enregelado, fui-me embora. Nunca mais falei com ele ou, sequer, fiquei alguma vez tão perto dele. Por isso, fiquei sem saber se ele era mesmo mágico. Talvez se falasse com ele, o olhasse nos olhos e ficasse a conhecê-lo melhor, percebesse isso. Assim, nunca consegui ter a certeza. Tinha, no entanto, outra certeza: era um piloto excecional, que todos gostaríamos de o ter visto desafiar, com armas idênticas, outros monstros sagrados, como o Michael Schumacher ou o Fernando Alonso!

Talento nato
Esta parte já toda a gente conhece: é uma breve história da carreira do Mágico, de vitória em vitória, até ao Olimpo dos Pilotos. Ayrton Senna
da Silva nasceu paulista, no bairro de Santana, filho de Milton da Silva, rico empresário e dono de terras. Na escola, Ayrton, que padecia de alguns problemas de coordenação motora, era bom aluno em ginástica, arte e química, mas não percebia muito bem as coisas da matemática e do… inglês. Um dia, tinha ele quatro anos, o pai deu-lhe um pequeno ‘kart’, feito por si e que tinha sido rejeitado pela sua filha mais velha, Viviane. O petiz adorou a experiência… e os seus problemas de coordenação desapareceram como por milagre.
Sensível ao precoce e inesperado dom do seu caçula, Milton da Silva acabou por ser o principal impulsionador da carreira de Ayrton. Carreira que, é claro, passou pelo exigente crivo que é a escola do karting – e passou com distinção: desde o início, o irrequieto Ayrton demonstrou a sua veia
de vencedor. Logo na sua primeira prova oficial, a 1 de Julho de 1973, humilhou os seus rivais, quase todos mais velhos e experientes: foi a sua primeira vitória oficial. No karting, Senna conquistou o título no Campeonato Sul-Americano, em 1977 e, em 1980, foi Vice-Campeão do Mundo.
Nesse ano, agradeceu todo o suporte ao seu pai e fez as malas para a Europa, com a sua jovem e recente esposa, Liliane Vasconcelos. Em
Inglaterra, alugou um bungalow próximo da pista de Snetterton e depressa se adaptou ao clima e aos monolugares, que descobriu então. E de tal forma essa adaptação foi conseguida, que venceu os campeonatos RAC e Townsend-Thoreson, de Fórmula Ford 1600, como piloto oficial da Van Diemen. Depois, regressou ao Brasil, cedendo às pressões da família mas, logo de seguida, voltou as costas ao Brasil, regressando à Europa. Aceitou um convite que lhe tinha sido feito por uma equipa para correr na Fórmula Ford 2000, mudou o nome para apenas Ayrton Senna (esquecendo o “da Silva”, que considerou demasiado comum…) e, nesse ano de 1982, sagrou-se Campeão britânico e europeu da categoria.
Em 1983, subiu mais um degrau, agora para a Fórmula 3, correndo com a West Surrey Racing. Após uma primeira parte da temporada em que
foi ele o dominador, encontrou em Martin Brundle um adversário à sua altura, com quem duelou até ao último capítulo, em Thruxton, de forma épica, conquistando aí o seu quinto título consecutivo na Europa, em três anos. No final da temporada, teve ainda tempo para vencer o Grande Prémio do Japão de Fórmula 3, sem dúvida a prova mais famosa e prestigiada dessa modalidade. E foi aqui que deu o seu definitivo passo rumo à F1.

Finalmente, a F1!
Depois de um primeiro teste com um Williams, e de ter atraído também as atenções da McLaren, Ayrton Senna chegou a ser dado como certo na Brabham, ao lado do seu compatriota – e futuro rival… pessoal – Nelson Piquet. Porém, este teve a última palavra na escolha do colega de equipa e Senna viu-se constrangido a aceitar um lugar na mediana Toleman, substituindo Derek Warwick.
Senna pontuou logo na sua segunda corrida e, no Mónaco, prova que quase ganhou, começou a construir a sua reputação de piloto imbatível à chuva. No final de 1984, assinou com a Lotus e ganhou o seu primeiro Grande Prémio precisamente à chuva, no Estoril. Três anos com a equipa
inglesa permitiram-lhe perceber que não era a solução ideal para chegar ao título de Campeão do Mundo. Por isso, em 1988 passou-se com armas e uma bagagem de enorme talento para a McLaren, onde conquistou no final o primeiro dos seus três títulos.
Rapidíssimo nas qualificações, ficou célebre a forma como geria o tempo e os nervos, arrancando para a pista mesmo nos últimos instantes, para fazer então uma volta-canhão, que nenhum adversário conseguiria depois bater.
Na McLaren, veio ao de cima a sua personalidade forte e a sua apetência para as lutas de caráter. Para ele, a vitória era o único objetivo. As suas lutas na pista e as picardias fora dela com o seu colega de equipa, Alain Prost, ainda hoje fazem parte da lenda da F1. Em 1990 e 1991 conquistou mais dois títulos de Campeão do Mundo, mas depois teve que se inclinar à supremacia da Williams nos dois anos seguintes.
Desiludido com a incapacidade da equipa de Ron Dennis em lhe permitir continuar a lutar pelo título, Ayrton assinou no final do ano um contrato
com sir Frank Williams, o mesmo que lhe bateu com a porta na cara 10 anos antes, depois de um teste prometedor. 1994 não começou da melhor forma: sem pontuar nas duas primeiras provas, Senna chegou a Imola em branco, enquanto o seu principal rival de então (Prost abandonou a atividade no final da temporada de 1993), Michael Schumacher, levava já duas vitórias de avanço.
Por isso, era forçoso um bom resultado em San Marino – Senna seguia na frente, quando a barra da direção do Williams se quebrou e o atirou, sem hipótese de correção, contra o cimento do muro de Tamburello. Foi fim da linha para o homem e o início da lenda para Ayrton Senna.
Em resumo de uma carreira excecional, as estatísticas são mais simples de relatar: participou em 161 Grandes Prémios, durante 11 temporadas
(GP do Brasil de 1984 ao GP de San Marino de 1994); conquistou por três vezes o título de Campeão do Mundo, sempre com a McLaren (1988, 1990 e 1991); venceu 41 Grandes Prémios (o primeiro foi o GP de Portugal de 1985, o último, o GP da Austrália de 1993); subiu por 80 vezes ao pódio; rubricou 65 Pole Positions (recorde que ainda hoje se mantém) e 19 melhores voltas em corrida. E pronto: da frieza dos números estamos conversados. É que é preciso não esquecer que, por trás deles, está sempre um homem – neste caso, de seu nome Ayrton Senna, o Mágico.

Nome: AYRTON SENNA da Silva
Nascimento: 21 de Março de 1960 (São Paulo)
Falecimento: 1 de Maio de 1994 (Bologna, Italia)
Causa da morte: Ferimentos provocados por acidente durante o GP de San Marino de F1, na pista de Imola
Atividade na F1: 25/03/1984-01/05/1994
Primeiro GP F1: GP Brasil 1984
Último GP F1: G San Marino 1994
GP disputados: 162 (161 largadas)
Vitórias: 41
1ª Vitória: GP Portugal 1985
Última vitória: GP Austrália 1993
Pole Positions: 65
Melhores voltas em corrida: 19
Pódios: 80
Pontos: 610 (614)
Títulos F1: 3 (1988, 1990, 1991)
Marcas/Equipas: Toleman (1984); Lotus (1985-1987);
McLaren (1988-1993); Williams (1994)

PALMARÉS F1
1984 – Toleman: 15 GP; 1 NQ. 9º CM, 13 pontos
1985 – Lotus: 16 GP (2 vitórias). 4º CM, 38 pontos
1986 – Lotus: 16 GP (2 vitórias). 4º CM, 55 pontos
1987 – Lotus: 16 GP (2 vitórias). 3º CM, 57 pontos
1988 – McLaren: 16 GP (8 vitórias). 1º CM, 90 (94)
pontos
1989 – McLaren: 16 GP (6 vitórias). 2º CM, 60 pontos
1990 – McLaren: 16 GP (6 vitórias). 1º CM, 78 pontos
1991 – McLaren: 16 GP (7 vitórias). 1º CM, 96 pontos
1992 – McLaren: 16 GP (3 vitórias). 4º CM, 50 pontos
1993 – McLaren: 16 GP (5 vitórias). 2º CM, 73 pontos
1994 – Williams: 3 GP. Não pontuou

Os 13 títulos de Senna

Hércules teve 12 trabalhos a fazer para se redimir do mal que fez e ser elevado à condição divina. Senna teve 13 títulos e foi também com eles
que entrou na mesma imortalidade
1974 – Campeão paulista (Karting, categoria Júnior)
1976 – Campeão paulista (Karting, 100cc)
1977 – Campeão sul-americano (Karting, 1ª categoria)
1978 – Campeão brasileiro (Karting, 1ª categoria)
1980 – Campeão brasileiro (Karting, 1ª categoria)
1981 – Campeão Townsend-Thoresen e Campeão RAC Fórmula Ford 1600
(Inglaterra, 12 vitórias)
1982 – Campeão britânico de Fórmula Ford 2000 (14 vitórias);
Campeão da Europa de Fórmula Ford 2000 (6 vitórias)
1983 – Campeão britânico de F3 (12 vitórias)
1988 – Campeão do Mundo de F1 (8 vitórias)
1990 – Campeão do Mundo de F1 (6 vitórias)
1991 – Campeão do Mundo de F1 (7 vitórias)