A F1 ainda não cancelou os Grandes Prémios do Catar (29 de novembro) e de Abu Dhabi (6 de dezembro), que continuam oficialmente no calendário de 2026, e uma das razões-chave é precisamente a resistência dos próprios organizadores, que insistem em realizar as corridas. Mas a explicação vai além disso — no fundo, trata-se de um braço-de-ferro sobre quem “paga a conta” caso os eventos caiam.
O contexto: a guerra no Médio Oriente
Os conflitos no Médio Oriente, iniciados em fevereiro de 2026, já provocaram o cancelamento dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita e colocaram sob dúvida as duas últimas etapas da temporada. O Bahrein acabou por ser “deslocado” para Sepang, na Malásia, num arranjo em que o promotor basicamente aluga o circuito para que tanto ele como a F1 cumpram as obrigações contratuais.
Por que a F1 não cancela: a questão financeira
O motivo central do impasse é contratual e financeiro, gira em torno das taxas de sanção (sanctioning fees).
Quando é o promotor a cancelar, é ele quem fica a perder, pois o contrato obriga-o a pagar a taxa à F1 na mesma.
Quando é a F1 (detentora dos direitos comerciais) a cancelar unilateralmente, é ela que perde essas receitas, a menos que consiga provar que fatores previstos no contrato impediram a realização.
As taxas do Catar e de Abu Dhabi foram reportadas em cerca de 55 milhões e 40 milhões de dólares por ano respetivamente, embora estes valores sejam considerados especulativos — mas as somas são certamente significativas.
Segundo o The Times (Reino Unido), a F1 adiou a decisão precisamente por receio de que cancelar preventivamente lhe “custe financeiramente”, esperando antes que sejam os próprios organizadores do Catar e de Abu Dhabi a cancelar.
A resistência dos organizadores
É aqui que entra a ‘insurgência’. Durante o fim de semana do GP de Itália soube-se que a F1 enfrentou forte resistência do Catar e de Abu Dhabi ao cancelamento das suas provas. A posição deles é de que é tudo “tudo como dantes”, alegando que não são alvo do Irão há vários meses.
E há sinais dessa determinação. O promotor do GP do Catar declarou que “o Catar está seguro há meses” e que a vida “voltou ao normal”, com preparações a decorrer para receber F1 e MotoGP em novembro.
Abu Dhabi chegou a anunciar concertos com Zara Larsson, The Script, Imagine Dragons e Lewis Capaldi (embora Larsson tenha depois dito nas redes sociais que não iria).
Os bilhetes para ambas as provas estão esgotados, algo que Domenicali destacou como “sinal de que o desporto é maior do que o problema”.
A posição da FIA e da F1
Tanto a FIA como a Formula One Management têm mantido o cenário em aberto, apesar de elaborarem planos de contingência nos bastidores.
Stefano Domenicali (CEO da F1) disse em julho que a decisão não seria tomada “antes de meados de setembro” e que, para já, as corridas estão confirmadas; entretanto, reiterou a intenção de manter o calendário programado.
Mohammed Ben Sulayem (presidente da FIA) afirmou que “não vamos precipitar-nos”, colocando a segurança de pilotos, equipas e funcionários como prioridade e dizendo que a entidade seguirá as orientações de governos e promotores locais.
O plano B: Imola
Caso as provas sejam mesmo canceladas, a principal alternativa é Ímola, em Itália, para sediar o final da temporada. Esta necessidade é também contratual: sem Catar e Abu Dhabi, a F1 ficaria com 21 corridas, mas pelo menos um contrato de transmissão exige 22 provas. Os hotéis na zona de Ímola estão quase esgotados para o fim de semana que seria de Abu Dhabi. Um duplo GP em Las Vegas foi descartado, entre outras razões por coincidir com o Dia de Ação de Graças.
O fator logístico e o desfecho provável
Há uma pressão prática crescente: na sua meta de zero emissões líquidas até 2030, a F1 transporta muito equipamento por via marítima, com prazos mais longos, e a carga teria de passar pelo Estreito de Ormuz — um ponto de estrangulamento que abre e fecha conforme as hostilidades entre Irão e EUA. Manter as corridas obrigaria a mais transporte aéreo, mais caro e poluente.
Ainda assim, o sentido atual das notícias é de que o risco de cancelamento está a diminuir. Os avisos oficiais de viagem do Reino Unido e dos EUA recomendam cautela, mas não proíbem viajar (o que é relevante para a cobertura de seguros das equipas). A especulação aponta agora para uma decisão no início de outubro, depois do GP do Azerbaijão. Como sinal adicional de continuidade regional, a F1 já divulgou o calendário de 2027 com quatro etapas no Médio Oriente.
Em resumo: não é indecisão pura — é um braço-de-ferro em que a F1 quer evitar ser ela a cancelar (e perder as taxas), os promotores insistem que está tudo normal, e a balança, por agora, parece pender para as corridas se realizarem. O que quase certamente não vai acontecer, porque ninguém nas equipas vai querer lá ir.
Simplesmente, os “homens da massa” dos dois lados estão a vir “quem pisca os olhos” primeiro…










