George Russell poderá ter de se despedir prematuramente das suas aspirações ao título. As ordens de equipa no GP dos Países Baixos 2026 foram minimizadas, mas podem revelar uma mudança radical na postura da Mercedes, evidenciando receios de uma segunda metade de época mais difícil para as Flechas de Prata.
George Russell começou o ano com um monolugar dominante, no qual se sentia confortável, evidenciando uma rapidez assinalável. Parecia que, finalmente, o talento britânico teria a sua oportunidade de lutar pelo título. O sonho estava agora mais próximo, depois de uma carreira construída a pulso, com trabalho diligente, foco e uma vontade inabalável de chegar ao topo. Russell sempre mostrou ser um piloto de equipa grande. A sua postura e o seu discurso, mesmo nos primeiros anos na Williams, revelavam um jovem pronto para as exigências dentro e fora de pista. Nos três anos que passou na Williams, teve de se contentar com migalhas, a bordo de um monolugar pouco competitivo. Foi despachando a concorrência interna com facilidade e, quando a Mercedes lhe abriu uma oportunidade, no GP de Sakhir de 2020, Russell agarrou-a com as duas mãos, mesmo com todo o desconforto de pilotar o carro feito para outro colega (Lewis Hamilton), com menos 11 centímetros de altura. A vitória, nesse dia, teria sido inteiramente justa, mas um furo e um erro da equipa nas boxes arruinaram o que podia ter sido uma noite de sonho.
Battling for every point, the fight continues ⚔️ pic.twitter.com/2ofZFaoS7r
— Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team (@MercedesAMGF1) August 24, 2026
Um sonho adiado por Kimi Antonelli?
A subida definitiva à Mercedes chegou um ano depois, já numa altura em que a equipa tinha deixado de lutar por títulos, com a mudança regulamentar de 2022 a afastar a estrutura germânica do topo. Ainda assim, Russell conseguiu igualar e superar o desempenho da referência, Hamilton, e provou que podia ser o número 1. Esperou pacientemente pela sua oportunidade. Mas, quando ela chegou, chegou também Kimi Antonelli.
O jovem italiano leva 50% das vitórias desta época — seis triunfos em 12 corridas — e tem 59 pontos de vantagem sobre Russell e Hamilton. O prodígio italiano encadeou uma impressionante série de cinco vitórias consecutivas, enquanto o colega de equipa foi acumulando azares e revelando o peso da pressão, admitindo a certo ponto que estava algo perdido e que não sabia a razão da diferença de ritmo. Do GP da Catalunha ao GP da Grã-Bretanha houve uma reaproximação, e a candidatura de Russell ao título reacendeu-se, com a equipa a permitir as lutas em pista, desde que os contactos fossem evitados. Mas a desistência em Spa deu novo fôlego a Antonelli e tirou algum ar a Russell.

Ordens de equipa podem definir o resto da temporada
Após as férias de verão, os primeiros sinais de Russell pareciam animadores: pole position e vitória na corrida sprint, e um ritmo até superior ao de Antonelli. Mas, no GP de domingo, aconteceu algo que pode definir o resto da temporada: uma ordem de equipa para deixar passar Antonelli, acatada de imediato.
O episódio teve origem numa divisão de estratégias entre os dois pilotos da Mercedes. Antonelli, que estava à frente de Russell antes do VSC, foi chamado às boxes para calçar um conjunto de pneus macios, enquanto Russell permaneceu em pista com pneus mais usados — uma decisão que promoveu temporariamente o britânico ao segundo lugar, atrás apenas do líder da corrida, Lando Norris. Com Antonelli a regressar à pista atrás de Russell, mas com pneus significativamente mais frescos, a Mercedes optou por inverter a ordem dos seus carros, instruindo Russell a deixar o jovem companheiro de equipa passar. O italiano, de 19 anos, aproveitou depois a sua vantagem de ritmo para garantir o segundo lugar, terminando 4,370 segundos à frente de Russell na linha de meta. Ambos terminaram no pódio numa excelente operação da equipa.
On the podium and in the points, together 😍 pic.twitter.com/IrCH4bbKBF
— Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team (@MercedesAMGF1) August 23, 2026
A lógica da aceitação da ordem
Depois da corrida, Russell explicou que a decisão resultou diretamente da política interna já estabelecida pela Mercedes para situações de estratégias divididas entre os seus pilotos: “Sempre dissemos, como equipa, que, quando estamos em estratégias diferentes, nunca vamos lutar entre nós e vamos sempre inverter as posições, e essa tem sempre sido a nossa espécie de regra.” O piloto britânico justificou ainda a decisão com o contexto criado pela paragem de Antonelli antes do VSC, numa manobra que classificou como semelhante à realizada pela Ferrari: “O facto é que o Kimi estava à minha frente antes do VSC e ele tentou algo diferente para nos proteger como equipa. Ele basicamente copiou o que a Ferrari fez.”
Russell reconheceu ainda a possibilidade de ter mantido a posição, mas sublinhou os riscos dessa alternativa, concluindo que o resultado final foi justo para ambos: “Poderia tê-lo mantido atrás de mim? Talvez. Mas também podia ter acabado em quinto lugar. Por isso, no final, ele mereceu ser segundo. Penso que o terceiro lugar foi um resultado justo para mim e, sim, é uma longa temporada.”
A teoria de Guenther Steiner
A decisão de Russell é lógica: as estratégias distintas eram claras, e tentar segurar Antonelli iria prejudicar a sua própria corrida, a do colega de equipa e, por conseguinte, a da sua estrutura. Russell é demasiado inteligente para cair nesse tipo de erros. Ainda assim, não seria surpreendente vê-lo apresentar uma queixa ou questionar a estratégia. Nem uma palavra. Segundo Guenther Steiner, isso pode ter um motivo simples:
“Não diria que lhe disseram para ser o piloto número dois [durante a pausa de verão]”, afirmou Steiner no podcast Red Flags. “Disseram-lhe: ‘Agora estás aqui para apoiar o Kimi’. Não lhe chamaria piloto número dois, mas sim: ‘Tens de apoiar o Kimi para ganhar o campeonato do mundo — esta é a tua missão para esta época’. Acho que foi isso que aconteceu. Se queres ganhar, é isto que tens de fazer.”

Os receios da Mercedes podem “congelar” a ordem interna
Nem sempre as teorias de Steiner fazem sentido, mas, neste caso, há um elemento que pode corroborar a ideia do antigo diretor da Haas. E esse elemento vem do discurso de Toto Wolff. Desde cedo na temporada que o chefe da Mercedes parecia preocupado com o ritmo de evolução da Ferrari. Essa preocupação engloba agora também a McLaren e estará relacionada com o limite orçamental.
“Não temos dinheiro para colocar desenvolvimentos no carro”, disse Wolff no fim de semana passado. “E já disse isto antes: estamos a tentar distribuí-los de forma equilibrada ao longo da temporada, com base nos nossos cálculos sobre quando podemos trazer as maiores atualizações e otimizar os pontos no campeonato. Mas só podemos fazer aquilo que é possível. E é por isso que isto é uma corrida de desenvolvimento. Se trazes uma atualização, cada uma das equipas de topo vai ganhar, pelo menos, algumas décimas com isso — e é isso que perdes. Por isso, sim, o percurso tem sido um pouco mais difícil do que no início do ano.” Wolff acrescentou ainda: “Vão ver, perto do final do ano, se eles conseguem implementar tanto material no carro como fazem agora. Alguém pode ter uma estratégia diferente, gastando mais no início e a meio da época do que perto do final.”
A Mercedes teme que a Ferrari ou a McLaren (ou até mesmo a Red Bull) continuem a disparar atualizações que as aproximem do seu ritmo, numa altura em que os Flechas de Prata têm o seu “carregador” praticamente vazio. E talvez por isso a teoria de Steiner faça sentido: a Mercedes começa a apostar tudo em Antonelli, à medida que a concorrência parece ficar cada vez mais forte.

Os sinais de preocupação foram visíveis
Nico Rosberg, campeão do mundo de F1 em 2016, mostrou-se profundamente impressionado com o que viu de Norris, considerando que a Mercedes terá motivos para ficar preocupada. Em declarações à Sky Sports F1, o antigo piloto alemão comparou diretamente o ritmo de Norris com o de Russell numa situação semelhante: “O ritmo do Lando naqueles pneus duros… ele era sete ou oito décimas por volta mais rápido do que o George [Russell] numa situação semelhante.” Rosberg destacou ainda a qualidade do desempenho do britânico da McLaren: “O Lando estava a voar. Foi inacreditável a velocidade. A Mercedes vai ficar preocupada agora com este ritmo da McLaren, porque eles são agora a equipa a bater e têm estado a desenvolver aquele carro mais depressa do que qualquer outra equipa.” O antigo piloto concluiu com um aviso direto sobre o que poderá vir a seguir: “Isto pode ser um final de temporada realmente difícil para a Mercedes. Pode mesmo ser.”
Não podemos afirmar, prematuramente, que Russell vai assumir o papel de número 2 para o resto da temporada. Mas começam a surgir sinais que podem confirmar a teoria. E, se eles se repetirem, poderemos ter a confirmação de que a Mercedes está preocupada com a aproximação da concorrência e de que Russell terá de esquecer o sonho do título nesta temporada.
Fotos MPSA










