Foi a 7 de dezembro de 1986 que o desporto automóvel viu extinguir-se a sua espécie mais fascinante e letal: os Super Grupo B. Para quem viveu a era dourada dos ralis por dentro, é impossível apagar da memória o som ensurdecedor dos motores sobrealimentados a rasgar as serras, a audácia ímpar dos pilotos e a poeira levantada por máquinas que desafiavam os limites da física. Quatro décadas passadas sobre a abolição destes ‘monstros sagrados’, a saudade divide-se. Como descreve quem acompanhou a epopeia bem de perto, é “uma memória que uma parte de mim quer guardar e outra, por razões óbvias, esquecer”.

A genialidade cega da engenharia mecânica
O ano de 1986 marcou o apogeu de uma escalada tecnológica sem precedentes. Sete marcas oficiais — Peugeot, Lancia, Audi, Ford, MG, Citroën e Renault — atiraram-se a um braço de ferro de engenharia sem rede de segurança. Nasceram lendas como o vitorioso e equilibrado Peugeot 205 Turbo 16 E2, o dramático Lancia Delta S4 com o seu engenhoso motor Abarth, e o impressionante Audi Sport Quattro S1, com a sua inconfundível carroçaria em kevlar e aerodinâmica extrema.
Falamos de automóveis cujas potências oscilavam entre os 400 e os 600 cavalos-vapor, capazes de acelerações brutais que, em linha reta, fariam frente aos WRC dos nossos dias. Bom, na verdade se a aura selvagem e brutal dos míticos Grupo B de 1986 os eternizou na memória como os verdadeiros monstros dos ralis, o avanço implacável da tecnologia encarregou-se de provar que a saudade não vence cronómetros, com a eficácia assombrosa e cirúrgica da atual geração Rally1 a deixar essa força de outrora irremediavelmente para trás, perdida no pó e no tempo.

O rasto de pólvora em Portugal
Em solo nacional, o expoente máximo desta brutalidade foi o Ford RS200 da equipa Diabolique. Joaquim Santos, protagonista do fatídico despiste no Rali de Portugal desse ano negro, não esconde o temperamento indomável da sua montada, menos evoluída que as oficiais, mas igualmente temível: “O nosso RS200 era praticamente de série (…). Mas, mesmo assim, já devia chegar aos 500 cv. Era um carro fantástico, mas muitíssimo violento e difícil de guiar”, disse, Joaquim Santos, na altura.
A força irracional destas máquinas deixava pouco espaço para a técnica pura. “A sua aceleração era tão grande que não se conseguia fazer trajetórias limpas. Só dava tempo para acelerar e travar porque o carro, infelizmente, não curvava”, recordou o piloto português. A prova cabal desta desproporção surgiu no ano seguinte: já ao volante de um dócil e bem menos potente Toyota Celica GT-4 de Grupo A, Joaquim Santos bateu quase todos os recordes que havia estabelecido com o indomável Grupo B no Rali Alto Tâmega.

O preço demasiado alto da emoção
As marcas, toldadas pela necessidade de rentabilizar os astronómicos investimentos de desenvolvimento, ignoraram sistematicamente os sinais de alerta. O grave acidente de Ari Vatanen na Argentina em 1985 foi apenas o prelúdio da tempestade. O ano da despedida trouxe o desastre de Marc Surer na Alemanha, o luto de Joaquim Santos em Sintra e, no golpe final de misericórdia, a tragédia de Henri Toivonen e Sergio Cresto na Volta à Córsega.
A abolição surgiu não como uma escolha, mas como um imperativo de sobrevivência. O preço a pagar por tanta emoção revelou-se fatalmente alto. Hoje, 30 anos depois, o legado dos Super Grupo B vive intocável na lenda automobilística, recordando-nos de uma época efémera em que os heróis dos ralis domavam feras rápidas demais para o mundo dos mortais.

Quatro décadas volvidas sobre o silenciar dos motores mais loucos da história, o Mundial de Ralis (WRC) encontra-se, uma vez mais, perante uma encruzilhada tecnológica existencial. Se os Grupo B tombaram vítimas da sua própria desmesura e da trágica ausência de limites, o desporto automóvel enfrenta hoje o desafio diametralmente oposto.
À medida que a indústria aponta inequivocamente para a descarbonização — seja através da evolução híbrida, dos combustíveis 100% sintéticos ou de uma eventual eletrificação total —, a urgência da sustentabilidade corre o risco de tornar a competição demasiado assética, perfeitamente domada por algoritmos e regulamentos castradores.
O sangue e a cinza deixados pela ‘era de ouro’ servem, assim, como um aviso e uma bússola para o que aí vem.
O derradeiro triunfo das futuras gerações de máquinas não será medido apenas pelas emissões neutras ou pela eficácia cirúrgica com que devoram os troços, mas pela sua capacidade de reacender a paixão nas bermas das estradas. O verdadeiro desafio do futuro dos ralis será encontrar o equilíbrio perfeito: recuperar o arrepio visceral e a magia de ver um automóvel a desafiar o impossível, garantindo, desta vez, que os heróis regressam todos a casa.











