O antigo campeão mundial de Fórmula 1, Damon Hill, revelou no Podcast Circuit Stories, o impacto profundo das tragédias pessoais e profissionais que marcaram a sua trajetória no desporto automóvel. Cinquenta anos após o acidente aéreo que vitimou o seu pai, Graham Hill, o ex-piloto britânico abordou o fardo do apelido familiar, a morte do colega de equipa Ayrton Senna e a rivalidade com Michael Schumacher, assumindo que a sua maior vitória não aconteceu nas pistas, mas sim na procura de paz interior.
A acidente que destruiu o legado familiar
A vida de Damon Hill mudou radicalmente a 29 de novembro de 1975, quando o avião pilotado pelo seu pai, duas vezes campeão mundial, se despenhou nos arredores de Londres devido ao nevoeiro denso, vitimando também cinco membros da sua equipa de corrida. Hill tinha apenas 15 anos.
“A herança do meu pai não estava devidamente segurada e as licenças de voo tinham caducado. Os advogados vieram e, lentamente, levaram quase tudo o que tínhamos. Vivíamos numa casa com 25 divisões; em poucos anos, esse mundo desapareceu, simplesmente. Fui questionado numa repartição sobre o meu pai morto. Foi o dia em que deixei de ser o filho de Graham Hill e comecei a tentar ser outra pessoa”, recordou Damon Hill.
O britânico revelou que o automobilismo nunca foi o seu sonho de infância: “Comecei nas motos em 1981 e, para pagar as corridas, trabalhava nas obras e como estafeta em Londres, a entregar pacotes à chuva. Esse era o meu paddock.”
A transição para os automóveis aconteceu por insistência da mãe, que temia as duas rodas. Hill estreou-se na Fórmula 1 já na casa dos 30 anos, carregando no capacete o design de remos do clube de regatas do pai: “Sempre que punha o capacete, via aquele desenho. Não estava a perseguir um sonho de infância; estava a perseguir um fantasma. O rival mais difícil nunca esteve na grelha: era o meu próprio apelido.”
A liderança forçada após a morte de Ayrton Senna
Após ingressar na Williams como piloto de testes, Hill garantiu um lugar oficial em 1993 e conquistou a primeira vitória na Hungria. Contudo, a época de 1994 colocou-o ao lado de Ayrton Senna, cujo acidente fatal em Ímola transformou a estrutura da equipa: “O Senna era a esperança de milhões. Quando ele partiu, percebi algo aterrador: o mestre tinha ido e eu era o único que restava. Da noite para o dia, passei de um número dois discreto a única esperança da maior equipa do desporto”, sublinhou.
A nível financeiro, Hill sentiu-se desvalorizado pelo construtor: “A equipa trouxe um nome maior a meio da época e pagou-lhe cerca de 900 mil libras por uma única corrida. Eu recebia 300 mil libras pelo ano inteiro. Às vezes a tragédia não te tira a vida, entrega-te um peso que nunca foi teu para carregar.”
A rivalidade com Schumacher e a demissão surpresa
A disputa pelo título intensificou-se com Michael Schumacher, culminando em colisões polémicas em 1994, em Adelaide, e em 1995, em Silverstone. Hill acabou por se sagrar campeão mundial em 1996, tornando-se o primeiro filho de um campeão a repetir o feito do progenitor, mas a Williams decidiu prescindir dos seus serviços antes do término do campeonato.
“As pessoas queriam que eu o odiasse, mas eu não conseguia. Eu sabia que não era tão bom como ele. Anos mais tarde, tentei falar com ele sobre os nossos acidentes e ele simplesmente não conseguia admitir que errou. Naquele momento percebi: é exatamente por isso que ele é o campeão e eu não, porque eu sempre soube quando errava”, explicou Hill.
O desfecho na Williams deixou mágoa: “O mundo finalmente chamava-me Damon e a Williams já não precisava de mim. Fui informado de que estava fora no próprio ano em que ganhei tudo. Disseram-me que ia sair como campeão do mundo e sem emprego. Nenhum desfile, nenhum agradecimento. Apenas uma decisão tomada numa sala de reuniões.”
Aos 36 anos, Hill percebeu que o troféu não curaria as feridas do passado: “Aquela fúria moveu-me por vinte anos, mas nunca me fez feliz. Pousei o capacete. Já não sou o filho de Graham Hill, nem apenas o campeão Damon Hill. Sou simplesmente o Damon. O mundo lembra-se de mim como campeão mundial; eu lembro-me de mim como um rapaz que passou a vida inteira a tentar fazer as pazes com uma noite de nevoeiro em novembro de 1975. Encontrar essa paz foi a maior vitória da minha vida”, concluiu.
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