Perda de potência intriga equipas e pilotos em plena era híbrida
Os novos grupos motopropulsores da Fórmula 1 2026, com gestão híbrida altamente complexa, estão a deixar equipas e pilotos a braços com fenómenos de perda de potência que nem sempre conseguem explicar. Em conferência de imprensa, Kimi Antonelli, Charles Leclerc e Max Verstappen reconheceram que, mesmo com pilotagem e ‘gasto’ de bateria controlados, a distribuição de energia ao longo da volta pode variar de forma imprevisível, gerando frustração e incerteza em momentos decisivos de qualificação e especialmente corrida.

Sistemas de deployment “fazem coisas diferentes” sem aviso
Questionado sobre as dificuldades relatadas por George Russell, Kimi Antonelli admitiu que a situação não é inédita: “Sim, pode acontecer”, afirmou, explicando que em alguns fins de semana existe uma ligeira perda de potência que não se consegue associar diretamente ao estilo de condução ou ao estado da bateria. O italiano recordou um episódio semelhante na Austrália e sublinhou que “às vezes o sistema faz qualquer coisa um pouco diferente”, num contexto em que a sofisticação dos algoritmos de gestão energética torna quase impossível garantir comportamento totalmente previsível em todas as circunstâncias.
Antonelli destacou ainda que, em circuitos muito exigentes do ponto de vista energético, uma alteração mínima de ritmo ou trajectória pode desestabilizar o modelo de gestão de energia, com o software a interpretar inputs de forma “um pouco louca”. O piloto reforçou ainda a necessidade de reconhecer o trabalho das equipas, que lidam com sistemas de enorme complexidade e tentam simplificar a utilização para os pilotos, embora admitindo que “é difícil ter tudo perfeito” em cada fim de semana.
Leclerc fala em frustração com resultados inconsistentes
Charles Leclerc corroborou o diagnóstico, sem entrar em detalhe sobre o caso específico de Russell, mas reconhecendo que há dias em que “se fica a coçar a cabeça” a tentar perceber porque se perde tanto tempo nas rectas. O monegasco descreveu situações em que, repetindo exatamente o mesmo procedimento volta após volta, obtém níveis de deployment diferentes, o que torna mais difícil afinar o carro e preparar uma volta lançada com confiança.
Leclerc explicou que, em treinos livres, já sentiu perdas significativas que só conseguiu mitigar com pequenos ajustes de afinação e estratégias de energia antes da qualificação, ilustrando como “coisas em segundo plano estão constantemente a mudar” sem que o piloto tenha controlo directo sobre esse comportamento. Em discurso indireto, o ferrarista assumiu que essa imprevisibilidade é “muito frustrante”, porque mesmo quando um piloto cumpre à risca o plano, o sistema pode reagir de forma diferente e comprometer o resultado.
Verstappen resume nova era híbrida: “bem‑vindos à F1 2026, às vezes é uma selva”
Max Verstappen, que já tinha classificado o novo regulamento técnico como a sua “era menos favorita” devido ao aumento de complexidade, resumiu a situação com ironia: “Bem‑vindos à F1 2026. Às vezes pode ser uma selva”. O holandês tem alertado para o carácter contra‑intuitivo da gestão energética — com maior dependência da bateria e mapas de potência sensíveis a pequenos desvios de aceleração — e insiste que o desafio deixou de ser apenas guiar o mais depressa possível, passando também por “navegar” sistemas que podem cortar energia em pontos inesperados da volta.
Em declarações anteriores, Verstappen já se tinha mostrado preocupado com situações como arranques com bateria próxima de zero, que podem criar diferenças grandes de aceleração e até riscos adicionais em grelhas compactas. Em linha com Antonelli e Leclerc, o tetracampeão Mundial de F1 considera que existem soluções relativamente simples para tornar estes sistemas mais previsíveis e seguros, mas sublinha que dependem da aprovação regulamentar, deixando claro que a Fórmula 1 2026 vive uma fase em que o limite entre inovação tecnológica e “selva” operacional é particularmente ténue.
FOTO MPSA Agency












