A Escuderia Castelo Branco volta a estar no centro do debate do Campeonato de Portugal de Ralis, mas em prova o foco mantém-se inabalável. Entre críticas aos horários, a polémica escolha entre provas e os desafios logísticos de levar o espetáculo ao coração da cidade, o presidente João Lucas prefere centrar atenções no essencial: garantir um rali com público, impacto local e ambição de continuidade num calendário onde acredita que Castelo Branco tem “lugar por direito próprio”.
Esta entrevista foi feita na manhã de sábado, do segundo dia de prova. Pouco depois, João Barros deparou-se com um carro civil em sentido contrário num troço, que é só das piores coisas que podem suceder a uma organização, devido ao risco de segurança que se correu. Já tudo foi explicado publicamente, a organização do Rali de Castelo Branco e Vila Velha de Ródão esclareceu que a invasão resultou de uma “atitude irresponsável” do condutor, que violou deliberadamente as barreiras físicas e as instruções de segurança e garante não ter existido qualquer falha no seu dispositivo de segurança.
Portanto, esse tema não poderia ter sido abordado na entrevista, mas houve muitos outros temas relevantes para conversar. Vamos a eles…

AutoSport: João Lucas, a Escuderia Castelo Branco tem-se mostrado crítica quanto à novidade de escolha entre duas provas, neste caso, os ralis de Lisboa e Castelo Branco. Já falou muito publicamente sobre o assunto, percebe-se que é um tema pouco confortável para vocês. Fale-me da história toda que levou a isso e a vossa a vossa visão de tudo isto.
João Lucas (Presidente da Escuderia Castelo Branco) “Muito obrigado por nos dar mais esta oportunidade. Pois é sempre muito bom podermos divulgar a nossa atividade, o nosso clube e dessa forma também promovermos aqui um pedacinho da nossa cidade, o nosso território.
Em relação à pergunta que me fez, não lhe vou responder diretamente a isso. Hoje, obviamente, não era aquilo que queríamos, mas estou completamente focado no Rali de Castelo Branco. É isso que me interessa hoje que corra bem. Como sabe, a prova está a decorrer. E é esse o nosso foco. Tudo faremos para que este rali seja um sucesso. Que a prova seja uma festa. Até agora está a correr muito bem. Esperamos que assim continue. É esse o nosso foco de hoje. Portanto, peço-lhe imensa desculpa, mas não vou alimentar mais essa discussão por isso…”

AS: Outra coisa que também já vem do ano passado. Há muitas críticas de equipas quanto aos horários do Rali de Castelo Branco. E este ano, voltou a haver. Penso que houve até alguma pressão para mudarem horários. Qual é a vossa visão quanto a isso?
JL: “É verdade, só que existe depois uma outra vertente que as equipas não dizem. E porquê? Porque cada um, de facto, olha para os seus interesses.
Mas depois há há há uma há uma matéria que é global que se chama público e e visibilidade da prova, do evento em si, que esses mesmos que reclamam no horário – que têm a sua razão – não pensam na outra parte, e nós temos que pensar no bolo como um todo, na globalidade do problema. O que é que acontece? A grande maioria dessa crítica é em relação à Power Stage, que é mais tarde, e empurra a entrega de prémios para um pedacinho mais tarde.
Agora vejam.
Nós já fazemos rali às sextas- feiras e aos sábados. É muito difícil arranjar voluntários. Nós precisamos de cento e tal ou 200 pessoas. Nós temos muitos voluntários aqui para que esta prova se possa realizar e os nossos colegas organizadores assim o farão também. O que é que acontece? Em relação ao horário…
Se nós fizermos, ponto um, Castelo Branco é bastante quente, como sabe. Quem é que pode estar aqui numa entrega de prémios às 6 ou 7 da tarde? Ao sol, sem qualquer condição para quem quer assistir?
Porque é hora de jantar? Porque mais cedo algumas ainda estão nos seus empregos, estão em serviço de trabalho aos sábados em algumas empresas. Portanto, nós não teríamos tanta visibilidade.
Logo, não tendo visibilidade, não tendo público, não temos festa. Porque esses mesmos senhores, e com a sua razão, que apelam a que o horário seja seja abreviado, que tudo aconteça mais cedo, são os mesmos que depois querem ter público. Penso que nenhum piloto e nenhum organizador quer ter uma entrega de prémios sem público, sem gente à sua volta.
Mas nós também, a Escuderia Castelo Branco, queremos que o nosso rali seja uma festa, que alavanque o desporto, que alavanque a nossa economia e darmos também um retorno às nossas gentes, àqueles que nos apoiam todos os dias. É só esse o objetivo da Escuderia Castelo Branco. O público é uma das principais razões de existirem ralis. É para o público. Claro que os pilotos divertem-se, competem, mas o público desfruta, porque é um espetáculo.”

AS: Vocês levaram o rali para o centro da cidade num troço como a Power Stage, e não só, , também fazem as super especiais. Julgo que isso seja muito complicado a vários níveis. É mais difícil fazer um troço como a PowerStage que têm tido, do que como anteriormente só a super especial?
JL: “É bem mais difícil, porque temos que duplicar os meios. As pessoas que estão na super especial não são as mesmas em termos de número do que as que estão na Power Stage. Todo o staff ajuda a montar a prova e continua a acompanhar a prova, depois há que montar tudo dentro da cidade, é voltamos outra vez a falar da mesma coisa. Nós queremos que o rali tenha público, tenha muito público. E a forma de o fazer, como sabem – o ser humano é por vezes um pedacinho comodista – então, é muito mais fácil para o público nós levarmos o evento às suas casas do que o público sair das suas casas e ir à procura do evento. Também é para isso que nos dão os apoios que muito agradecemos. A Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, Câmara Municipal de Castelo Branco, é de facto o nosso maior patrocinador, depois temos a Lubrialbi, a Castrol, que que também é um apoio extraordinário há vários anos que nos apoiam. Portanto, a todos, muito lhes agradecemos. De qualquer das formas, não há rali em circuitos fechados, os ralis são em estrada aberta, onde o povo possa ter acesso. Portanto, aqui no centro da cidade, o acesso é mais facilitado porque há cá mais gente. Temos mais massa humana.
Portanto, penso que é um evento que podemos fazer com que tenha um retorno bem maior, até para vocês, jornalistas, que tenham um apoio, um retorno bem maior do que se fizéssemos isto sem gente. Não faz qualquer sentido para a escuderia. É muito mais difícil, como sabem, fechar 10 ruas, 20 ou 30 ruas, que é o que fazemos.
Nós fechamos praticamente meia cidade para fazer este troço.
E por isso também tenho que pedir desculpa aos habitantes aqui da nossa malha urbana, que são muitos milhares, porque de facto causamos-lhe transtorno. Ainda assim, nós queremos que isto tenha um retorno para a cidade e para todos nós.

AS: Com esta extensão, é mesmo é algo inédito, e para além do pesadelo logístico que é enorme. E também já tinham feito a super especial ontem…
JL: “E ao fim de 30, 40 minutos, as ruas estavam todas transitáveis outra vez. Tem que ter um esforço para libertar as ruas. O meu amigo hoje anda aqui na rua, não tem nenhuma rua impedida de passar. Vai tê-la logo ao fim do dia outra vez para que a Power Stage aqui passe. Mas as ruas 30 minutos fecham. Amanhã de manhã, se passar na nossa cidade, já cá não há rali. Já não se vê nada. Porque nós vamos trabalhar toda a noite para que isso aconteça.
AS: Quantas pessoas têm mais ou menos nesta na montagem da Power Stage ou da super especial?
JL: “Nós calculamos que temos cá só na Power Stage na casa das 60, 70 pessoas. Só na Power Stage. Para que possa ser, são os mesmos normalmente da super especial…”

AS: Por vezes há muita gente que se queixa disto ou daquilo, não gosta do rali, mas poucos devem ter consciência do que é organizar uma prova deste calibre. Quer me explicar o processo e falar um pouco das principais dificuldades?
JL: “Nós temos uma mais-valia em Castelo Branco, que é a articulação que temos, de excelência, reforço, de excelência mesmo, com a Câmara, com com a Proteção Civil, a Guarda Nacional Republicana, que também interfere aqui, a PSP, que é quem mais interfere dentro da cidade. Nós temos uma articulação e um retorno extraordinário com todas essas entidades. Uma relação muito fácil, de cordialidade, ajuda, porque também penso que eles percebem a importância deste evento para nós. Nós vivemos na periferia, continuamos a ser gente tratados lá por Lisboa, como gente de segunda, porque está cá calor, é longe, não faz muito sentido ir a Castelo Branco, só que isto é um território que temos que todos temos que alimentar. A regionalização tem que potenciar-se em vez de dividir.
Portanto, nós, tendo essa vantagem de termos esta articulação extraordinária, tanto com a Câmara como com todas as outras entidades, dá-nos de facto muito trabalho, mas posso-lhe dizer que para a nossa força não nos é difícil montar a prova.

AS: Este ano o Rali de Castelo Branco teve esta questão da divisão e escolha das provas, mas vocês estão estão confiantes que vão regressar com o rali com plenos poderes?
JL: “Sim, temos consciência daquilo que estamos a fazer, estamos a fazer bem. Portanto, seria uma injustiça da Federação que para o ano não tivéssemos rali.
Temos a convicção de que vamos ter prova em 2027, e penso que temos por direito próprio estar lá. Se tudo correr bem até ao fim, espero que sim, estamos no último dia de rali. Espero que tudo decorra como está a correr até agora. Tudo faremos para que isso aconteça. Portanto, não vou dizer que tenha certeza absoluta, porque não está nas nossas mãos, mas tenho sinceramente muita convicção de que vamos ter rali em 2027…”








