Com quatro das nove etapas do calendário já cumpridas — e considerando que os ralis de Lisboa e Castelo Branco eram opcionais, contando apenas um deles para a pontuação —, o Campeonato de Portugal de Ralis (CPR) apresenta uma hierarquia bem definida no topo. O açoriano Rúben Rodrigues lidera a classificação Absoluta, enquanto João Rodrigues se destaca nas Duas Rodas Motrizes. Este início de época tem sido marcado por estreias vitoriosas, intensa competitividade e um confronto geracional profundo, como há muito não se via no CPR.
Após as quatro primeiras provas — Rali Terras d’Aboboreira, Vodafone Rally de Portugal, Rally de Lisboa e Rali de Castelo Branco e Vila Velha de Ródão —, o Campeonato de Portugal de Ralis (CPR) entra numa fase de decisiva consolidação. Rúben Rodrigues (Toyota GR Yaris Rally2) assume o comando isolado da classificação absoluta com 80 pontos, resultado de três triunfos e uma consistência notável.
Evolução e desempenho dos pilotos
A época de 2026 arrancou sob o signo da renovação geracional e da afirmação de novos valores nos carros de categoria máxima, os RC2 (Rally2). A tabela classificativa absoluta reflete claramente o percurso e as incidências de cada protagonista até ao momento, evidenciando o excelente momento do líder do campeonato, que já possui uma vantagem significativa. Na antevisão do ano, Rúben Rodrigues era cotado entre os favoritos, mas poucos acreditavam que pudesse dominar o CPR como tem vindo a fazer.
Nesse contexto, Rúben Rodrigues, com 80 pontos, é líder incontestável. Estreou-se a vencer na abertura no Rali Terras d’Aboboreira, impôs-se com classe no Rali de Portugal e voltou a triunfar em Castelo Branco. Demonstra muita rapidez, grande maturidade e eficácia ao volante do Toyota GR Yaris Rally2. Inclusive na prova que não escolheu para pontuar, o Rally de Lisboa, lutou pelo triunfo, e nas restantes três, venceu-as todas. Tem pela frente o Rali da Madeira, que será mais desafiante para si, mas se não perder pontos significativos para a concorrência, o campeonato estará ao seu alcance.
Pedro Almeida, com 64 pontos, tem sido a principal “sombra” do líder. Venceu uma emocionante edição do Rally de Lisboa por apenas um segundo e, com dois pódios (terceiros lugares) na Aboboreira e no Rali de Portugal, ocupa o segundo lugar no campeonato. Considerando o grupo de pilotos que o persegue, está a ter um desempenho acima do esperado, fruto de uma excelente adaptação ao Toyota Yaris Rally2, o que o coloca também na rota do título.

José Pedro Fontes é terceiro com 48 pontos. Ao devolver a mítica marca Lancia aos ralis portugueses com o Ypsilon Rally2 HF Integrale, tem alcançado exibições muito consistentes e pódios importantes, confirmando a competitividade do projeto italiano. Contudo, como é expectável, um carro novo exige adaptação e aprendizagem, processo que está a ser gerido pela sua equipa, a Sports & You. O Rali da Madeira, onde venceu há dez anos, será uma boa bitola para o que poderá fazer até ao final do ano, quando ainda faltam, depois da “Pérola do Atlântico”, duas provas de asfalto e duas de terra.
Gonçalo Henriques é quarto com 46 pontos. Promovido à estrutura oficial da Hyundai, o jovem piloto tem-se destacado, com um brilhante segundo lugar no Rally de Portugal e mostrando grande rapidez, apesar de alguns percalços pontuais. Sem o cancelamento de um troço no Rali de Portugal, teria provavelmente lutado pela vitória; contudo, foram os pequenos percalços nas outras provas — Aboboreira e Lisboa — que o impediram de estar mais à frente na competição.
Pedro Meireles é quinto, soma 41 pontos e tem tido ralis muito regulares, com algumas oscilações, mas uma notável consistência de um piloto muito experiente. Isto prova-se com dois quintos e um quarto lugar numa concorrência onde muitos poderiam estar à sua frente, mas não estão. Sempre regular e competitivo com o Skoda Fabia RS Rally2, tem sabido tirar partido de todas as oportunidades para pontuar fortemente e manter-se no topo da tabela.

Armindo Araújo soma 39 pontos e está a ter uma época abaixo das expectativas. O heptacampeão nacional enfrenta uma época aquém das suas capacidades. É verdade que tem tido alguns azares mecânicos, tais como o problema elétrico no troço de Mortágua, no Rali de Portugal (onde era forte candidato à vitória), que condicionaram a sua pontuação. No entanto, também começou mal na Aboboreira e teve dificuldades no Rally de Lisboa, com falta de ritmo para lutar mais à frente. Na Madeira não tem conseguido ser brilhante, mas é um ótimo rali para começar a mudar o rumo da sua época.
Ricardo Teodósio tem os mesmos 39 pontos, e o melhor que conseguiu até aqui foi um quarto lugar no Rali de Lisboa. Mais uma vez trocou de carro, e agora, na transição para o Citroen C3 Rally2, o tricampeão nacional tem vindo a afinar a sintonia com a nova máquina, somando pontos preciosos e aproximando-se progressivamente dos lugares cimeiros. Mesmo com a troca, está a fazer uma época ligeiramente abaixo do ano passado com o Toyota, o que sugere que o piloto está a extrair o máximo de um carro que, talvez, não esteja ao nível do anterior.
Os números de Hugo Lopes no CPR 2026 não correspondem ao seu andamento. Por exemplo, no Rali Terras d’Aboboreira, Hugo Lopes vencia troços e lutava na frente, mas os números do campeonato mostram um sétimo lugar no Rali de Portugal e abandonos ou más classificações nas outras duas provas. No Rali de Portugal afirmou ter “Acordado tarde demais”, e no Rally de Lisboa, foi o mais rápido no Shakedown, mas na prova, um novo abandono, tendo declarado que “podíamos lutar pela vitória”. Em suma, o seu ritmo de prova não se tem traduzido em resultados consistentes.
Segue-se Diogo Marujo com 24 pontos. Integrado na nova vaga de jovens talentos em viaturas Skoda, tem evidenciado uma evolução notável e segura, rondando com frequência os lugares de destaque.
João Barros soma 22 pontos e, com participações calculadas e um excelente segundo lugar absoluto conquistado em Castelo Branco ao volante do Skoda Fabia RS Rally2, confirmou toda a sua valia.
A fechar o top 10 do CPR está Henrique Moniz, que se estreou este ano no CPR na categoria RC2. Tem vindo a fazer uma boa evolução, como demonstrou o sexto lugar em Castelo Branco, mas nas provas com todo o plantel, ronda o top 10. Aqui e ali mostra bom andamento, mas, como ele diz, “estes carros exigem fazer muitos quilómetros para se tirar maior partido deles”.
Ricardo Sousa esteve surpreendente e audaz em Castelo Branco, onde alcançou um brilhante pódio com o Citroen C3 Rally2, compensando contratempos anteriores. Guilherme Meireles, este ano com um Skoda, começou com alguma tensão na Aboboreira, mas melhorou bastante no segundo dia. Teve mais dificuldades em Lisboa, uma prova e um tipo de carro (asfalto) que lhe eram desconhecidos, mas terá de passar por este processo, pois o salto dos 2RM para os Rally2 é enorme.
Perspetivas para a segunda metade da época
Com quatro provas cumpridas e cinco pela frente, o Campeonato de Portugal de Ralis entra na Madeira numa fase importante. Lá na frente, os perseguidores de Rúben Rodrigues terão, na Madeira, de encurtar a distância para o açoriano, sob pena de o campeonato ficar praticamente entregue.
Pedro Almeida, que não compete na Madeira desde 2022, deverá enfrentar dificuldades para lutar pela liderança.
Já José Pedro Fontes e Armindo Araújo têm condições, e mesmo a obrigação, de superar Rúben Rodrigues.
Ricardo Teodósio nunca teve na Madeira um rali fantástico para si, e Gonçalo Henriques só correu de Renault Clio Rally4, pelo que será provavelmente uma prova difícil para si. Hugo Lopes, pode na Madeira inverter o rumo da sua época, pois marcou presença com o Hyundai no ano passado na prova insular e teve um bom desempenho.
Portanto, Rúben Rodrigues ocupa uma posição de conforto na liderança, e se os perseguidores voltarem a não ter argumentos para o suplantar numa prova como a Madeira, então o campeonato estará praticamente decidido, não matematicamente, mas se a lógica prevalecer. Por isso, este Rali da Madeira vai ser tão interessante para as contas do CPR: mais do mesmo, ou a “revolta” dos principais candidatos, antes que a realidade se imponha!
O Campeonato está longe de estar resolvido, mas não são só as três vitórias de Rúben Rodrigues; é também o facto de haver grande equilíbrio entre os seus perseguidores, o que tem fragmentado (e provavelmente continuará a fragmentar) os pontos entre eles. Isso significa que as contas para o açoriano dificilmente se tornarão muito stressantes. Mas não há como esperar para ver.
Talvez 13 anos depois de Ricardo Moura ter sido campeão pela terceira vez consecutiva, seja a vez dos Açores voltarem a ter um campeão absoluto nos ralis em Portugal. Para já, tudo indica que sim… Têm a palavra os adversários…










